Tolerância zero contra o machismo. Artigo de Marcela Donini

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

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09 Dezembro 2025

Todo ano, homens cometem milhares de estupros no Brasil. Só em 2024, foram registrados mais de 87 mil (registrados, friso), além de mais de 5 mil tentativas (que chegaram à polícia, friso).

O artigo é de Marcela Donini, jornalista e escritora, publicado por Matinal, 05-12-2025. 

Eis o artigo. 

É um crime que, como destaca o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, simboliza a lógica de dominação sexual e de controle dos corpos femininos. E no entanto, quando Jair Bolsonaro disse à deputada federal Maria do Rosário que ela “não merecia ser estuprada”, nada aconteceu.

O caso é de 2014. Em junho de 2016, o Supremo Tribunal Federal (STF) tornou réu o então deputado federal. O relator da ação, ministro Luiz Fux – o mesmo que tentou livrar Bolsonaro da condenação por tentativa de golpe – afirmou que a expressão “não apenas menospreza a mulher, mas a postura mostra desprezo pelas graves consequências dos desmembramentos dramáticos dessa violência”. Corretíssimo o ministro de 2016.

Depois disso, Bolsonaro virou presidente, e a ação foi suspensa. Quando ele deixou o cargo, o processo voltou a tramitar, mas prescreveu e acabou arquivado em 2024.

Nos 10 anos que separam o ataque e o desfecho dessa história, a misoginia virou um negócio muito lucrativo no Brasil, enchendo os bolsos de quem controla plataformas como o YouTube e de influenciadores que difundem discursos de ódio contra mulheres.

Um deles foi detido no dia 29, depois que a namorada registrou boletim de ocorrência por agressão e tentativa de estupro. O homem de 37 anos é um conhecido influenciador, que acabou solto após audiência de custódia. O caso é investigado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Salto (SP).

Esse homem tem milhares de seguidores, vende cursos, livros, faz palestra e espalha conteúdo com declarações que menosprezam as mulheres e incentivam uma masculinidade baseada no estereótipo do homem machão, o provedor, que merece uma “mulher de valor” e não uma “rodada” e mais um monte de bobagens que não têm nada de inofensivas. No vídeo gravado pela vítima, o “machão” a persegue pela casa e parece agredi-la. A mulher também fotografou as lesões pelo seu corpo.

Na sua manifestação após o episódio, o influenciador nega as acusações e marca o bingo dos agressores: fala na mãe, em deus, culpa o álcool, diz que a agressão foi mútua e enfatiza que a namorada gostava de “sexo selvagem” – o que, na linguagem desse povo red pill, deve ser um atenuante para justificar comportamentos violentos. Como forçar uma relação sexual, prática que tem nome e tipificação no Código Penal: estupro. No vídeo, é possível ouvi-lo dizer “pra mim, você não nega”.

Tá tudo conectado

Na concepção de masculinidade do tal “coach de relacionamentos”, homem “não pode ser fraco, não pode ser chorão”. Daí a importância de ter tolerância zero com esse tipo de discurso, mesmo que, aparentemente, ele não tenha nada a ver com o que disse Bolsonaro em 2014. Ambas declarações fazem parte de uma lógica que, no fim das contas, reduz a mulher a um sujeito inferior, que chora (como se isso fosse uma fragilidade) e que precisa de um ser superior que leve dinheiro pra dentro de casa e que pode decidir que roupa ela usa, com quem pode sair e, no extremo, se merece apanhar ou morrer.

Por isso, não dá pra passar pano para Ramón Díaz e Abel Braga, ex e atual treinador do Inter. O primeiro falou que futebol “não é para meninas”, e o segundo disse que o time vestido de rosa parecia “time de viado”. O que eles estão dizendo? Que há coisas que só homens heterossexuais podem fazer, e quem decide são esses mesmos homens. Abel ainda disse que sua intenção era frisar que precisa de “homens fortes”. Percebem a ligação?

Não dá mais para tolerar discurso machista, seja nas redes sociais ou em coletivas de imprensa. É preciso no mínimo constranger quem fala e fazê-los entender o quão preconceituosas e graves são essas declarações que reforçam um discurso com o qual talvez nem eles mesmos concordem. No episódio do Abel, o Inter sequer se manifestou. E nem vai. Com o time à beira do rebaixamento, o clube só está preocupado com o Brasileirão e não vai brigar com o super herói que chegou sem nem cobrar salário.

Sabem o que vai acontecer agora? O Inter provavelmente vai cair, Bolsonaro seguirá por um tempo na cadeia, as big techs ficarão cada vez mais poderosas e homens medíocres, cada vez mais famosos e ricos. E milhares de mulheres seguirão diariamente humilhadas, espancadas e mortas.

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