Árabes já haviam enterrado Bin Laden

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03 Mai 2011

Ao imolar-se como um bonzo, sem causar o menor dano a terceiros, o tunisiano Mohamed Buazizi deu, em dezembro passado, uma punhalada mortal na consciência popular árabe de Bin Laden, Al Qaeda e seus terroristas suicidas. A centelha de Buazizi se acendeu imediatamente na ação corajosa e pacífica nas ruas de Túnis, Cairo, Benghazi, Saná, Deraa e outras cidades de centenas de milhares de árabes que não demoraram a derrubar os ditadores Ben Ali e Mubarak e pôr em sérios apertos Gaddafi e Assad. Os cidadãos reunidos em massas combatentes triunfavam ali onde a brutalidade da Al Qaeda nada havia conseguido.

O comentário é de Javier Valenzuela, publicado pelo jornal El País e reproduzido pelo Portal Uol, 04-05-2011.

Bin Laden morreu como um fracassado. Sua jihad terrorista não conseguiu derrubar nenhum dos regimes árabes que denunciava como despóticos e infiéis, nem sequer o do faraó Mubarak, tão detestado pelo egípcio Al Zawahiri, o número 2 dessa rede de redes e suposto sucessor de Bin Laden. De fato, foi patético, uma verdadeira confissão de impotência e derrota, o silêncio da Al Qaeda durante o combate dos egípcios na praça Tahrir.

Essa jihad tampouco conseguiu recuperar uma só polegada dos territórios árabes e muçulmanos ocupados por tropas israelenses ou ocidentais. Quanto a suas ideias milenares de um califado islâmico, haviam-se tornado excêntricas em um mundo árabe que ocupava ruas e praças para pedir liberdade e dignidade, para reclamar democracia.

Antes de ser abatido ontem por comandos americanos, Bin Laden já tinha perdido a batalha dos corações e das mentes árabes, os de sua própria gente, a que falava sua própria língua, aquela em que está escrito o Corão. Em algum momento, depois do 11 de Setembro ao início das invasões do Afeganistão e Iraque, o saudita, é verdade, tinha sido popular entre alguns setores desesperados do mundo árabe; mesmo rejeitando seus métodos bestiais, havia quem encontrasse neles alguma justificativa. Era uma espécie de vingador de tanta tirania e corrupção na "umma", de tanta falta de vergonha ocidental na região. Mas esses sentimentos haviam-se desvanecido.

É que entre o 11 de Setembro e ontem aconteceram muitas coisas. O próprio fracasso da Al Qaeda na realização de seus objetivos; a substituição de um Bush belicista e fundamentalista por um presidente de pele escura e origens familiares muçulmanas que, em seu histórico discurso do Cairo e ontem mesmo, não deixou de salientar que não tem nada contra o islã e, ainda mais importante, as mudanças demográficas, tecnológicas e intelectuais no norte da África e no Oriente Médio.

O surgimento de juventudes urbanas conectadas com o mundo via Internet e a televisão por satélite e dispostas a lutar pacificamente pela democracia foi transformando a Al Qaeda em um elemento marginal no mundo árabe. Note-se que, caso ainda esteja enraizada em algum lugar, é no Afeganistão e no Paquistão - países muçulmanos mas não árabes - e em regiões periféricas do mundo árabe como Iêmen e o Sahel.

Portanto, Bin Laden foi morto por armas americanas, mas sua gente já o havia enterrado antes.