Falências na formação. Argentina discute Cursos de Economia

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17 Setembro 2011

"Entendemos que é imprescindível avançar nesta direção a fim de recuperar uma formação do economista, qualquer que seja seu âmbito de inserção profissional, que lhe permita contribuir para o desenvolvimento de nossos países e nossos povos, afastando-se para sempre da aplicação irreflexiva de recomendações de políticas que desconhecem especificidades históricas e estruturais da região". A afirmação é dos professores Karina L. Angeletti e Pablo Lavarello, das Cátedras Nacionales y Populares, FCE-UNLP, e está publicada no jornal argentino Página/12, 12-09-2011. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A reformulação do Plano de Estudos do curso de Licenciatura em Economia da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Nacional de La Plata proposta por parte das autoridades do Departamento de Economia deixa uma vez mais postergado o debate sobre qual deveria ser a formação dos economistas em um país como o nosso [a Argentina]. Nos últimos 30 anos esta Faculdade esteve enviesada para uma formação segundo a qual se procura explicar como é possível alcançar o máximo de bem-estar da sociedade a partir de uma concepção utópica de mercado. Qualquer desvio que houver entre essa concepção utópica e o funcionamento real dos mercados é considerado uma "distorção" que deve ser corrigida mediante a abertura, a desregulação e a liberalização da economia. Apenas naqueles casos pontuais em que existem "falhas de mercado" (exemplo: a presença de bens públicos) se justificaria algum tipo de política.

A proposta de reforma feita pelas autoridades da Faculdade consolida esta visão, transformando em opcionais as poucas matérias ainda existentes que permitiriam explicar os problemas econômicos a partir de outras perspectivas. Assim mesmo, se elimina a Sociologia como matéria, se reduz a uma única disciplina obrigatória a história econômica e se envia para cursarem a Faculdade de Humanidades aqueles estudantes que considerarem necessário ampliar a temática. Ao mesmo tempo em que se reduzem estes conteúdos, procura-se interpretar os conflitos reforçando a formação na Teoria dos Jogos. Embora se mantenha uma forte formação em ferramentas econométricas e matemáticas, as falências de uma formação teórica crítica desperdiçam seu potencial para se colocar questões e contrastar hipótese. A formação do graduado perde densidade teórica e se torna ahistórica e associal, aprofundando as falências que o plano vigente possui.

A preeminência desta visão, que denominamos de Teoria Econômica Padrão (TEE), leva a uma espécie de esquizofrenia na formação do economista. Esta visão não apenas impede a interpretação das crises internacionais, mas muitas vezes se encontra na sua origem. Tampouco permite explicar como um país como a Argentina que não segue suas recomendações conseguiu minimizar os efeitos da crise internacional em 2009 e manter nove anos de crescimento, iniciado em 2003. Muito menos consegue identificar os possíveis limites estruturais, como a limitada diversificação e a persistente heterogeneidade da estrutura produtiva, que podem atentar contra a sustentabilidade deste caminho. Problemas estruturais que reaparecem no debate econômico e que constituem o sintoma de uma nova realidade à qual a universidade deve responder com cabeça própria.

Acreditamos que é necessário avançar rumo a uma verdadeira reformulação dos Planos de Estudo introduzindo uma orientação que denominamos de Teoria Estrutural do Desenvolvimento (TED), que procura ir além de um conjunto delimitado de conteúdos heterodoxos, permitindo também a incorporação ao plantel docente de professores com formações diferentes da dominante. Para isso propomos um tronco comum de três anos e duas orientações para os dois últimos anos, uma em TEE e outra em TED, cada uma com uma coerência própria. Ambas as orientações compartilhariam vários cursos, possibilitando o debate entre ambas.

É de destacar que em nossa região já existe desde os anos 1950 um conjunto coerente de contribuições que buscou explicar os problemas estruturais que qualquer processo de desenvolvimento em um país periférico coloca. É o caso dos trabalhos dos pioneiros do desenvolvimento como Prebisch, Furtado, Hirschmann, Pinto, entrou outros. Nesta orientação, se incorporam as contribuições dos pós-keynesianos, regulacionistas, institucionalistas e evolucionistas, entre outros, que permitem introduzir as dinâmicas da mudança estrutural, acumulação de capital e os comportamentos em desequilíbrio nos fundamentos mesmos da formação do economista.

Entendemos que é imprescindível avançar nesta direção a fim de recuperar uma formação do economista, qualquer que seja seu âmbito de inserção profissional, que lhe permita contribuir para o desenvolvimento de nossos países e nossos povos, afastando-se para sempre da aplicação irreflexiva de recomendações de política que desconhecem especificidades históricas e estruturais da região.