Gênero e feminismo. O esforço de afirmar as diferenças em um mundo desigual. Artigo de Simona Segoloni Ruta

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23 Dezembro 2021

 

A categoria de gênero se abre à variedade da experiência corporal como ela é sentida na sua concretude, mas, ao mesmo tempo – pelo menos em algumas acepções –, corre o risco de endossar uma leitura indiferenciada dos próprios corpos, como se a identidade do sujeito fosse decidida independentemente da sua concretude.

 

A opinião é da teóloga leiga italiana Simona Segoloni Ruta, casada e mãe de quatro filhos. É professora do Instituto Teológico de Assis, vice-presidente da Coordenação das Teólogas Italianas e membro do conselho diretivo da Associação Teológica Italiana.

 

O artigo foi publicado em Il Regno, 21-12-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

A categoria do gender/gênero (originalmente utilizada na gramática) entra nas ciências sociais graças a Gayle Rubin (1975), que a usa em oposição a sex/sexo: este último indicaria as características biológicas de homens e mulheres, enquanto aquela, as determinações culturais de ser mulher ou homem.

A partir desse momento, o gênero se entrelaça com o caminho do feminismo, que capta a sua indiscutível vantagem na capacidade de desmascarar a falsa ideia de que os significados e os papéis sociais pensados para os dois sexos são naturais. A reflexão feminista se abre, assim, à distinção entre o sexo e os significados a ele atribuídos, dos quais, depois, decorrem práticas e instituições sociais.

Tal distinção permite desconstruir categorias culturais (estereótipos e símbolos) e elaborar estratégias políticas libertadoras para as mulheres.

 

O paradoxo do corpo indistinto

 

Com o aprofundamento da análise, porém, o feminismo não se limita a considerar apenas o gênero como constitutivo da condição dos sujeitos, mas também se abre a uma multiplicidade de fatores que concorrem com ele: a raça por exemplo, mas também a orientação sexual.

Descobre-se, assim, que a identidade do sujeito – e a sua eventual negação, caso não corresponda ao modelo dominante – pode ser jogada em vários níveis, e nessa conjugação o gênero chega a ser funcional primeiro para a distinção entre sexo e orientação sexual e, portanto, entre sexo biológico e sexo percebido.

Nesse ponto, porém, cria-se um paradoxo que a reflexão feminista evidencia: a categoria de gênero, de fato, se abre à variedade da experiência corporal como ela é sentida na sua concretude, mas, ao mesmo tempo – pelo menos em algumas acepções –, corre o risco de endossar uma leitura indiferenciada dos próprios corpos, como se a identidade do sujeito fosse decidida independentemente da sua concretude.

Uma parte considerável das autoras feministas viu nisso o perigo de um desmantelamento do sujeito, que, no entanto, na realidade, seria a perda do sujeito “outro”, ou seja, das mulheres, uma vez que o sujeito sexualmente indistinto acaba sendo masculino.

Rosi Braidotti escreve que só podem permitir a dissolução do sujeito aqueles que se aproveitaram do sujeito metafísico forte da modernidade (os pensadores, os eleitores, os titulares de cidadania e de autoridade simbólica), ou seja, os homens. “Só o sujeito que já usufrui de uma presença simbólica pode aspirar a superar certas barreiras estruturantes, como por exemplo a diferença sexual” (“Por um feminismo nômade”, in Femminismo, Millelire Stampa Alternativa, p. 57).

 

Uma categoria indispensável, a ser usada com consciência

 

A categoria do gênero, por outro lado, também pode ser usada para dar espaço e valor às diferenças concretas, pois esclarece o componente cultural das hierarquias entre os sujeitos e restitui valor à vivência dos corpos, abrindo-se à significatividade de experiências diferentes.

A partir desse ponto de vista, o gênero pode sustentar a busca de símbolos, para que todos os sujeitos marginalizados, mesmo aqueles que não se encontram no sistema binário dos sexos, possam se dizer e, assim, obter o reconhecimento da própria identidade na ordem simbólica compartilhada.

E, como o feminismo bem sabe (em particular o de matriz psicanalítica), é indispensável elaborar símbolos adequados à própria experiência para que o sujeito forme sua própria identidade: as mulheres sempre sofreram pelo fato de terem que pensar a si mesmas por meio dos símbolos elaborados pelos homens, até começarem a se definir a partir de si mesmas.

A categoria, portanto, é fundamental, neste momento indispensável, mas as potencialidades e os riscos no uso devem ser conjugados na consciência de que as diferenças são difíceis de valorizar em um contexto ainda fortemente hierárquico, em que o modelo normativo é sempre e apenas masculino.

 

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