"O carro é uma invenção mais apocalíptica que a bomba atômica", diz arquiteto

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10 Junho 2011

Kenneth Frampton (nascido em Woking, Reino Unido, em 1930) só construiu um edifício de moradias de aluguel em Londres e outro de habitação social nos EUA. "Creio que percebi que poderia contribuir mais para o mundo escrevendo e ensinando arquitetura do que tentando construí-la", explica em Madri, convidado pela Asociación de Becarios de La Caixa. E tem sentido. Seu livro "Uma História Crítica da Arquitetura Moderna" (ed. Gustavo Gili) é a bíblia dos estudantes dessa disciplina. Desde que o escreveu, em 1980 - ele vive nos EUA, para onde emigrou em 1966 para dar aulas nas Universidades de Princeton e Columbia -, o revisou três vezes. Na primeira acrescentou seu famoso regionalismo crítico, que reflete como o "genius loci" marca os edifícios (1985); na segunda indagou sobre as arquiteturas fragmentadas da desconstrução (1992); e na última explicou os efeitos da globalização, o fenômeno dos arquitetos estrelas e também a sustentabilidade (2007).

A reportagem é de Anatxu Zabalbeascoa, publicada pelo jornal El País, e reproduzida pelo Portal Uol, 11-06-2011.

Frampton afirma que não trabalha em uma quarta revisão, mas considera que o impacto da crise será notável. A arquitetura também se ressentirá do espetáculo, ou simplesmente mudará para outro lugar?

"A manhattanização do mundo continuará em países emergentes como China e Rússia: a arquitetura especulativa move dinheiro, e isso garante que a proliferação de arranha-céus não vá parar", afirma. Dos últimos anos considera que o pior foi "tratar a arquitetura como arte, como esculturas gigantescas; isso reduz a arquitetura à fachada dos edifícios". Mas considera positiva a atenção prestada na mídia. "Conhecemos obras levantadas com meios escassos como a de Francis Kéré na África."

Podem-se impor outros valores para repensar a arquitetura e o urbanismo? Com tantos arquitetos recém-formados desempregados, a realidade social romperá a tradicional endogamia da arquitetura? Frampton admite que sua profissão hoje é mais precária que nunca, mas salienta que aqui o caso se agravou: "Depois da morte de Franco a Espanha viveu uma idade de ouro da arquitetura, com muitos edifícios públicos. Poucos países poderiam igualar a diversidade e a qualidade do que foi construído aqui, mas tudo se acaba".

Hoje, a imagem maior da arquitetura mundial fala de exemplos refinados convivendo com a barbárie: "Oitenta por cento do que se constrói é medíocre e está mal feito". O que não funciona em uma profissão na qual muitos grandes nomes fazem duas contabilidades: a da arquitetura que se publica e a que não deve ser publicada? "A dedicação exaustiva é pouco rentável. Os edifícios nos quais se repete uma planta são a melhor fonte de renda. Mas nem todos os grandes fazem isso. Os portugueses não: nem Álvaro Siza nem Souto de Moura", esclarece.

Como eles, Frampton é um grande defensor do movimento moderno. "Foi o primeiro movimento global: os objetivos o eram e o resultado também. Era progressista e mudou a face da Terra. O legado continua vivo e com potencial, demonstrou saber absorver novas tecnologias e poder trabalhar com pouco". Lembra que a influência do Renascimento se estendeu até o século 19, e pensa que a da modernidade também poderá durar séculos.

O Renascimento não chegou à África e o movimento moderno, sim. Por isso Frampton acha fundamental o regionalismo crítico: como as culturas modificam uma ideia que permite a reelaboração ao contato com as tradições. Hoje o professor reconhece que a leitura dos historiadores foi "imperialista e eurocêntrica" e que a outra metade do mundo - África, Sudeste Asiático e a América do Sul que fica além de Barragán ou Niemeyer - poderia ser um modelo nesta época de crise.

Frampton exerceu a crítica em seus livros ou aulas - "Ninguém me pediu que escrevesse para um jornal" -, e hoje considera que entre os grandes mestres modernos, como Le Corbusier, Mies van der Rohe ou Frank Lloyd Wright, o finlandês Alvar Aalto é o que soube se manter mais vivo. "Sua herança é a mais rica. Não só por sua atitude em relação à paisagem, mas também por antecipar a preocupação com a sustentabilidade e o respeito pelo local".

Ele vê na transferência de Mies van der Rohe para os EUA a maior contribuição americana para a arquitetura moderna: "A maneira elegante e minimalista de levantar edifícios com estrutura metálica e fachadas de vidro mudou a face das cidades. Transformou-se em sinônimo de urbano e foi exportada para todo o mundo". Também houve uma contribuição espanhola? Frampton escreveu que no mundo há quatro países com uma alta cultura arquitetônica: Japão, Espanha, França e Finlândia. "Não se trata de que exista uma figura isolada, mas sim um grande número de arquitetos levantando edifícios de grande qualidade. Isso é cultura arquitetônica. A Espanha o conseguiu graças aos governos da Transição e à classe média", afirma.

Hoje não saberia julgar. Fazia 50 anos que não visitava Madri e se declara "incapaz de entender os limites da cidade". "O crescimento sem limites não faz cidades. É um reflexo do consumismo", afirma. "O automóvel é a invenção mais apocalíptica de todos os tempos. Mais ainda que a bomba atômica, porque está no mundo inteiro e não tem retorno. O automóvel está tão integrado ao funcionamento de nossa economia que não poderemos prescindir dele. Mesmo que caminhemos."