Golpe, tortura e ditadura nunca mais

Foto: Paulo Pinto | Fotos Publicas

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Abril 2021

 

"Nos dois traumas – pandemia e ditadura, político ou sanitário – o país encontra-se à deriva das ondas superficiais de narrativas obtusas, estapafúrdias e negacionistas", escreve Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM.

 

Eis o artigo. 

 

O livro Brasil: nunca mais foi um projeto desenvolvido por Dom Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, pelo Rabino Henry Sobel e pelo Pastor presbiteriano Jaime Wright, acompanhados por uma equipe. Constitui um laborioso trabalho, que durou nada menos do que 8 anos de pesquisa, sobre os processos políticos que tramitaram pela Justiça Militar entre abril de 1964 e março de 1979, em plena vigência da ditadura militar. A equipe era formada por um grupo de especialistas ligados à Comissão Justiça e Paz – a qual, entre outras coisas, incluía e representada a busca da verdade e a defesa dos direitos humanos. O projeto foi particularmente liderado pela arquidiocese de São Paulo, sendo o texto final prefaciado por Dom Paulo Evaristo Arns. O livro foi lançado em 15 de julho de 1985, pela editora Vozes. O sucesso foi tamanho que, atualmente, encontra-se na sua 41ª edição.

Essa gigantesca tarefa de estabelecer a verdade sobre o regime de exceção que vigorou de 1964 a 1985 representa um motivo (entre tantos outros) para dizer alto e bom som que o Brasil viveu um período extremamente sombrio onde palavras tais como golpe, perseguição, censura, prisão, tortura, desaparecidos, mortos e ditadura devem ser sublinhadas. Elas cheiram e sabem de dor, sangue, lágrimas, saudade e sofrimento!... Mas gritam também através do Congresso Nacional e dos meios de comunicação social, silenciados e silenciosos, cujo silêncio ecoou de forma forte e estridente por todo o período das armas que cospem fogo e bala, das fardas que amedrontam e das botas que pisam!... E gritam, ainda, pelas dezenas e centenas de movimentos, universidades, sindicatos, associações, entidades, organismos e organizações, entidades e forças sociais que jamais se dobraram ou se calaram!... Gritam, enfim, pelos inúmeros ativistas cuja história foi devastada, perseguida, vilipendiada – o que significou prender, fichar, torturar, matar, esconder provas e corpos, deixando famílias duvidosas e/ou enlutadas.

Tanta dor e tanta treva impedem que o dia 31 de março (ou 1º de abril se quisermos) passe para a história como uma data para a ser festejada ou comemorada. O estudo, a pesquisa e a ciência, com todo critério e seriedade que incorporam, já se encarregam de consolidar as ditaduras do Cone SulArgentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai (para não falar da América Central e da Europa na década de 1930 ou dos muitos exemplos da África e Ásia) – como experiências duras e sombrias de nossos povos. Capítulo à parte, mas sempre subordinado aos regimes de exceção, mereceriam as migrações que ocorreram seja no interior da região, seja dela para fora. Quantos alunos e professores, estudiosos e cientistas, intelectuais e sindicalistas, agentes e profetas se viram obrigados ao autoexílio!?... Mais do que nunca, em meio ao pesadelo da pandemia do novo coronavírus e em meio ao crescente autoritarismo do governo Bolsonaro, valem o alerta e a denúncia vigorosa: golpe, tortura e ditadura nunca mais. Nunca mais um governante que menospreza e debocha de seu povo aflito e enfermo – dos mais de 12 milhões de infectados, dos mais de 300 mil mortos e das mais de 3 mil vidas ceifadas num único dia. Nunca mais um chefe de estado que é capaz de “soltar fogos de artifício” pela ditadura militar, que chama de herói ao torturador e que lamenta que as vítimas desse período tenham sido poucas.

Nos dois traumas – pandemia e ditadura, político ou sanitário – o país encontra-se à deriva das ondas superficiais de narrativas obtusas, estapafúrdias e negacionistas. Mais grave, à deriva e sem bússola, sem piloto, sem farol e sem porto seguro, em direção ao qual possamos navegar com confiança. Miopia e cegueira, fanatismo e ideologia, cinismo e perversidade impedem ver que, sob essas ondas superficiais, as correntes profundas da economia, da sociologia, da cultura, antropologia, da ecologia e da psicologia seguem seus rumos. Independentemente do senhor de plantão, as leis da natureza e da história prevalecem sobre tiranos e tiranias. Através da voz de seus seus anjos, mensageiros ou profetas, Deus irrompe no tempo. Bifurca os caminhos, busca alternativas vitais aos regimes totalitários e opressores.

Leia mais