“A corporação clerical não precisa das mulheres porque se basta.” Artigo de Cristina Simonelli

(Foto: Rosie Sun | Unsplash)

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16 Março 2021

O binômio clero e mulheres não se sustenta, mas pode funcionar, pois os dois grupos são claramente distintos e reciprocamente excludentes: se você é mulher, você não faz parte do clero, e, respectivamente, se você faz parte do clero, evidentemente não é uma mulher.

A opinião é de Cristina Simonelli, teóloga leiga italiana, presidente da Coordenação de Teólogas Italianas e professora da Facoltà dell’Italia Settentrionale e do Seminário Arquiepiscopal de Milão.

O artigo foi publicado no caderno Donne Mondo Chiesa, do jornal L’Osservatore Romano, de março de 2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Entre porquinhos, lobos e bruxas, como se sabe, não há muita confiança, como ensina o famoso "Who’s Afraid of the Big Bad Wolf” – título original da cançãozinha “Quem tem medo do Lobo Mau?”, que quase tem vida própria, apresentando-se também em filmes cinematográficos, entre obras de bruxas, de casos de família –, com Virginia Woolf que brinca com a identidade wolf = lobo, mas também com o nome da romancista feminista – e cenários fóbicos de homens com ansiedade de desempenho.

Há pouco para se fazer piada, se poderia dizer, e menos ainda para se recorrer aos contos de fadas sobre a questão que aqui nos convoca. No entanto, precisamente a forma um tanto irônica e decididamente paradoxal do refrão parece-me adequada para abordar um problema muitas vezes formulado em torno de um binômio mulheres/Igreja, que, na minha opinião, simplesmente não se sustenta.

Por quê? Porque as mulheres fazem parte da Igreja, ou, melhor, para dizer com mais precisão, a Igreja simplesmente não existe sem as mulheres. O imaginário subentendido a frases como “a Igreja tem medo das mulheres” ainda é aquilo que faz com que, sobre a palavra “Igreja”, surjam as imagens do papa – às vezes sozinho, às vezes rodeado de bispos e cardeais, ou, em caso de propensão marcadamente democrática, com o acréscimo de padres e frades.

Não é difícil entender que tal imaginário é reforçado pelas mídias de todos os gêneros e espécies, que, porém, para a sua grande embora não total desculpa, não encontram motivos para dirigir as tomadas de câmera de outra forma e formular outras manchetes: muitas vezes, parece precisamente que quem está falando do Vaticano ou das cúrias das dioceses “é” a Igreja.

Obviamente, nem mesmo os bispos, pelo menos em média, quando especificamente questionados, diriam que “a Igreja são eles”, e teólogas e teólogos certamente não afirmariam tal coisa, pelo menos se foram formados depois do Concílio.

Portanto, as mulheres fazem parte da Igreja, ou, melhor, segundo as estatísticas e mesmo em um olhar apressado, elas também são a parte numericamente mais conspícua dela.

Então, talvez seria o clero? Seria possível ficar com a distinção recém-indicada e sugerir que o sujeito que tem medo não pode ser a Igreja, mas poderia ser a sua comitiva ministerial, isto é, aquilo que, em um jargão bastante compreensível, pode ser definido como o clero, etimologicamente, “a parte escolhida”.

A partir desse ponto de vista, o binômio clero e mulheres pode funcionar, pois os dois grupos são claramente distintos e reciprocamente excludentes: se você é mulher, você não faz parte do clero, e, respectivamente, se você faz parte do clero, evidentemente não é mulher.

Assim, a reflexão está de pé e pode se estender em muitas direções: sobre as mulheres e a formação do clero, sobre a colaboração dos padres com as mulheres, sobre o matrimônio também, se falarmos de diáconos ou de padres católicos, mas não de rito latino.

No entanto, eu faria uma distinção a mais, porque esse modo de colocar o problema, no fim, também só funciona em parte. De fato, há também muitos padres e vários bispos que efetivamente não têm medo das mulheres. Há também alguns, talvez em menor grau, que, colaborando com respeito, também aprenderam a falar “a partir de si mesmos” e, portanto, a não serem “paladinos das mulheres” – o que eu certamente não pediria e que, pelo contrário, é mais do que paternalista –, mas sim a tematizar a própria parcialidade masculina. Nem todos, portanto: não o “clero”, assim como há muitas mulheres que não são a Mulher.

O clero como uma corporação clerical? Sim. O problema, portanto, não reside nos indivíduos, mas no grupo, na medida em que ele se move como uma espécie de corporação, que raramente se põe em discussão e eventualmente apenas em seu interior, ou em um plano espiritual ou moralista.

Um grupo que, embora residual do ponto de vista numérico e em forte fadiga sob muitos outros pontos de vista, não consegue encontrar a força para se repensar em um sentido mais amplo.

Essa forma de colocar a questão não está tão distante daquilo que o Papa Francisco indicou várias vezes como “clericalismo”: que não é uma contraposição entre quem desempenha um ministério ordenado e quem não, mas si uma forma doentia de o desempenhar e conceber. Só que, mesmo a partir desse ponto de vista, provavelmente seria preciso mais coragem para repensar não a periferia com maquiagem, mas sim o todo; mas aqui a discussão levaria longe.

Entretanto, é essa “corporação clerical” – que muitas vezes absorve até as melhores energias dos indivíduos – que tem medo das bruxas, isto é, que vê as mulheres como um problema e uma ameaça? Talvez. No fundo, porém, o medo, se acolhido e percorrido com honestidade, poderia abrir ao diálogo, assim como o desconforto acolhido e trabalhado poderia ser fecundo. É claro que o seria sempre mais do que a indiferença.

Muitas vezes, de fato, eu temo que o aspecto mais triste dessa questão possa ser recolhido em um horizonte muito menos nobre: a corporação, mais do que ter medo das mulheres, não precisa delas, porque, simplesmente, “se basta”.

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