Joe Biden, capítulo 2: famílias e trabalho, a reconstrução pós-Covid

Joe Biden. | Foto: Gage Skidmore/Flickr CC

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29 Abril 2021

 

Mais de 4 trilhões entre Plano de Trabalho e Plano Familiar, mais impostos para os ricos, reforma da polícia, armas, migrantes. Com levantamentos frágeis, os nós começam agora.

A reportagem é de Giulia Belardelli, publicada por Huffington Post, 28-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Um plano de 1,8 trilhão de dólares para expandir a rede de seguridade social estadunidense, das creches à educação, das licenças pagas à assistência médica. A ser financiado, ao menos em parte, com fortes aumentos de impostos para os mais ricos, através da revogação de benefícios fiscais dispostos por Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, apresentará o plano - denominado American Families Plan - em um discurso perante o Congresso em sessão conjunta: um momento que marcará o fim do primeiro capítulo de sua presidência, focado quase que exclusivamente no gestão da pandemia e o início de uma nova fase em que o presidente tentará impulsionar sua agenda também sobre questões mais controversas, como o controle das armas, a reforma da polícia, a crise da imigração na fronteira com o México. Arquivados os primeiros 100 dias na Casa Branca com o sucesso das vacinas e as ajudas econômicas do American Rescue Plan, o Capítulo 2 promete ser mais desafiador, dada a relutância dos republicanos em se afastar do legado de Trump.

De acordo com o Financial Times, a amplitude do Families Plan – superior em relação às expectativas - reflete a ambição de Biden de reconstruir a economia estadunidense com forte apoio do governo às famílias em dificuldades. As principais medidas incluem US $ 225 bilhões em financiamentos para gastos com a assistência à infância e US $ 225 bilhões adicionais para criar um programa nacional de licença familiar e médica, medidas destinadas a ajudar as famílias da classe mídia e aumentar a participação feminina no mercado de trabalho. O plano também prevê 200 bilhões em financiamento para o acesso universal a creches e 109 bilhões para dois anos gratuitos de Community college, bem como subsídios adicionais para pessoas que adquirem seguro saúde. Também estende um crédito de desconto até US $ 3.600 por criança até 2025.

O plano de apoio às famílias se junta ao plano de relançamento do trabalho, denominado American Job Plan: neste caso, trata-se de investir 2,3 mil bilhões de recursos federais em gastos com infraestrutura, a serem financiados por um aumento de impostos para as grandes empresas. As duas providências somadas conseguiriam mais de 4 trilhões de dólares, mais que o dobro do pacote de estímulo econômico aprovado em março e já definido como histórico.

Em seu discurso, Biden deve mencionar o levante de 6 de janeiro, homenagear a histórica presença de duas mulheres nos mais altos cargos do país (Vice-Presidente Kamala Harris e Presidente da Câmara, Nancy Pelosi), e listar os próximos passos em sua agenda, entre os quais a reforma da polícia, a imigração, o combate contra a violência armada. Mas o foco estará nas duas prioridades legislativas do momento - famílias e trabalho - com os republicanos respondendo friamente a ambos os projetos de gastos, expressando preocupação com os altos custos, pelo aumento de impostos para os super ricos e grandes empresas e, de forma mais geral, pela expansão geracional e sem precedentes da rede de segurança social.

Os legisladores republicanos já rejeitaram o plano de infraestrutura - ligado estreitamente à aposta na transição energética - por considerá-lo muito oneroso, mas o presidente democrata está confiante de que possa haver espaços para colaboração bipartidária em medidas que beneficiariam a grande maioria da população estadunidense.

Do ponto de vista do Partido Republicano, o aspecto mais polêmico de ambos os planos é a solução apontada pelo governo para financiar grande parte dos custos: a revogação dos benefícios fiscais dos mais ricos determinada por Trump (no caso do Family Plan) e o aumento dos impostos sobre os chamados ganhos de capital. Da Casa Branca informam que o presidente está disposto a negociar alguns pontos com os republicanos, mas está disposto a ir em frente de qualquer maneira caso o partido comece a gerar empecilhos.

O certo é que nos próximos 100 dias - de amanhã até 7 de agosto - Biden terá de enfrentar outros desafios além dos que têm dominado sua presidência até agora, ou seja, a crise sanitária e aquela econômica. Nos últimos meses, outras crises já reapareceram às portas da Casa Branca, desde o pico de migrantes desacompanhados na fronteira sudoeste à retomada dos tiroteios em massa após a aparente trégua do lockdown, aos excessos da violência da polícia contra a comunidade afro-estadunidense. Os eventos já levaram o presidente a se posicionar, anunciando medidas sobre as quais haverá embate: assim é sobre a reforma da polícia que Biden gostaria de dedicar em homenagem a George Floyd, por cujo assassinato foi declarado três vezes culpado o ex-agente Derek Chauvin; e, assim, trata-se de adotar "um sistema mais humano" na gestão dos fluxos migratórios, comprometendo-se a manter as famílias unidas e a impedir as obras de ampliação do muro na fronteira com o México.

"Nenhum presidente de Franklin Delano Roosevelt teve uma tarefa mais clara e tangível do que Biden ao enfrentar o vírus", disse o historiador presidencial Jon Meacham. “Uma vez que isso tenha sido totalmente resolvido - tanto nas vacinações quanto no plano de resgate econômico - ele terá que decidir como alocar seu capital entre infraestrutura, justiça racial, clima, armas e os temas que pousarão em sua mesa que ainda não conhecemos. Talvez ele possa pressionar em todas as frentes ao mesmo tempo, mas a história sugere que haverá necessidade de uma prioridade”.

Até agora, a maioria dos estadunidenses apoiou o trabalho de Biden sobre pandemias e estímulos econômicos, mas seu índice de aprovação geral 100 dias após assumir o cargo pode ser descrito como morno. De acordo com uma recente pesquisa ABC News / Washington Post, apenas 52% dos entrevistados aprovam o trabalho do presidente – trata-se da terceira porcentagem mais baixa aos 100 dias no cargo desde 1945; pior do que ele, apenas Gerald Ford em 1974 (48%, após seu impopular apoio a Richard Nixon) e Donald Trump com 42% em 2017. Para os 14 presidentes de Truman a Biden, a média após os primeiros 100 dias é de 66%.

Segundo os analistas, as causas de uma aprovação tão tímida estão na conhecida polarização da política estadunidense, mas é interessante focar nas diferentes vozes que compõem a mídia. Quando se fala de gestão da pandemia e ajuda econômica, de fato, a aprovação de Biden sobe para 64 e 65%, respectivamente. Quando se fala de aumentar os impostos para as grandes empresas, sua popularidade é de 58%. O apoio ao plano de infraestrutura (American Job Plan) cai para 52%, enquanto despenca para 37% para a gestão da situação migratória na fronteira entre os Estados Unidos e o México.

Finalmente, 53% dos estadunidenses temem que Biden aumente demais as dimensões e o papel do governo na sociedade estadunidense. Um antigo bicho-papão que o presidente democrata terá que subverter para tentar reconstruir realmente a sociedade e a economia estadunidenses em bases mais justas e sustentáveis. Se nos primeiros 100 dias Biden conseguiu vencer o imenso desafio de tirar os EUA do abismo negro do contágio - também graças à máquina de vacinas financiada por seu antecessor - o capítulo 2 se abre com muito mais nuances.

 

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