Notas para um pensamento “incompleto”

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21 Julho 2022

 

"A ideia sobre a qual Francisco insiste é que “os sujeitos somos todos nós”. Hoje, de fato, não se nega a importância de diferentes saberes e trabalhos de grupo, mas a tendência predominante é a individualista, com sectarismos elitistas. Para a cultura do diálogo, porém, é essencial a inclusão de todos, mesmo os menos inteligentes e os mais fracos", escreve Diego Fares, padre jesuíta argentino, em artigo publicado por Civiltà Cattolica, 01-01-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

A forma mais elevada de pensamento é aquela do pensamento que cresce na abertura e, nesse sentido, é “incompleto”. O Papa Francisco disse isso em sua entrevista ao La Civiltà Cattolica: “O estilo da Companhia não é o da discussão, mas o do discernimento, o que obviamente pressupõe a discussão no processo. A aura mística nunca define seus limites, não completa o pensamento. O jesuíta deve ser uma pessoa de pensamento incompleto, de pensamento aberto”[1].

 

O que é pensamento incompleto? Como pode ser descrito? Afirma o Papa Francisco, falando do discernimento que se aprende lendo O Senhor de Romano Guardini: “Aprendi esta forma de pensar com Romano Guardini. Seu estilo me fascinou, em primeiro lugar em seu livro O Senhor. Guardini me mostrou a importância do pensamento incompleto, aquele que te leva até certo ponto, mas depois te convida a contemplar em primeira pessoa. Cria um espaço para te permitir encontrar a verdade. Um pensamento fecundo deveria ser sempre incompleto para dar espaço a desenvolvimentos posteriores. Com Guardini aprendi a não pretender certezas absolutas sobre tudo, sintoma de um espírito ansioso. Sua sabedoria me permitiu enfrentar problemas complexos que não podiam ser resolvidos simplesmente com base em normas, mas com um tipo de pensamento que permitia atravessar conflitos sem ficar enredado neles”[2].

 

E na Constituição Apostólica Veritatis Gaudium Francisco afirma que hoje se torna cada vez mais evidente que “é necessária uma verdadeira hermenêutica evangélica para compreender melhor a vida, o mundo, os homens; não de uma síntese, mas de uma atmosfera espiritual de investigação e certeza fundamentada nas verdades da razão e da fé. A filosofia e a teologia permitem adquirir as convicções que consolidam e fortalecem o intelecto e iluminam a vontade... mas tudo isto só será fecundo, se for feito com a mente aberta e de joelhos. O teólogo que se compraz com o seu pensamento completo e concluído é um medíocre. O bom teólogo e filósofo mantém um pensamento aberto, ou seja, incompleto, sempre aberto ao maius de Deus e da Verdade, sempre em fase de desenvolvimento, segundo aquela lei que São Vicente de Lerins descreve do seguinte modo: “annis consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate” (Commonitorium primum, 23: PL 50, 668)” [3].

 

Destacaremos alguns aspectos do pensamento incompleto, que é o oposto do pensamento triunfalista: a mentalidade dialógica, a inclusividade, a abertura atenta e responsável ao outro, a abertura aos desafios.

 

Mentalidade dialógica

 

O pensamento que definimos como "incompleto" é eminentemente dialógico, ou seja, não autorreferencial, não monologizante, não abstrato. Encontrando-se com a classe dirigente do Brasil em 27 de julho de 2013, o Papa disse: “Quando os líderes dos diversos setores me pedem um conselho, minha resposta é sempre a mesma: diálogo, diálogo, diálogo. A única maneira de crescer para uma pessoa, uma família, uma sociedade, a única maneira de fazer progredir a vida dos povos é a cultura do encontro, uma cultura na qual todos têm algo de bom para dar e todos podem receber algo de bom em troca. O outro sempre tem algo a nos dar, se soubermos abordá-lo com uma atitude aberta e disponível, sem preconceitos. Essa atitude aberta, disponível e sem preconceitos, eu a definiria como "humildade social", que é o que favorece o diálogo. […] Hoje, ou apostamos no diálogo, ou apostamos na cultura do encontro, ou todos perdemos, todos perdemos. É por aqui que passa o caminho fecundo”[4].

 

No diálogo, o que importa é que a decidir sobre os temas sejam os sujeitos, justamente os sujeitos envolvidos em tais decisões. O sujeito é mais importante do que o conteúdo do diálogo. Francisco nos mostra dois tipos de sujeitos que não dialogam, porque estão fechados em si mesmos: os primeiros reduzem seu ser ao seu conhecimento ou sentimento (o Papa chama isso de "gnosticismo"); os segundos, por seu lado, reduzem-no às suas próprias forças (o Papa o chama de "neopelagianismo").

 

O diálogo implica a convicção de nosso ser social, de nossa incompletude individual, que é essencialmente positiva, porque nos impede de ser sujeitos fechados.

 

A ideia sobre a qual Francisco insiste é que “os sujeitos somos todos nós”. Hoje, de fato, não se nega a importância de diferentes saberes e trabalhos de grupo, mas a tendência predominante é a individualista, com sectarismos elitistas. Para a cultura do diálogo, porém, é essencial a inclusão de todos, mesmo os menos inteligentes e os mais fracos.

 

“É hora de saber como projetar, numa cultura que privilegie o diálogo como forma de encontro, a busca de consenso e de acordos, mas sem a separar da preocupação por uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões. O autor principal, o sujeito histórico desse processo, é a gente e a sua cultura, não uma classe, uma fracção, um grupo, uma elite. Não precisamos de um projeto de poucos para poucos, ou de uma minoria esclarecida ou testemunhal que se aproprie de um sentimento coletivo. Trata-se de um acordo para viver juntos, de um pacto social e cultural” (EG 239).

 

Afirmar que os sujeitos somos todos nós, não significa considerar uma mera soma de todos os indivíduos: é antes considerar a totalidade, entendida como povo. O Papa nos convida explicitamente a refletir sobre a Igreja como povo fiel de Deus:

 

Qual é a mentalidade que precisamos mudar? Depois de nos dizer que ser discípulos de Cristo comporta uma disposição contínua para levar o amor do Senhor aos outros em qualquer lugar e através do um diálogo pessoal (cf. EG 127-128), o Papa indica que "se o Evangelho se encarnou em uma cultura, já não se comunica apenas através do anúncio de pessoa para pessoa” (EG 129).

 

Nosso anúncio do Evangelho deve envolver o aspecto cultural. Por exemplo, na família é preciso buscar uma forma de tornar a fé uma "tradição familiar", assim como em família se vivem bons momentos, festas, passeios, conversas cotidianas. No trabalho, todos devem se preocupar em comparar os valores do Evangelho com aqueles que vivem os seus colegas. Isso permitirá que a pregação não seja "desconectada", ou algo "meramente espiritual", mas um Evangelho encarnado, que assume os desafios do mundo e responde às suas preocupações com propostas eficazes.

 

Dizer "assistidos" não é o mesmo que dizer "hóspedes e comensais". Estes últimos termos têm um significado evangélico, e considerar uma pessoa como "hóspede" muda nossa atitude em relação a ela: nos insere em um dinamismo de acolhimento, nos faz sentir como é lindo homenagear um convidado

 

Além disso, há palavras que vêm do mundo social e são preferíveis a outras. "Usuário" parece mais impessoal do que "beneficiário"; no entanto, parece preferível considerar que o outro seja um usuário pleno de nossos serviços - assim como nós somos usuários de água encanada, da eletricidade e do gás - e não um beneficiário, como se fossem serviços oferecidos por caridade. Não nos sentimos "beneficiários" dos serviços essenciais e temos todo o direito de ficar indignados quando falta energia elétrica.

 

A inculturação do Evangelho leva-nos a refletir sobre quem é aquele que evangeliza – é todo o povo de Deus que anuncia o Evangelho – e a contrapor uma nova mentalidade à nossa mentalidade individualista.

 

Mentalidade voltada para a inclusão

 

A nova mentalidade que o Papa nos convida a adquirir tem um caráter eminentemente social. A análise da vida política e econômica atual mostra que, apesar de suas importantes conquistas, gera "uma exclusão generalizada" e iniquidade. E isso produz violência, com consequências trágicas para todos os tipos de pessoas. Portanto, o remédio está do lado da inclusão. A nova mentalidade requer, em primeiro lugar, "uma abordagem inclusiva".

 

A inclusão não é um fato óbvio. Na reflexão filosófica atual há quem afirme como necessária "a renúncia de apreender, com o pensamento, a totalidade da realidade" (Theodor Adorno). Se isso acontece em nível filosófico, não é à toa que a economia pense em um país de vinte milhões de pessoas - em vez dos cinquenta que somos -, ou se 46% do dinheiro está nas mãos de 1% das pessoas. Existe uma mentalidade "redutiva", que é prejudicial porque é falsa.

 

Como motivo de reflexão, façamos então duas perguntas. Uma teórica: nosso pensamento não pode "apreender" a totalidade da realidade, mas pode "abrir-se" - e de fato essa abertura existe - para ela. Outra questão é prática: não é possível "excluir" ninguém. Os excluídos "incluem-se" com os bons modos ou, mais cedo ou mais tarde, "nos excluem" com os maus modos. Essa é outra maneira de dizer que "a exclusão produz violência".

 

Os excluídos "incluem-se". Em primeiro lugar, devemos acreditar na possibilidade de apreender esse aspecto. Devemos supor que, se certas ciências não possuem a lente certa para captar algo tão complexo, isso não significa que não possam encontrá-lo ou que outros olhares não possam ser tentados.

 

No primeiro dia de acampamento paroquial, os jovens estavam fascinados com a paisagem e fotografavam tudo com seus celulares. À noite, quando as estrelas apareceram, como só acontece nas montanhas onde não há poluição, uma das garotas, empenhada em fotografar o céu, a certa altura exclamou: "Isso não cabe em um celular!" e ficou contemplando o céu apenas com seus olhos. Essa observação é significativa, e podemos transferi-la do céu estrelado para a humanidade das multidões: é preciso olhar com os nossos próprios olhos, ampliados pelos de Jesus, o Bom Pastor, que "olha para as pessoas com compaixão". Só este olhar pode permitir uma “abordagem inclusiva”.

 

Estamos falando de "olhar humanamente", não através da mediação científica ou técnica, que "influencia e modifica" a realidade ao observá-la com seus próprios instrumentos. Romano Guardini nos diz que o olho humano não é como uma câmera fotográfica. “O olho humano ‘erra e se corrige’, orienta-se, escolhe e descarta; a câmera fotográfica não”. Há coisas que não vemos ou que falsificamos por causa da intensidade do nosso desejo ou da nossa aversão. Isso não pode ser feito pela câmera, que fotografa objetivamente o que tem à sua frente. As fotografias não erram, pois congelam a realidade em um instante (e, se for um filme, em vários quadros por segundo). Mas o olho humano capta infinitamente mais, porque se modifica no exato momento em que se modifica o ser que está à sua frente e se expressa. É por isso que ficamos mais emocionados em ver alguém ao vivo do que na televisão; embora não percebamos, a quantidade de informações - subjetivas e objetivas - que trocamos em um encontro real é infinitamente maior do que aquela que conseguimos captar através da TV”[5].

 

Mentalidade que se deixa interpelar

 

O pensamento incompleto é autenticado por seu deixar-se interpelar dramaticamente pelo outro. Essa visão transcendente é tão importante que o Papa, antes mesmo de defini-la, a coloca como um desafio dramático ao qual ele mesmo se expõe: "Sei que essas palavras são fortes, até dramáticas". Na Evangelii Gaudium diz: “Se alguém se sentir ofendido com as minhas palavras, saiba que as exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política. A minha palavra não é a dum inimigo nem a dum opositor. A mim interessa-me apenas procurar que, quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta, possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta terra" (EG 208).

 

O caráter dramático desse desafio está na essência da "nova mentalidade". Há "abordagens" que fazemos apenas quando alguém "nos pede ajuda", quando ouvimos o grito do outro: isso nos faz voltar o olhar e descobrir o que estava escondido, o que não se via. Esse olhar se opõe à globalização da indiferença. Esse olhar exige atenção e indica responsabilidade. Uma atenção que deve se traduzir em decisões políticas e econômicas, em vez de se deter na simples retórica. E numa responsabilidade precisa, porque sua concretização é justamente do bem.

 

É preciso prestar atenção ao grito dos pobres, escutar atentamente os seus apelos; saber lê-los "fora da ideologia" faz parte da fisionomia desta nova mentalidade: "Cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo. […] Ficar surdo a este clamor, quando somos os instrumentos de Deus para ouvir o pobre, coloca-nos fora da vontade do Pai e do seu projeto” (EG 187).

 

A exigência de escutar esse clamor deriva da mesma obra libertadora da graça em cada um de nós.

 

Uma mentalidade que nos desafia

 

O pensamento incompleto se elabora saindo para as periferias, tocando as fronteiras, colocando-se no limite do próprio saber e poder, A transcendência de que fala Francisco não é apenas aquela para com Deus, como estamos acostumados a pensar, e nem mesmo aquela para os valores éticos: inclui ambas as realidades, mas seu desafio é sair para as periferias existenciais, onde não é possível tolerar que milhares de pessoas morram de fome todos os dias, apesar das grandes quantidades de alimentos disponíveis, muitas vezes simplesmente desperdiçados.

 

Aqueles que saem do próprio ambiente e do próprio ego mudam de mentalidade. A realidade é melhor vista das periferias do que do centro. Francisco afirma ainda: “De uma coisa estou convencido: as grandes mudanças da história aconteceram quando a realidade foi vista não do centro, mas da periferia. É uma questão hermenêutica: a realidade só se compreende se a olharmos da periferia, e não se o nosso olhar se situar num centro equidistante de tudo. Para compreender realmente a realidade, devemos sair da posição central de calma e tranquilidade e ir para a zona periférica. […] Para compreender, temos que nos ‘descolocar’, ver a realidade de vários pontos de vista diferentes”[6].

 

Afirmar sempre o limite do nosso pensamento paradoxalmente o desbloqueia e o torna mais agudo e criativo. “Entrar em discernimento significa resistir à tentação de encontrar um falso alívio em uma decisão imediata e, em vez disso, estar dispostos a apresentar humildemente várias opções ao Senhor, esperando aquele transbordamento”. Esse "falso alívio" que se encontra em uma decisão imediata é próprio do pensamento triunfalista. Ao abrir o caminho para o amor - que é sempre amor ao outro e saída de si - o pensamento torna-se capaz de superar as insídias ideológicas nas quais se vê constantemente enredado. As novas fórmulas com que Francisco nos surpreende todos os dias nascem do seu amor a Deus e ao próximo. Os de coração simples entendem isso muito bem.

 

 

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