“A proposta de impor sanções ao Patriarca Kirill é uma idiotice”

Fonte: Wikimedia Commons

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08 Mai 2022

 

"A partir da cúpula do Vaticano, o olhar continua sendo global. O catolicismo que evidencia a perspectiva de Francisco rejeita a 'nova guerra dos mundos' em curso no terreno da Ucrânia. Mario Giro, da Comunidade de Santo Egídio, escreveu aquilo que grande parte dos cidadãos italianos (e não só) já entenderam: 'A ideia (em Washington) não é mais punir a Rússia pelo que ela faz na Ucrânia, mas (...) destruir o seu potencial econômico-militar'. Não se trata mais de ajudar a resistência e a legítima defesa dos ucranianos. Agora, estes últimos 'tornaram-se o instrumento de algo maior, outro tipo de guerra, sem limites, em que a paz só é obtida com a derrota definitiva de um dos dois protagonistas'".

 

O comentário é de Marco Politi, jornalista e vaticanista italiano, publicado em Il Fatto Quotidiano, 06-05-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

A proposta de atacar com sanções o patriarca ortodoxo russo Kirill é uma idiotice. Seria interessante saber quem sugeriu isso à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. E também saber quem, do lado italiano, aprovou.

 

É inútil listar os pecados econômicos e políticos do patriarca de todas as Rússias. O patrimônio pessoal estimado em cerca de quatro bilhões de dólares, que a Novaya Gazeta estima que podem chegar a oito, os depósitos bancários na Suíça, Austrália, Itália, o chalé na Suíça e a mansão no Mar Negro, talvez até um iate, certamente relógios caros. Além disso, as acusações de ter colaborado com a KGB em tempos soviéticos.

 

Quanto ao seu alinhamento com as posições de Putin, ao seu “justificacionismo” em relação à intervenção na Ucrânia, à sua bênção ao exército agressor com o presente do ícone de Nossa Senhora ao chefe da Guarda Nacional Russa, os noticiários estão cheios. Sem falar dos seus anátemas contra a decadência ocidental e as Paradas Gay.

 

Mas esse não é o ponto. De acordo com o esboço elaborado por von der Leyen, o Patriarca Kirill é considerado responsável por apoiar ou implementar “ações ou políticas que minam ou ameacem a integridade territorial, a soberania e a independência da Ucrânia”, assim como a sua estabilidade e segurança. Se não entendemos o ridículo dessa linguagem pomposa, isso significa que estamos deslizando inexoravelmente para a histeria da Guerra Fria.

 

A multiplicação das sanções – que passaram de um instrumento destinado a atingir interesses materiais ou estratégicos relevantes do adversário a um meio para feri-lo simbolicamente no seu prestígio – já está se transformando naquilo que os napolitanos chamam de “paccheri alla cecata” e os romanos expressam no ditado “‘ndo cojo, cojo”.

 

Rancores em rajadas. Vou punir o seu amante, o porta-voz, o amigo, os deputados... e por que não o mordomo, o motorista, o carregador de malas... Como se – voltando a Kirill – a história europeia e universal não fosse pontilhada, ao longo dos séculos, por sacerdotes, monges, grandes hierarcas religiosos e capelães militares que invocaram constantemente o Deus dos exércitos e da vitória, abençoaram todos os tipos de armas e cantaram solenemente o Te Deum após batalhas sangrentas.

 

É a personalidade secular, acima de tudo, que se rebela contra a ideia de entrar – punindo – naquele mundo magmático que, desde o início da história, caracteriza crenças, ritos, invocações de proteção dirigidas ao deus ou à deusa ou ao nume sem sexo para que traga proteção, amaldiçoe os inimigos, favoreça saques, salve a propriedade e “os lares e os altares”, como diziam os antigos romanos.

 

É um mundo que deve ficar do lado de fora. Naturalmente, temos até o direito de odiá-lo, como proclamava Voltaire, mas não faz sentido agitar o cartão amarelo contra ele. Levaremos ao tribunal aqueles que abençoaram, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, os colonialismos, os imperialismos e os racismos?

 

No entanto, é de um ponto de vista estritamente político que o movimento é estúpido. Atingir simbolicamente, com acusações genéricas de maldade, o chefe de uma grande organização religiosa significa mobilizar automaticamente em seu favor a massa dos fiéis. No vasto espaço da Rússia, especificamente, vitimizar o patriarca leva a fortalecer, e não a enfraquecer, a aliança entre trono e altar que vigora há séculos.

 

Fazer guerra” ao patriarca é o meio mais seguro para mobilizar as forças de um patriotismo religioso irracional em torno de Putin. É como se, em Bruxelas, estivessem esquecendo que, em Moscou, nenhuma mudança de regime foi possível sob o chicote. O degelo de Khrushchev se desenrolou na temporada de distensão internacional. O reformismo de Gorbachev se manifestou quando floresceram os efeitos da convivência após o Pacto de Helsinque de 1975.

 

O caminho tomado por von der Leyen vai na direção oposta. No sentido da guerra santa, em meio a uma guerra religiosa e ideológica que não poupa nenhum âmbito. O que significa, por exemplo, que, no último pacote de sanções europeias, se proíba a difusão dos conteúdos de uma série de rádios e TVs russas em todos os países europeus? E se um canal italiano retomasse uma transmissão russa, ele deveria ser algemado? Quem é Bruxelas ou um governo que pode impedir um cidadão livre de se informar sobre o que o “inimigo” pensa ou quais mensagens difunde?

 

A triste ofensiva organizada pelo governo Zelensky contra a Via Sacra organizada pelo Papa Francisco está ainda recente. Uma mulher ucraniana e uma mulher russa “não deviam aparecer” juntas, segurando a cruz. Nem mesmo se a mulher russa tenha chorado pedindo perdão à amiga ucraniana. Nada devia minar o ódio nacionalista contra a nação inimiga.

 

Ursula von der Leyen repete continuamente nestes dias que a Rússia deve pagar um “alto preço” pela sua guerra. Ela esquece duas coisas que fazem parte da história profunda da Alemanha. A Guerra dos Trinta Anos minou e arruinou dramaticamente as cidades e os campos alemães e, no fim, concluiu-se com um compromisso inevitável.

 

A segunda experiência diz respeito à impiedosa “paz dos vencedores” imposta em Versalhes em 1918 à Alemanha derrotada: não trouxe nem paz nem bem-estar ao mundo inteiro. Em Bruxelas, fariam bem em recordar isso, em vez de se entregarem à embriaguez da palavra de ordem que entrou na moda: “Vitória!”.

 

A partir da cúpula do Vaticano, o olhar continua sendo global. O catolicismo que evidencia a perspectiva de Francisco rejeita a “nova guerra dos mundos” em curso no terreno da Ucrânia. Mario Giro, da Comunidade de Santo Egídio, escreveu aquilo que grande parte dos cidadãos italianos (e não só) já entenderam: “A ideia (em Washington) não é mais punir a Rússia pelo que ela faz na Ucrânia, mas (...) destruir o seu potencial econômico-militar”. Não se trata mais de ajudar a resistência e a legítima defesa dos ucranianos. Agora, estes últimos “tornaram-se o instrumento de algo maior, outro tipo de guerra, sem limites, em que a paz só é obtida com a derrota definitiva de um dos dois protagonistas”.

 

A histeria da guerra fria, o controle obsessivo da narrativa pública serve para isso.

 

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