Frugalidade ou consumo?

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

14 Fevereiro 2019

“A consciência ecológica emergente exige que reaprendamos uma ‘frugalidade feliz’, que reinventemos os reflexos econômicos (...) e façamos prevalecer um princípio exigente: o da precaução”, escreve Jean-Claude Guillebaud, jornalista, escritor e ensaísta, em artigo publicado por La Vie, 12-02-2019. A tradução é de André Langer.

Mas, admite: “Por outro lado, nós, cidadãos, estamos sujeitos a uma injunção contrária. Somos incitados a consumir para fazer girar a máquina e melhorar o crescimento. (...) Todos os dias a mesma injunção nos é apresentada pelo discurso publicitário que define muito bem o espírito da nossa época: trabalhar mais para ganhar mais. E para consumir mais...”.

E alerta: “A contradição é tão grande que será necessário, mais cedo ou mais tarde, encará-la de frente”.

Eis o artigo.

Em quatro décadas, e superando qualquer controvérsia política, a “consciência ecológica global” fez progressos espetaculares: 40 anos após a publicação, em 1979, do livro seminal do filósofo alemão Hans Jonas, O princípio responsabilidade [Rio de Janeiro: Contraponto; Editora da PUC-Rio, 2006] (traduzido para o francês em 1990), nossa visão de mundo transformou-se totalmente. Em sua relação com a história e o desenvolvimento, os povos incorporaram um novo parâmetro: a extrema fragilidade do planeta. Os espíritos operaram sua mudança. Não podemos mais “desperdiçar” os recursos naturais, nem continuar devastando o ecossistema e prostrando-nos diante do “crescimento”.

Os chamados “colapsólogos” vão ainda mais longe. Eles acham que nos arriscamos a destruir nosso próprio planeta. Nesse caso, nós inventaríamos “um outro fim do mundo”, para citar o título de um livro recente (Une autre fin du monde est possible, de Pablo Servigne Raphael Stevens e Gauthier Chapelle, editado pela Editora Seuil). Em todas as partes, iniciativas estão surgindo, ideias estão sendo lançadas, boas vontades estão se manifestando. Deste ponto de vista, certamente, não é loucura acreditar que a “catástrofe” possa ser evitada. O pior nunca é seguro. Mas há urgência.

Resta, no entanto, uma contradição central sobre a qual ainda se debatem e debaterão todas as COP imagináveis. Baseia-se na nossa definição de civismo e de cidadania. Por um lado, a consciência ecológica emergente exige que reaprendamos uma “frugalidade feliz” (1), que reinventemos os reflexos econômicos – separação de resíduos, limitação da velocidade, restrição de pesticidas, retirada do mercado das lâmpadas de baixa intensidade, reciclagem de todos os tipos, etc. – e façamos prevalecer um princípio exigente: o da precaução.

Para isso, temos que romper com a ambição prometeica do desenvolvimento a qualquer custo, da urbanização faraônica, da apropriação ávida das riquezas naturais. Qualquer projeto ecológico, qualquer iniciativa neste campo, está relacionado a este princípio da economia. Será cívico aquele que aceitar impor essa disciplina. E esta restrição: não concretar o nosso país, não artificializar o menor canto da França, não desperdiçar, como fazemos, um bom terço da alimentação produzida (2).

Por outro lado, nós, cidadãos, estamos sujeitos a uma injunção contrária. Somos incitados a consumir para fazer girar a máquina e melhorar o crescimento. O “sistema” é, assim, montado de tal modo que a coesão de nossas sociedades requer crescimento – e, portanto, consumo – sustentado. Será considerado cívico aquele que triunfar sobre sua restrição e concordar em quebrar seu cofre de economias.

Recomenda-se trocar de carro ou de computador sem esperar que sejam obsoletos. Exige-o o deus crescimento. Também medimos o moral dos franceses examinando um parâmetro: seu desejo de consumir. É idiotice, mas é assim. Todos os dias a mesma injunção nos é apresentada pelo discurso publicitário que define muito bem o espírito da nossa época: trabalhar mais para ganhar mais. E para consumir mais... A contradição é tão grande que será necessário, mais cedo ou mais tarde, encará-la de frente.

1.- A encíclica Laudato Si' reflete sobre a "sobriedade feliz" - Laudato Si' no. 224 ss  (Nota de IHU On-Line).

2.- Cada brasileiro joga mais de 40 quilos de comida no lixo por ano

Leia mais