França. “A particularidade desta revolta é que os jovens estão totalmente à margem da sociedade e não saíram para reivindicar a sua integração”. Entrevista com Sami Naïr

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06 Julho 2023

Nesta entrevista, o cientista político, sociólogo e filósofo francês, especializado em direitos humanos e migrações analisa, a revolta que a França vive. Em sua opinião, tem as mesmas causas de 2005, mas os jovens que agora protagonizam estes motins “estão totalmente à margem da sociedade e não saíram às ruas para reivindicar a sua integração”.

A entrevista é de Patricia Simón, publicada por La Marea, 07-04-2023. A tradução é do Cepat.

Uma semana depois de iniciadas as revoltas protagonizadas por jovens dos banlieues franceses, os bairros periféricos das cidades onde se concentra a população mais discriminada e marginalizada, conversamos por videoconferência com o professor de Ciências Políticas Sami Naïr, que nos atende desde sua casa em Paris.

Eis a entrevista.

Como você define o que está acontecendo na França: um levante, uma revolta, protestos?

É uma revolta com um pano de fundo importante: um potencial levante da sociedade francesa contra o poder. Esta revolta ocorre após dois meses de mobilizações e 14 manifestações contra a reforma da previdência. Em geral, radicalizou-se o espírito de cidadania, principalmente nas áreas excluídas do país.

Esta revolta tem as mesmas causas das ocorridas em 2005: a exclusão, a marginalização, o racismo e o abandono social. A diferença é que os jovens agora estão totalmente à margem da sociedade e não saíram às ruas para reivindicar a sua integração, como acontecia há quase duas décadas. Esses jovens não acreditam mais no Estado, e a linguagem que prevalece é a da força: a Polícia nos mata, porque destruímos esta sociedade. Chegamos a uma situação em que essa parcela da população está totalmente separada do Estado e em que a República não tem legitimidade perante eles.

Isso explica porque os protestos se espalharam para cidades onde havia até agora uma convivência muito forte entre todas as comunidades, como é o caso de Marselha. Aí vimos jovens de bairros marginalizados saírem e destruírem lojas de produtos de luxo aos quais não têm acesso.

Há outra diferença importante: em 2005 precisaram de três semanas para causar danos importantíssimos, o que desta vez levou apenas quatro dias. Aumentou a concentração de raiva e violência de uma parte importante dos jovens excluídos.

E, além disso, nesses bairros existem quadrilhas criminosas que negociam com os protestos, que lhes vendem bombinhas, morteiros e armas. E que coordenaram as ações de alguns grupos que queimaram carros e lojas.

Ao contrário dos protestos de 2005, agora os jovens foram às ruas em muito mais cidades, incluindo algumas colônias – ou territórios ultramarinos, como são chamados oficialmente – como Martinica ou a Ilha da Reunião. Como chegamos a esse grau de exclusão?

Por um lado, temos o fator social. A política de desenvolvimento urbano lançada na década de 1980 fracassou totalmente porque não acabou com os bolsões de exclusão em que vivem crianças que ainda são consideradas imigrantes de primeira, segunda, terceira e até quarta geração. Quando vão deixar de ser vistos e tratados como “filhos” de imigrantes quando seus próprios avós são filhos de avós imigrantes?

Também não se combateu de forma eficaz o fracasso escolar. Há rapazes de 13 anos participando dos protestos, o que nos fala também do fracasso das famílias, que não transmitem uma educação adequada aos filhos.

Há também um fracasso dos valores da República. Os discursos políticos falam das ideias de liberdade, igualdade e fraternidade. Mas para os jovens que estão nos protestos, a igualdade significa desigualdade, a liberdade prisão em bairros marginais e a solidariedade o racismo e o ódio que recebem diariamente.

E a isto devemos acrescentar o comportamento das Forças de Segurança, que é determinado por dois fatores. O primeiro é a penetração na Polícia da ideologia da extrema direita. Em uma entrevista recente com um policial que deixou a corporação por esse motivo, ele falava que até 50% de seus membros são de extrema direita e racistas.

A Polícia tem se tornado cada vez mais brutal e violenta, e não hesita em provocar os jovens. E é muito fácil fazê-lo. Se os policiais encontram três meninos com feições magrebinas ou de pele negra na entrada de um metrô, mobilizam um grande grupo de agentes, pedem seus documentos, colocam-nos contra a parede, algemam-nos...

Em 2017, o governo Hollande aprovou medidas muito duras para controlar as ruas e residências. Foram denunciadas por todas as organizações de direitos humanos e o Conselho de Estado cancelou algumas das propostas do governo. E, mesmo assim, a Polícia recebeu prerrogativas muito amplas e arbitrárias e uma capacidade quase ilimitada de usar suas armas.

Por que o governo de Françoise Hollande ampliou dessa forma o poder da Polícia?

O governo de Hollande aprovou essas medidas e Macron as assumiu porque já tinham sido aprovadas pela Assembleia Nacional e porque a ameaça terrorista era real. Mas também o fizeram porque o Estado reduziu o número de efetivos e os recursos da Polícia para respeitar os critérios europeus de não gastar para manter o equilíbrio orçamentário.

Encontramo-nos sempre na mesma situação: para proteger o Estado liberal, sempre se põe em movimento o Estado penal. Em vez de ter uma polícia comunitária, com agentes e meios suficientes, que dialogue com as famílias, com presença regular nos bairros, o que se tem feito é criar um corpo que entra nestas zonas de exclusão uma ou duas vezes por semana, fardado com coletes à prova de balas e protetores, com vans, que faz rondas, sofre ataques ou ataca, pede os documentos, confronta os meninos e depois desaparece. Eles têm um trabalho difícil, não nego, mas é a consequência da falta de uma política social.

E qual é o papel da extrema-direita em encurralar os jovens que protestam?

Na última década, uma parte importante da direita clássica e democrática aliou-se à extrema direita de tradição colonialista, racista e antissocial. E isso não é uma abstração, mas é o que tem permitido à extrema direita entrar em praticamente todas as prefeituras. A instância municipal, que é fundamental por ser a mediadora entre os de baixo e os de cima, está agora apodrecida pela presença da extrema direita. Uma presença que permite à direita governar em troca de cortes nas políticas sociais, de gênero, antirracistas e educacionais. Por isso, vereadores e lideranças municipais têm sido agredidos nos protestos. Eles são considerados corresponsáveis com a extrema direita por políticas racistas e de exclusão social.

Claro que condeno esses ataques contra os vereadores, pois eles são, afinal, eleitos democraticamente. Mas o estado de violência já está instalado.

É o preço da aliança entre a direita clássica e a extrema direita que se expande por toda a Europa. Suas primeiras vítimas são sempre as políticas de gênero, sociais, educacionais...

Na França não há mais diferença ideológica entre a extrema direita do partido de Le Pen, a do Partido da Reconquista de Éric Zemmour e o partido dos Republicanos, outrora gaullista social, mas que agora é populista de extrema direita, xenófobo, demagogo. Não sabe o que fazer para recuperar os votos perdidos nas últimas décadas além de adotar o discurso extremista de direita. Mas com essa estratégia vai perder cada vez mais votos.

Que responsabilidade têm os meios de comunicação em relação ao ódio projetado contra os jovens que agora participaram dos protestos?

Na última década, foram lançadas redes de televisão dirigidas por neofascistas, que diariamente defendem ideias de extrema direita e insultam esta parte da população. E, obviamente, quando esta parte da população os vê, sente-se atacada. Ao mesmo tempo, suas reações violentas favorecem eleitoralmente a direita e a extrema direita.

Você mencionou que a maioria desses jovens não reivindica mais a integração porque não acredita mais que o Estado ou a democracia possam oferecer algo a eles. Além do racismo e da exclusão, devemos ter presente o impacto que o desemprego e a precarização do trabalho têm sobre eles. Como foram afetados pelas políticas trabalhistas das últimas décadas?

As políticas que vêm modificando o mercado de trabalho tiveram um papel muito negativo, porque desenvolveram esses empregos de lixo, muito duros e mal remunerados. Eles recebem salários tão baixos que não dá para alugar um apartamento nas cidades, então precisam ficar em áreas marginalizadas.

Mas o mais importante é que são empregos que não oferecem perspectiva de ascensão social, que os condenam a outros empregos ruins pelo resto da vida. Trata-se de uma sociedade que não oferece um futuro digno, porque isso tem muito mais a ver com a dignidade do que com o emprego. Os jovens dos protestos não se sentem respeitados em sua dignidade.

Portanto, há aqueles que sentem que sua vida não conta e decidem destruir tudo. E outros decidem se diferenciar da sociedade que os rejeita e se identificam com um grupo baseado em sua etnia, sua religião...

Há uma parte da França que se recusa a admitir que já é um país multiétnico, multirracial, multirreligioso e que continuamente trata como estrangeiros aqueles que não correspondem ao fenótipo europeu, aqueles que têm nomes originários de ex-colônias... Qual é o papel que a questão identitária desempenha nesses protestos?

É fundamental. Todas as pesquisas mostram que essa rejeição é sentida no dia a dia de suas vidas. Se eu disser que meu nome é Rachid, não me dão o emprego; se eu sair na rua e houver uma blitz policial, eles vêm diretamente ao meu encontro. O cotidiano dos jovens dos protestos é atravessado pela vivência do racismo e, consequentemente, eles sentem que não podem ter a mesma identidade daqueles que os estigmatizam.

Uma parte dos prejudicados por tudo isso, por sua vez, não tem a consciência de considerar que a cidadania é uma luta permanente, por isso sua resposta é o ódio e a rejeição à França e à República. E quem ganha com tudo isso são a extrema direita, os fundamentalistas e os racistas, que também tem negros contra brancos. A característica fundamental da batalha identitária é provocar a separação, ao invés do vínculo social que busca a unificação.

Que medidas o Estado francês deveria adotar para combater essa exclusão e unir sua população?

Uma ampla política de integração social e de recomposição das urbes para criar cidades democráticas e integradas. Mas no contexto global em que nos encontramos, não vejo como factível que o Estado francês se comprometa com estas medidas porque não tem recursos nem vontade para isso.

Devemos lutar para desenvolver a cidadania, para combater o discurso xenófobo e para lutar contra o desenvolvimento dos partidos de extrema-direita. É provável que nas próximas eleições europeias o partido de extrema-direita Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, seja o mais votado da França.

A extrema-direita continua crescendo porque o Estado é incapaz de mudar a situação do país, porque não tem controle do seu mercado de trabalho nem econômico, porque está nas mãos da Comissão Europeia e das multinacionais. Então, tenho medo de que aconteçam outras revoltas porque o Estado não atua nas causas, apenas nos efeitos.

Nos últimos anos, numerosos relatórios foram publicados alertando que o grande perigo para a segurança da França são os grupos armados de extrema-direita e sua infiltração na Polícia e no Exército. Foram tomadas providências para identificá-los e removê-los das Forças de Segurança?

Francamente, não sei até que ponto a Justiça age de maneira firme contra eles. Um ex-voluntário policial nazista acaba de ser condenado a 18 anos de prisão por planejar ataques terroristas. Mas não posso responder a essa pergunta porque o Ministério do Interior é muito complexo e depende muito de seus diretores gerais. A questão é que desde 2017 o equilíbrio entre democracia e repressão mudou e agora a Polícia tem poderes muito perigosos.

Em decorrência da presidência de Donald Trump e da ascensão de grupos armados de extrema-direita, cada vez mais vozes alertam para uma possível guerra civil nos Estados Unidos. Estamos em uma situação semelhante na França?

Ainda não, porque o Estado republicano francês, apesar de tudo, é forte. E a extrema-direita não conta com o apoio majoritário das classes sociais do país. Tem o apoio de importantes camadas de várias classes sociais, mas não é uma classe sociológica ou ideologicamente hegemônica. É verdade que a extrema-direita está conquistando a hegemonia da direita, mas não na totalidade da sociedade. Aqui não existe a guerra cultural que se vive nos Estados Unidos.

Uma das maiores diferenças entre os dois países é que a França continua sendo uma sociedade com muita consciência política, o que não é o caso dos Estados Unidos. Mas é verdade que estamos numa situação muito tensa que pode levar a confrontos sociais cada vez mais graves.

Que lições a Espanha precisa tirar dos protestos na França?

A Espanha tem que levar a sério a situação e implementar políticas de inclusão social. O problema é que, como a França, tem que respeitar os critérios da Comissão Europeia, logo, não pode investir muito.

Agora, o mais perigoso que está acontecendo na Espanha é a banalização na opinião pública da aliança entre a direita e a extrema-direita. Na Espanha, existe um sistema democrático, mas não estou certo de que haja uma imensa maioria de cidadãos democráticos. Os discursos da extrema-direita na Espanha são ainda mais brutais do que os de outros países europeus porque seus líderes são muito menos instruídos. Faço um apelo à direita para que não se deixe arrastar pela sua deriva em troca da tomada do poder.

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