Desmond Tutu e a inclusão de gays na Igreja

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

14 Junho 2011

O texto que segue é um trecho do novo livro do arcebispo anglicano e prêmio Nobel da Paz de 1984 Desmond Tutu, God Is Not A Christian: And Other Provocations [Deus não é cristão: E outras orovocações].

O arcebispo Tutu diverge das políticas oficiais da maior parte das Igrejas anglicanas do mundo, que defendem que gays e lésbicas devem ser celibatários. E, desde a sua aposentadoria como arcebispo da Cidade do Cabo, ele se tornou uma das figuras mais proeminentes do mundo que pedem uma mudança nas atitudes das instituições religiosas com relação à sexualidade humana.

O artigo foi publicado no sítio The Huffington Post, 11-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Um estudante uma vez me perguntou: se eu pudesse fazer um pedido para reverter uma injustiça, qual seria? Eu tive que pedir duas. Uma é para que os líderes mundiais perdoem as dívidas das nações em desenvolvimento que as mantêm nesse estado de submissão. A outra é para que o mundo acabe com a perseguição das pessoas por causa de sua orientação sexual, que é tão injusta quanto o crime contra a humanidade, o apartheid.

Essa é uma questão de justiça comum. Lutamos contra o apartheid na África do Sul, apoiados por pessoas de todo o mundo, porque os negros estavam sendo culpados e obrigados a sofrer por algo que não podíamos fazer nada a respeito – a nossa própria pele. É o mesmo com a orientação sexual. É um dado determinado. Eu não poderia lutar contra a discriminação do apartheid e não lutar também contra a discriminação que os homossexuais suportam, mesmo em nossas Igrejas e grupos de fé.

Estou orgulhoso porque, na África do Sul, quando ganhamos a chance de construir a nossa própria nova Constituição, os direitos humanos de todos foram expressamente consagrados nas nossas leis. Minha esperança é de que, um dia, isso vai acontecer em todo o mundo, e que todos terão direitos iguais. Para mim, essa luta é uma túnica sem costura. Opor-se ao apartheid era uma questão de justiça. Opor-se contra a discriminação contra as mulheres é uma questão de justiça. Opor-se contra a discriminação com base na orientação sexual é uma questão de justiça.

Também é uma questão de amor. Todo ser humano é precioso. Todos – todos nós – fazemos parte da família de Deus. Todos devemos ser autorizados a amar uns aos outros com honra. No entanto, em todo o mundo, pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros são perseguidas. Tratamo-las como párias e empurramo-las para fora das nossas comunidades. Fazemo-las duvidar de que elas também são filhos de Deus. Essa deve ser quase a blasfêmia suprema. Culpamo-las pelo que elas são.

As Igrejas dizem que a expressão do amor em uma relação monogâmica heterossexual inclui o aspecto físico – o toque, abraço, beijo, o ato genital. A totalidade do nosso amor faz com que cada um de nós cresça e se torne cada vez mais semelhante a Deus e compassivo. Se isso é assim para os heterossexuais, que motivos razões terrenas temos para dizer que não é assim com os homossexuais?

O Jesus a quem eu louvo provavelmente não colabora com aqueles que difamam e perseguem uma minoria já oprimida. Eu mesmo não poderia me opôr contra a injustiça de penalizar as pessoas por algo que elas não podem fazer nada – sua raça – e depois me manter em silêncio enquanto as mulheres são penalizadas por algo que elas não podem fazer nada – seu gênero. Daí o meu apoio à ordenação das mulheres ao sacerdócio e ao episcopado.

Igualmente, não posso ficar quieto enquanto as pessoas são penalizadas por algo que não podem fazer nada – sua sexualidade. Discriminar nossas irmãs e irmãos que são lésbicas ou gays com base em sua orientação sexual, para mim, é totalmente inaceitável e injusto quanto o apartheid sempre foi.