Pentecostes: romper o terror que paralisa

Foto: Comunidade Pantokrator

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

04 Junho 2020

"A tarefa do Espírito é convertê-los de 'discípulos medrosos em missionários ardorosos', apóstolos das primeiras comunidades cristãs", escreve Alfredo J. Gonçalves, cs, padre, vice-presidente do SPM.

Eis o artigo.

No vasto campo do sagrado, e em particular nas páginas bíblicas, o Espírito de Deus manifesta-se normalmente através do silêncio, do sopro ou da brisa suave e da luz. Por que então Lucas (At 2,1-4), no Livro dos Atos dos Apóstolos, ao descrever o Pentecostesa vinda do Espírito Santo – fala de “grande barulho” (e não silêncio), “forte ventania” (e não sopro ou brisa suave) e “línguas de fogo” (e não luz)?

A verdade é que, em outros escritos neotestamentários, lê-se que os discípulos “estavam com as portas fechadas por medo das autoridades dos judeus” (Jo 20, 19). Nada neutraliza de forma tão eficaz, nada paralisa tanto como o medo! De resto, é também o medo que obriga outros dois discípulos a fugir de Jerusalém para Emaús (Lc 24, 13-35). Esclarecedor, neste episódio, é o eloquente contraste entre a ida e a volta. Na ida, ambos seguem cabisbaixos, tristes, olhos no chão, fugitivos pela impotência diante dos fatos trágicos que tinham presenciado junto à capital. O projeto do Reino dos Céus, anunciado pelo Messias, havia fracassado de forma definitiva. O próprio Jesus de Nazaré fora condenado à morte, supliciado numa cruz, o pior dos fins para os malfeitores e desordeiros. Se o Mestre terminara dessa forma, o que não poderia ocorrer com seus seguidores? Melhor escapar para Emaús.

O trajeto do retorno é o mesmo, mas bem diversos são os sentimentos e emoções experimentam os dois discípulos. A experiência toma uma direção completamente oposta. “Não ardia o nosso coração enquanto ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras” – comentam entre si (v. 32)! Os passos lentos e pesados são substituídos pela pressa em contar o que viram. A tristeza cede lugar à alegria e um novo ardor toma conta de ambos. O medo foi superado e varrido pelo entusiasmo. Os pés e a alma como que ganham asas para percorrer o percurso inverso de Emaús a Jerusalém. Tomando emprestado a linguagem do Documento de Aparecida, é fácil concluir que o encontro na casa e à mesa com o Ressuscitado converte “dois discípulos medrosos em dois missionários ardorosos”.

A esta altura, convém voltar às expressões de Lucas para designar a forma do Espírito Santo: “grande barulho, forte ventania, línguas de fogo”. Uma vez mais, por quê? Porque tornava-se necessário sacudir e combater o medo, o isolamento e o torpor daquele pequeno grupo de discípulos. A crise inesperada da cruz pesava improvisadamente sobre todos e sobre cada um. Tinham sido avisados, é bem verdade, mas não haviam compreendido. Neutralizados pelo temor das autoridades, fecharam-se sobre si mesmos. Encontravam-se de joelhos, vencidos, frágeis, paralisados. Como sacudi-los e acordá-los dessa letargia, levantando-lhes a cabeça e fazendo-os retomar a vida diária? Melhor ainda, como fazê-los vencer a apatia efêmera, no sentido de que fazia-se necessário dar continuidade à obra do Mestre? O barulho, o vento e o fogo adquirem aqui uma simbologia forte e marcante, que convida a abrir as portas, chama às ruas e envia ao caminho da prática evangelizadora.

O grande desafio está em converter aquele pequeno núcleo de discípulos no embrião da Igreja incipiente. Não custa repetir que os símbolos do barulho, do vento e do fogo caracterizam uma maneira de despertar o potencial oculto daquele grupo de amigos íntimos, os quais haviam sido escolhidos pelo próprio Jesus. Despertar e pô-los em marcha, retomando os caminhos e os horizontes que o Mestre havia descortinado. Movê-los era mover a energia oculta da Igreja nascente. Transfigurar a graça de Deus em força viva e ativa na construção do Reino. Também aqui, a tarefa do Espírito é convertê-los de “discípulos medrosos em missionários ardorosos”, apóstolos das primeiras comunidades cristãs. E estas, então, começam a se multiplicar. A partir do Oriente Médio, expandem-se para a Ásia, a África e a Europa. Nesse processo de expansão, acompanha-as a última frase do Evangelho de Mateus: “Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Palavras de conforto em tempos de pandemia!

Leia mais