EUA. Jesuítas fazem parceria com descendentes de escravos vendidos pela ordem para arrecadar 100 milhões de dólares para justiça racial

Foto: Vatican News

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18 Março 2021

A Companhia de Jesus está em parceria com descendentes de escravos que pertenceram e foram vendidos pela ordem religiosa para reconciliar e curar as profundas marcas raciais dos EUA. A Associação de Descendentes GU272, que tem esse nome pelo 272 escravos vendidos pela Georgetown University, e os jesuítas estão formando a Fundação Descendentes da Verdade e da Reconciliação, uma parceria que procura acelerar a cura e avançar na justiça racial nos EUA.

A reportagem é de J.D. Long-García, publicada por America, 15-03-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Os jesuítas comprometeram-se a levantar 100 milhões de dólares para descendentes de escravos, de acordo com o The New York Times, que primeiro noticiou o anúncio da fundação. A Fundação mantém uma meta de longo prazo: arrecadar um bilhão de dólares para o projeto.

“Desde a sua criação, a Associação de Descendentes GU272 escolheu identificar e reconstruir as famílias de nossos ancestrais que foram separadas e muitas vezes destruídas pela instituição brutal da escravidão e criar um mecanismo sustentável para investir na inspiração de descendentes por muitas gerações futuras”, disse Cheryllyn Branch, presidente da Associação de Descendentes GU272, em um comunicado à imprensa. “Por meio da Fundação Descendentes da Verdade e da Reconciliação, restauraremos a honra e a dignidade de nossos ancestrais, institucionalizando essas metas para nossos filhos, os filhos de nossos filhos e os descendentes nos próximos séculos”.

A Fundação apoiará as aspirações educacionais dos descendentes no futuro e apoiará programas e iniciativas que promovam a igualdade racial.

“Por mais de 400 anos, nosso país negou a destruição humana persistente causada pela escravidão e o racismo consciente e inconsciente que divide as comunidades e nossa nação”, disse Joe Stewart, presidente interino da fundação e um dos descendentes de Isaac Hawkins, um homem escravizado que, junto com outros homens, mulheres e crianças escravizados, foi vendido para salvar o Georgetown College (agora Georgetown University) da falência financeira.

“Após 182 anos, descendentes e jesuítas se uniram no espírito da verdade, cura racial e reconciliação, posicionando de forma única a Fundação Descendentes da Verdade e da Reconciliação para dar o exemplo e liderar os EUA através do desmantelamento dos resquícios da escravidão e mitigando a presença do racismo”, disse ele em um comunicado à imprensa. “Nossa parceria buscará e apoiará a criação de uma realidade nova e duradoura de amor e justiça para todos os membros de nossa humanidade”.

A fundação, que representa mais de 10 mil descendentes, também planeja manter conversas com outras universidades com histórico de lucrar com a escravidão de pessoas. Em 2016, a Georgetown University criou o Arquivo da Escravidão da Georgetown para armazenar materiais relacionados à Província de Maryland da Companhia de Jesus (agora parte da Província Leste da Companhia de Jesus) e os laços da própria universidade com a escravidão. Esses documentos, digitalizados, permitiram a identificação de milhares de descendentes.

“Nossa vergonhosa história de posse de escravos nos Estados Unidos foi tirada do armário, desempoeirada e nunca mais poderá ser colocada de volta”, disse o padre Timothy Kesicki, presidente da Conferência Jesuíta do Canadá e dos Estados Unidos. “O racismo perdurará se continuarmos nos escondendo da verdade do passado e como isso afeta a todos nós hoje. Os efeitos duradouros da escravidão chamam cada um de nós para fazer a obra da verdade e da reconciliação. Sem esta união de corações e mãos em verdadeira unidade, o ciclo de ódio e desigualdade na América nunca terminará”.

Em 1838, os proprietários jesuítas da Georgetown University venderam 272 escravos – incluindo homens, mulheres e crianças – para proprietários de plantações na Louisiana por 115 mil dólares. Isso equivaleria a aproximadamente 3,3 milhões de dólares, hoje. Os escravos foram usados como garantia pelo Citizens Bank de Nova Orleans, que mais tarde foi adquirido pelo JPMorgan Chase.

“A instituição da escravidão e do racismo sistêmico são partes trágicas da história dos EUA, e temos a responsabilidade de promover mudanças sustentáveis para as pessoas e comunidades que foram impactadas por esse legado amargo”, disse Brian Lamb, chefe global de diversidade e inclusão no JPMorgan Chase, um grande apoiador da fundação. “Estamos orgulhosos de apoiar os descendentes e jesuítas enquanto buscam soluções por meio da verdade, cura racial e transformação para ajudar a desmantelar o legado da escravidão e construir uma sociedade mais justa agora e para as futuras gerações”.

 

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