“Visão profética agora cabe aos leigos”

Discurso do papa Francisco à Cúria Romana. | Foto: Vatican News

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06 Janeiro 2020

Uma novidade, sim. "E até arrebatadora", acrescenta o filósofo Umberto Curi sobre a declaração - contida no discurso do Papa Francisco de 21 de dezembro passado à Cúria Romana - segundo a qual "não estamos mais na cristandade".

A entrevista é de Alessandro Zaccuri, publicada por Avvenire, 22-12-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista. 

Não há precedentes, professor?

O pensamento corre para a distinção, na qual Soeren Kierkegaard retorna repetidamente, entre cristianismo autêntico e "cristiandade estabelecida", ou seja, aquela espécie de deterioração, ou verdadeiro perversão, do anúncio do Evangelho inerente ao processo de secularização. Mas, mais do que qualquer outra coisa, no discurso do Papa, a renúncia a qualquer fechamento intransigente em relação à cultura contemporânea marca um primeiro e fundamental passo à frente na direção à abertura de um efetivo diálogo com o nosso tempo. Cabe agora aos representantes da chamada cultura laica responder a um convite tão significativo.

Qual pode ser o ponto de encontro?

Pessoalmente, fiquei muito impressionado com a indicação dos pressupostos teóricos nos quais se baseia a convergência entre a Doutrina da Fé e a Evangelização. É verdade que a referência imediata é ao plano da "humanidade", mas o quadro conceitual em que se inscreve essa diretiva é a concepção cristã de amor, e ainda mais explicitamente a afirmação de inspiração em João, segundo a qual Deus é amor.

O Papa recorda também o atraso de "duzentos anos" já denunciado pelo cardeal Martini...

Essa é uma das passagens mais corajosas e inovadoras do discurso. E é, ao mesmo tempo, uma passagem altamente problemática, porque está exposta a mal-entendidos insidiosos. Falar de "atraso" da Igreja pode aludir erroneamente à necessidade de a Igreja "acompanhar os tempos", embora deveria ficar evidente que a questão originalmente identificada por Martini, e agora retomada por Bergoglio, não diz respeito à capacidade de perseguir a modernidade no plano das tendências culturais, mas a falta, ou embotamento, daquela vocação profética em que se expressa a fidelidade ao ensinamento cristão.

Na sua opinião, qual é a relação entre "mudança de época" e necessidade de reforma?

Se existe um aspecto que, desde o início de seu pontificado, caracterizou a iniciativa do Papa argentino, é colocar-se acima e fora dos esquemas com os quais os eventos da Igreja de Roma são tradicionalmente interpretados nas últimas décadas. No máximo, esse texto confirma a clara superação da contraposição entre conservadores e progressistas, no sinal de uma escuta da mensagem cristã em uma perspectiva em que (como afirma Francisco) a tradição é em si uma abertura para o futuro.

 

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