‘Se continuarmos assim, a Amazônia não tem futuro’, diz novo cardeal brasileiro

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29 Agosto 2022

 

Anunciado pelo Papa Francisco como um dos novos cardeais da Igreja Católica em cerimônia no Vaticano neste sábado (27 de agosto), o arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, é o primeiro cardeal da Amazônia brasileira. Dom Leonardo Ulrich Steiner tomou posse como arcebispo de Manaus em janeiro de 2020. Ele assumiu o cargo que vinha sendo ocupado por Dom Sergio Castriani desde 2013. Até então, Steiner atuava como secretário-geral da igreja local e como bispo auxiliar de Brasília. Dom Leonardo já foi duas vezes secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

 

 Foto: Divulgação.

O fato de ser o primeiro bispo da região a receber o barrete vermelho revela, segundo ele próprio, a prioridade que a Amazônia tem e continuará tendo para Igreja Católica mundial. Nesta entrevista exclusiva ao #Colabora, Dom Leonardo fala sobre preservação da floresta, democracia, direitos humanos e a ordenação de mulheres.

Nascido em Forquilhinha, Santa Catarina, Dom Leonardo, de 72 anos, está muito preocupado com a situação que a Amazônia vive hoje, seja na perda de direitos da população indígena, em que o prelado se colocou frontalmente contrário ao marco temporal; seja na preservação das matas, que vêm sofrendo uma escalada nos índices de desmatamento: “nós não estamos apenas depredando a Amazônia, mas vamos acabar ajudando a destruir outras regiões do Brasil e, também, no mundo”, afirma.


Presente nos momentos mais difíceis que a capital do Amazonas atravessou na pandemia, como a falta de oxigênio no início de 2021, o arcebispo está certo de que houve negligência do governo no momento de crise sanitária.

 

A entrevista é de Alex Jorge Braga, publicada pelo portal #Colabora, 27-08-2022.

 

Eis um extrato da entrevista.

 

O que representa a nomeação de um cardeal na Amazônia? A preservação e defesa da maior floresta tropical do mundo é realmente uma prioridade para a Igreja Católica?

Para mim foi uma surpresa. Se falava do desejo do Papa de nomear um dos bispos da Amazônica, isso não significava ser brasileiro. O gesto é sinal da proximidade do Papa com a região, pois o cardeal é um bispo que foi nomeado e escolhido pelo Papa como alguém que o possa ajudar de maneira mais próxima o Ministério de Petrino. Eu espero dar essa colaboração, mas a partir da Amazônia.

Em 2019, ocorreu o Sínodo da Amazônia no Vaticano. O documento citava a ordenação de mulheres e de homens casados, mas isso não saiu do papel, por quê?

O documento final, realmente aborda essas duas questões, mas o Papa Francisco não retoma esses elementos. Porém, em carta, ele assume o documento final, isso quer dizer que o pontífice está falando: “olha, vamos levar isso adiante”.

Sobre o diaconato feminino, nós sabemos que continua o estudo da comissão convocada pelo Papa, que está fazendo um levantamento histórico. E espero, também, que esteja fazendo uma reflexão teológica.

Quanto à ordenação de homens casados também não está dito que não, mas eu penso que é preciso caminhar dentro da Igreja e ter uma reflexão. Pois, simplesmente, voltar a um elemento antigo depois de tantos séculos, criaria uma tensão desnecessária dentro da Igreja, talvez até uma divisão, e o Papa procura evitar divisões. Ele é um homem sempre que procura agregar e unir comunhão, mas as discussões e reflexões continuam. Graças a Deus que hoje não é mais um tabu discutir isso.

A defesa dos Povos tradicionais é uma bandeira histórica da Igreja Católica. Como avalia o momento de perda de direitos dessa população e como a Igreja se mobiliza para defendê-los?

 Mesmo com a defesa constante da vida dessa população, nós ficamos devendo aos povos indígenas. Porque nós, por muito tempo, não levamos em consideração a cultura indígena no momento da evangelização.

Mas, atualmente, penso que a Igreja tem um cuidado muito grande de levar em consideração as culturas. Existe uma preocupação de que a Igreja não volte a fazer algumas coisas que fez no passado.

Hoje, realmente, existe um serviço aos povos indígenas. Os povos indígenas têm muito a nos ensinar e, por meio do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e outras organizações, a Igreja no Brasil tem aprendido muito.

Nós temos dado colaboração às causas, por exemplo, fiquei oito anos junto à presidência da CNBB, como Secretário-Geral, e quantas vezes nós tivemos reuniões, inclusive no STF expondo as dificuldades deles.

A questão do Marco Temporal, por exemplo, é um caso que ainda está no Supremo e que é decisiva para os povos indígenas. Tudo isso nós já estivemos muito envolvidos. O nosso serviço como Igreja está justamente em estar ao lado das pessoas que necessitam e que precisam. Então, nesse sentido, existe sim um esforço da nossa igreja. Porque existe uma verdadeira opressão em relação aos povos indígenas, eles não se sentem livres e não se sentem próximos da Funai, por exemplo.

Como você vê o momento delicado que o Bioma Amazônico atravessa com uma escalada nos índices de desmatamento?

Nós estamos realmente em um momento muito delicado, porque há tempos vemos aumentar o garimpo. O garimpo é destruidor, que não destrói apenas as matas, mas as águas também. O nível de mercúrio, por exemplo, no Rio Tapajós é elevadíssimo. Os povos das comunidades que vivem ao longo desse rio não terão futuro se o nível de mercúrio na água continuar aumentando. Hoje, as crianças, através do leite materno, estão recebendo mercúrio, veja a gravidade da situação.

Agora, o bioma são todos os elementos e micro-organismos que estão presentes. Então, na medida em que nós vamos destruindo as matas, devastamos toda a fauna e a flora. Vamos destruindo o habitat dos povos originários.

Se nós continuarmos assim, a Amazônia não tem futuro, mas também não tem futuro o Centro-oeste, nem o Sudeste. Os rios aéreos que levam umidade e chuvas vêm da Amazônia. Se nós começarmos a diminuir esses rios aéreos, a agricultura e o abastecimento de água vão sofrer. Nós só vamos despertar no momento em que tivermos a secura ao nosso entorno, aí, talvez, vamos reconhecer que estamos errados.

Eu vou usar duas palavras que o Papa Francisco usa: ‘cuidar e cultivar’. Se nós não cuidarmos da Amazônia, e nós não cultivarmos devidamente a Amazônia, não estaremos apenas depredando a Amazônia, mas vamos acabar ajudando a destruir outras regiões do Brasil, e, também, do mundo.

A questão da morte do jornalista Dom e do Bruno, por exemplo, provém da questão do cuidado e do cultivo, pois era o que eles tinham em relação ao Vale do Javari. Os dois foram assassinados por causa disso, e porque denunciavam a pesca predatória, que na nossa região também tem aumentado muito.

 

A íntegra da entrevista pode ser lida aqui.

 

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