Atas de seminário da Pontifícia Academia para a Vida são publicadas. Entrevista com Vincenzo Paglia

Fonte: Vaticannews

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

15 Julho 2022


O arcebispo Vincenzo Paglia, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, explica em entrevista aos meios de comunicação do Vaticano a finalidade do livro Ética Teológica da Vida. Escrituras, tradição e desafios práticos publicado pela Libreria Editrice Vaticana e que estará nas livrarias a partir de 01 de julho.

 

A entrevista é publicada por Vatican News, 30-06-2022. A tradução é do Cepat.

 

A Libreria Editrice Vaticana publica um livro intitulado Ética Teológica da Vida. Escrituras, tradição e desafios práticos. O volume reúne as atas de um seminário de estudo interdisciplinar promovido pela Pontifícia Academia para a Vida. Conversamos sobre isso com o arcebispo Vincenzo Paglia, presidente da Pontifícia Academia e revisor da publicação.

 

Eis a entrevista.

 

Dom Paglia, o texto é muito amplo e denso. Como surgiu este projeto?

 

A iniciativa é inspirada nos inúmeros pedidos que o Papa Francisco dirige aos teólogos em seus discursos e documentos. Ouvimos dizer que o Santo Padre não está interessado na teologia. Mas se prestarmos mais atenção ao que ele realmente diz, não parece possível dizer uma coisa dessas. Então nos perguntamos: estamos realmente ouvindo o magistério do Papa Francisco? Levamos a sério suas palavras de forma orgânica, ou apenas usamos uma expressão, que, além disso, está isolada do contexto de todas as suas reflexões? Examinamos as implicações que isso tem para o pensamento teológico? Se olharmos a Evangelii Gaudium, a Laudato Si', a Amoris Laetitia e a Veritatis Gaudium a partir dessa perspectiva, perceberemos que as solicitações nelas presentes abrem um novo horizonte para a teologia e para a tarefa dos teólogos, com forte ênfase no diálogo e no enriquecimento mútuo dos diferentes conhecimentos.

 

O livro é dedicado exclusivamente a temas que têm a ver com a vida. Como é isso?

 

A ética teológica da vida humana é um campo particular no qual a Academia está interessada, no qual os temas da corporeidade e das práticas de saúde são de particular interesse. É também uma área em que a contínua inovação científico-tecnológica impulsiona a reflexão. Quando começamos nosso itinerário, estávamos nos aproximando do vigésimo quinto aniversário da Evangelium Vitae. Assim, nos propusemos a reler, muitos anos depois, os principais temas tratados na encíclica de São João Paulo II. E o fizemos convidando teólogos e especialistas em vários campos para um seminário de estudos em Roma em 2021. Os convidados vieram de vários continentes e expressaram diferentes sensibilidades e abordagens teológicas. O livro agora publicado reúne as atas deste seminário. O Papa Francisco foi informado de cada passo e incentivou o projeto.

 

Na introdução, o senhor escreve que se trata de um “unicum”. O que quer dizer com isso?

 

Por um lado, a iniciativa parte de uma Pontifícia Academia, instituição que faz parte da Santa Sé, mas, por outro, nossa reflexão não se limita a explicar textos do Magistério. Em vez disso, pretendemos colocar em diálogo – como explico mais detalhadamente na introdução – opiniões divergentes sobre temas até controversos, propondo muitos pontos de debate. Assim que a perspectiva é prestar um serviço ao Magistério, abrindo um espaço para falar que possibilite a pesquisa e a promova. É assim que interpretamos o papel da Academia, que o próprio Francisco também quis nas questões de fronteira numa chave transdisciplinar.

 

O cuidado com a inteligência da fé deve proceder cultivando este campo de elaboração das intuições e avanços necessários: escutar a voz do Espírito que explica sempre de novo o Evangelho de Jesus, para interceptar com nova eficiência os processos nos quais se formam os paradigmas da cultura humana (Veritatis Gaudium). Aceitar a seriedade dos processos de elaboração deste dinamismo eclesial, que não se resigna à mera repetição de fórmulas inertes ou à mera adaptação dos lugares-comuns, faz parte do ministério confiado com autoridade à Pontifícia Academia.

 

Na sua opinião, o “método” de trabalho é a principal novidade?

 

Sim, desde o início ficou claro para mim que era essencial um clima de pesquisa, diálogo e confronto entre os participantes. Como já foi dito, e vale ressaltar, não buscamos apenas o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, mas também entre perspectivas e modelos teológicos que desenvolvem uma compreensão sapiencial e pastoral da fé: para fazer ressoar a riqueza da teologia cristã, seu polifacetismo católico. A espinha dorsal deste livro é uma antropologia teológica inspirada na fé eclesial em estreito diálogo com a cultura contemporânea. Constitui a base para abordar questões relativas à vida humana e questões científicas e éticas complexas no contexto do mundo de hoje. É uma tentativa, certamente perfectível, de acolher o convite da Veritatis Gaudium (par. 3) a uma mudança radical de paradigma na reflexão teológica.

 

O que essa perspectiva significou para o desenvolvimento do seminário?

 

Posso responder a essa pergunta observando a articulação dos diferentes capítulos do livro, 12 no total. O ponto de partida é um resumo dos pontos mais relevantes dos discursos e documentos do Papa Francisco. A partir daqui, passamos a examinar o ensino sobre a vida na Bíblia à luz do evento cristológico. Depois de um capítulo que trata de interpretar os principais elementos da cultura do mundo em que nos encontramos hoje, o capítulo seguinte examina criticamente a leitura da tradição magisterial e teológica a respeito do quinto mandamento: “não matarás”.

 

Em seguida, são examinados os temas da consciência, da norma e do discernimento moral. As questões relacionadas à origem da vida e ao papel da sexualidade, do sofrimento, da morte e do cuidado do moribundo situam-se neste amplo quadro. Algumas questões específicas, como o meio ambiente e a vida (incluindo a vida animal) no planeta, geração e procriação responsáveis, cuidados com os moribundos e novas tecnologias, são abordadas como bancos de ensaio para a abordagem geral apresentada nos capítulos anteriores. Ao final do texto, delineia-se o horizonte escatológico fundamental revelado pela revelação, essencial para uma adequada compreensão da vida humana e seu significado, e infelizmente pouco presente hoje na pregação cristã.

 

Quais são as características fundamentais da antropologia teológica subjacentes ao desenvolvimento da reflexão que propuseram?

 

A perspectiva personalista (já fortemente defendida como princípio para o desenvolvimento antropológico da teologia cristã por João Paulo II) deve ser conjugada com uma profunda elaboração cristocêntrica e eclesiológica. A resposta ao chamado de Cristo, nas suas implicações existenciais e na sua declinação pastoral, requer um compromisso que se realiza plenamente na comunidade. É fazendo o caminho junto com os outros, na dimensão social e histórica, que as normas morais são elaboradas e formuladas. Cuidado: a verdade do bem moral nada tem a ver com o consenso; tem a ver com a realidade da pessoa aberta à comunhão e que encontra a sua plenitude no amor, na abertura ao outro, numa verdadeira ética da alteridade.

 

O fato de haver um debate livre e aberto no livro é um sinal de sinodalidade?

 

Certamente. Não há outro caminho, especialmente em questões fundamentais como as relacionadas às múltiplas dimensões da vida humana. Queríamos um itinerário de estudo e reflexão que nos levasse a ver as questões da bioética sob uma nova luz, a partir do papel do discernimento e da consciência formada do agente moral. Não apenas em um clima de parresía que estimule e empodere teólogos, acadêmicos e estudiosos. Mas também com um procedimento análogo ao das quaestiones disputatae: propor uma tese e abri-la ao debate. E o debate pode levar a vislumbrar novos caminhos, para fazer avançar a bioética teológica, incluindo os desenvolvimentos mais recentes favorecidos pelas questões levantadas pela ecologia integral e a dimensão global dos problemas.

 

Como as quaestiones disputatae da Idade Média: não pretendiam suplantar o Magistério autêntico, mas abrir novos horizontes de reflexão e pesquisa, à disposição de seu discernimento específico e autorizado. Certamente é um processo que reflete o encorajamento sinodal e o clima em que o Papa Francisco quer que a Igreja se mova. Precisamente este processo sinodal nos foi indicado com autoridade durante os dias do seminário pelos cardeais Grech e Semeraro que presidiram e fizeram as pregações durante as celebrações eucarísticas. Seus textos também estão reunidos no livro.

 

Leia mais