Venezuela. O Papa a Maduro: "Acordos descumpridos"

Papa Francisco com Nicolás Maduro, no Vaticano, 2013. Foto: Embaixada da Venezuela nos Estados Unidos da América

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14 Fevereiro 2019

 Uma longa carta endereçada ao Senhor Maduro. O Papa escreve ao ditador venezuelano. É a resposta ao pedido de mediação que chegou de Caracas. "Infelizmente, o que foi acordado nas reuniões não foi seguido por ações concretas para implementar os acordos". O significado é claro. Maduro buscou o diálogo, para depois descumprir os compromissos assumidos. A carta é endereçada ao ''Excelentísimo señor Nicolás Maduro Moros, Caracas" e traz a data de 7 de fevereiro de 2019. "Señor" não "Presidente". Tem duas páginas e meio de comprimento e leva a assinatura minúscula e quase invisível de "Francisco". Trata-se da resposta do Papa para o enésimo pedido de mediação que lhe foi enviado alguns dias atrás, sempre por escrito, pelo chefe do regime comunista da Venezuela. E esclarece o que quis dizer o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, quando em 8 de fevereiro, falou de "neutralidade positiva" da Santa Sé em relação a uma guerra civil que vem se arrastando.

A reportagem é de Massimo Franco, publicada por Corriere della Sera, 13-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Embora com tons polidos, lembrando as repetidas tentativas solicitadas pelo regime e feitas pela Santa Sé nos últimos anos, Francisco não concede muito. Teve outras tentativas "para tentar encontrar uma saída para a crise venezuelana", escreve Jorge Mario Bergoglio. "Infelizmente, todas foram interrompidas porque o que foi acordado nas reuniões não foi seguido por ações concretas para implementar os acordos", observa o Pontífice. "E as palavras pareciam deslegitimar as boas intenções que haviam sido colocadas por escrito." O significado é claro. Maduro buscou o diálogo, utilizando também a imagem do Vaticano, para depois descumprir os compromissos assumidos. E o Papa lembra isso a ele.

A advertência pode ser lida de forma mais sutil também quando, imediatamente depois, afirma ter sido sempre a favor de uma mediação. "Não de qualquer diálogo, porém”, explica, "mas daquele que se inicia quando as diferentes partes envolvidas no conflito colocam o bem comum acima de qualquer outro interesse e trabalham pela unidade e pela paz." Francisco repete o papel desempenhado pela Santa Sé e pelos bispos da Venezuela "como fiador, e a pedido das partes”, em uma fase que se iniciou no final de 2016. Foi um esforço para sair da crise "de forma pacífica e institucional" através da negociação entre o governo Maduro e a Mesa de Unidade Democrática; e com uma série de condições a serem cumpridas, confiada a uma carta do cardeal Parolin de 1º. de dezembro de 2016.

Naquela carta, Francisco relembra, "a Santa Sé sinalizou claramente quais eram as condições prévias para que o diálogo fosse possível". E apresentou "uma série de pedidos que considerava indispensáveis para que o diálogo se desenvolvesse de forma profícua e eficaz". Pois bem, hoje, de acordo com o Papa, aqueles pedidos e "outros que, desde então, foram acrescentados como consequência da evolução da situação", são mais necessários do que nunca. Por exemplo, acrescenta, "aquele expresso na carta que eu lhe encaminhei sobre a Assembleia Nacional constituinte". Em suas palavras, percebe-se o eco da resistência cada vez mais aberta da conferência dos bispos do país em relação a Maduro, aos seus métodos e ameaças.

E a exigência que se "evite qualquer forma de derramamento de sangue". Mas também emerge a decepção pela maneira em que aquelas tentativas foram frustradas pela resistência surda e ardilosa do regime de Maduro, e pela realidade de uma oposição venezuelana então dividida e confusa. Não só isso. A referência à carta de Parolin serve para lembrar, mesmo sem mencioná-los, os insultos que o círculo “duro” de Maduro apresentou às exigências do Vaticano para encaminhar uma negociação efetiva. As palavras contidas na carta do Papa de 7 de fevereiro, ao contrário, ainda são cautelosas. Tão cautelosas que correm o risco de serem mal interpretadas: quase o sinal de um afastamento progressivo e inexorável do papado argentino das alianças ocidentais e das suas dinâmicas. Mesmo assim, a prudência Francisco parece responder ao desejo de manter uma posição mediana entre EUA e Europa - favoráveis ao reconhecimento do líder da Assembleia legislativa, Juan Guaidó, como legítimo presidente interino, proclamado depois de uma manifestação de 23 de janeiro último - e China, Rússia, Turquia e Irã que, em vez disso, sustentam o cambaleante regime de Maduro, guiados por vultuosos interesses econômicos e geopolíticos.

Juntamente com Cuba, são os maiores financiadores e, portanto, credores do regime. Para além da cautela diplomática, o juízo de Francisco e de seus conselheiros sobre Maduro é, no mínimo, negativo. No início de 2019, o uruguaio Guzmán Carriquiry Lecour, vice-presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, um dos homens mais ouvidos pelo Pontífice, escreveu no boletim oficial da Comissão: "Que pena que a palavra de ordem e a utopia de um ‘socialismo do século XXI’ tenham degenerado no regime autocrático e cada vez mais liberticida do Presidente Maduro, em um total fracasso econômico e na miséria social". Ele pediu "um grande projeto alternativo de reconstrução nacional e de mobilização popular" para a Venezuela. Um mês depois, no entanto, a situação tomou um rumo dramático: ao ponto que qualquer mediação corre o risco de parecer inviável. Desse medo, na carta de Francisco pode-se notar uma marca profunda no final: quando explica a Maduro que o "preocupa profundamente a situação". E ele confessa que está preocupado com "o sofrimento do nobre povo venezuelano, que parece não ter fim". Talvez seja a última mão estendida à qual o regime pode se agarrar. Mas, agora, até mesmo a mão do Papa parece ser uma mão generosa, mas, ao mesmo tempo, cautelosa.

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