O colapso socioambiental não é um evento, é o processo em curso

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

21 Janeiro 2021

"Esse nível desastroso de aquecimento médio global, jamais experimentado por nossa espécie, não é o efeito de fatores adventícios e independentes de nossa vontade, mas está inscrito no modus operandi da economia capitalista globalizada. Se há ainda alguma incerteza sobre o ritmo e a magnitude futura do aquecimento global, isso se deve ao fato de que esse ritmo e essa magnitude ainda dependem substancialmente da capacidade das sociedades contemporâneas de operar uma drástica ruptura civilizacional com seu DNA termo-fóssil, seu paradigma alimentar destrutivo da biosfera e seu sistema político e econômico de tomadas de decisão, concentrado nas mãos de conglomerados corporativos e de burocracias dos Estados-Corporações", escreve Luiz Marques, professor livre-docente do Departamento de História do IFCH/Unicamp, coordenador da coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e que participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização, em apresentação de artigo[1] publicado por EcoDebate, 20-01-2021.

Eis o texto.

Imagem: EcoDebate

Publicado no início deste ano, o texto tenta sistematizar dados e reflexões sobre:

1. Como compreender, conceitualmente, o colapso socioambiental em curso.

2. Esse processo torna-se inequívoco, em especial com a aceleração recente do aquecimento global (+0,2 C entre 2015 e 2019) e com a inevitabilidade de aquecimentos sucessivos, mesmo sem ulteriores emissões de gases de efeito estufa, dado o atual desequilíbrio térmico do planeta.

3. Os horizontes de tempo projetados para aquecimentos médios globais (terrestre e marítimo combinados) de 1,5 grau Celsius e 2 graus Celsius acima do período pré-industrial, e os diferentes impactos decorrentes desses dois níveis de aquecimento, no que se refere às seguintes adversidades, intimamente associadas:

(a) maior recorrência e intensificação de ondas e picos de calor letais;

(b) incêndios e destruição das florestas, com liberação adicional de CO2;

(c) extinção em massa de espécies (80% das espécies terrestres têm seu habitat nas florestas);

(d) colapso da criosfera, com liberação adicional de CO2 e metano do leito marinho no Ártico e do permafrost;

(e) colapso da corrente do Golfo e demais mudanças adversas nas correntes marítimas;

(f) elevação do nível do mar combinada a mais intensos e recorrentes eventos meteorológicos extremos, provocando crescente destruição da infraestrutura (incluídas as usinas nucleares instaladas à beira-mar);

(g) riscos mais elevados para a agricultura e diminuição da produtividade agrícola, com sempre maior insegurança alimentar e hídrica;

(h) mais recorrentes, e possivelmente mais letais, pandemias e demais crises sanitárias.

4. As ameaças crescentes que esses fenômenos representam para a sobrevivência de nossas sociedades e, no limite, para nossa espécie, podem ser melhor entendidas através da mensuração de alguns dos impactos já sofridos no presente, com o aquecimento médio de 1,2 grau Celsius acima do período pré-industrial, atingido em 2019.

A proposta básica do artigo é chamar a atenção para o consenso científico, reiterado mais uma vez em 2018 pelo IPCC, segundo o qual nenhuma sociedade, por mais recursos materiais e tecnológicos que tenha, permanece minimamente funcional num planeta em média “apenas” 1 grau Celsius mais quente do que ele já está hoje (ou seja, 2,2 graus C acima do período pré-industrial).

Nas palavras de Sir Brian Hoskins, Diretor do Grantham Institute for Climate Change (Londres): “Não temos evidência de que um aquecimento de 1,9 grau Celsius é algo com que se possa lidar facilmente, e 2,1 graus Celsius é um desastre”. Esse nível desastroso de aquecimento médio global, jamais experimentado por nossa espécie, não é o efeito de fatores adventícios e independentes de nossa vontade, mas está inscrito no modus operandi da economia capitalista globalizada. Se há ainda alguma incerteza sobre o ritmo e a magnitude futura do aquecimento global, isso se deve ao fato de que esse ritmo e essa magnitude ainda dependem substancialmente da capacidade das sociedades contemporâneas de operar uma drástica ruptura civilizacional com seu DNA termo-fóssil, seu paradigma alimentar destrutivo da biosfera e seu sistema político e econômico de tomadas de decisão, concentrado nas mãos de conglomerados corporativos e de burocracias dos Estados-Corporações.

Posto que um aquecimento desastroso será atingido em algum momento do segundo quarto do século XXI, mais provavelmente nos anos 2030, o tempo dado às sociedades (após 40 anos de tergiversações) para se desviar dos piores cenários da atual trajetória do sistema climático e da aniquilação da biosfera conta-se agora em pouquíssimos anos. Na realidade, 2020 é a data limite para o início da diminuição das emissões de GEE no cenário mais favorável do IPCC (RCP 2,6 W/m2). A pandemia provocou essa diminuição, mas as emissões já estão aumentando novamente na China, com a retomada econômica, e no Brasil, por causa dos incêndios florestais.

A apresentação de uma plataforma política de sobrevivência para o nosso tempo, baseada na ciência, constitui o último item propositivo do artigo.

Cordialmente, Luiz Marques.

 

Nota:

[1] O artigo foi publicado no número inaugural da revista Rosa e pode ser conferido na íntegra aqui.

 

Leia mais