Nova teologia eucarística: ''Hoc facite'', linhas sistemáticas do novo modelo. Artigo de Andrea Grillo (última parte)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

18 Abril 2018

Depois de ter percorrido os dois primeiros capítulos do livro Hoc facite, de Zeno Carra, nos posts anteriores (leia aqui, aqui e aqui), o teólogo italiano Andrea Grillo prossegue, neste texto, examinando o terceiro capítulo (pp. 217-265), com uma apresentação sintética das consequências sistemáticas dessa ampla leitura. Elas dizem respeito, acima de tudo, à mudança de modelo (em nível teológico-fundamental) e, depois, também, a uma nova visão dos “nós” fundamentais da doutrina eucarística.

O artigo foi publicado por Come Se Non, 07-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

a) Quanto ao modelo (teologia fundamental)

No plano de uma compreensão geral da revelação e da fé, a passagem do modelo “tomista-tridentino” ao do século XX implica três passagens muito fecundas:

- a análise da mudança de modelo, com os seus “nós” e os eixos que os unem (Cristo, ser humano, Igreja, rito e objetos envolvidos no rito), permite uma avaliação “sincrônica” e “diacrônica” muito frutuosa, tanto em termos de desenvolvimento da doutrina, quanto em termos de relação entre dogma e heresia;

- vemos ser contestada, assim, uma imagem, bastante usual, que interpreta o desenvolvimento da doutrina nestes termos: “A verdade que move a história se encontra no conteúdo noético escondido sob as formulações verbais dos discursos teológicos” (p. 222). Em vez disso, é preciso reconhecer que “o todo real, nas suas várias funções (palavra, pensamento, prática), é o lugar de inserção da verdade de Deus a nós (portanto, não uma única parte dela, isto é, o pensamento abstrato)” (p. 224).

- daí deriva uma compreensão mais adequada dos dogmas, que “não são o recipiente de um pensamento verdadeiro e absoluto, a fonte da verdade noética dentro da história. Eles são o esforço de resposta operado pela vida crente da Igreja aos movimentos de deformação histórica das formas de fé” (p. 226).

Tudo isso tem consequências muito importantes para o modo de conceber a relação com a verdade: “O verdadeiro não deve ser pensado como a inferência intelectual adequada ao objeto, mas sim como a colocação harmoniosa do sujeito em suas relações com o real” (p. 230). Portanto, o verdadeiro está “nas formas do real” e, em última análise, em uma assunção do estatuto cristológico da verdade (p. 230-231). Isso evidentemente tem repercussões muito fecundas sobre a “doutrina eucarística”.

b) Quanto à doutrina eucarística (teologia dogmático-sacramental)

O caminho percorrido até aqui demonstrou a necessidade de um “novo modelo” de teologia eucarística. E isso por dois motivos:

- o modelo clássico, elaborado entre a Idade Média e a Idade Moderna, tem em si inúmeros desequilíbrios, porque “relega ao segundo plano elementos centrais da tradição quanto ao fato eucarístico” (p. 233). Depois, Carra especifica seu pensamento: são “desequilíbrios nascidos do fato de terem se concentrado em alguns problemas que se tornaram centrais na mudança de época do mundo antigo à Idade Média e de se ter deixado exclusivamente à tutela do princípio de autoridade aqueles componentes que permaneciam fora da sistematização. Pense-se na comunhão dos fiéis: o modelo a torna segunda e secundária em nível teorizado; registra uma efetiva prática de marginalização dela na vida da Igreja; recorre ao nível da parênese de autoridade para tentar mantê-la viva” (p. 233).

- o deslocamento do modelo clássico a um “mundo novo” como o do século XX exige uma nova e profunda calibragem “para restaurar a pertinência sobre o real ao dado da fé eucarístico” (p. 233). Isso não pode ser garantido por “retoques em partes do modelo: operar em alguns de seus nós significa movê-lo estruturalmente em sua inteireza” (p. 234).

Daí emergem os “delineamentos” de um novo modelo, que são expostos de acordo com a sequência: Cristo, sacramento, ontologia.

a) O presentificado (o Cristo) (p. 234-241)

- está presente não o “corpo histórico que ressuscitou”, mas sim “o crucificado ressuscitado”. A Páscoa não é um acidente da presença real;

- está presente a promessa do corpo humano como “cumprimento da sua natureza relacional”;

- presença corpórea e presença pessoal são “corpo pascal”, sem contradição. O lugar histórico dessa corporeidade como “plena relacionalidade” deve ser conatural a ele: “Não, portanto, o espaço estático do ente, mas sim o processo dinâmico de uma estrutura de conexões relacionais: uma forma” (p. 237);

- o cumprimento do em-si de Cristo na morte-ressurreição é antecipado na forma ritual da ceia, que é constituída pela sequência: tomou, abençoou/deu graças, partiu, deu. Essa forma ritual é “forma crucis e forma Christi”.

- “Indicar o lugar da presença sacramental em uma forma relacional diacrônica, em relação a um ente espacialmente considerado, absolutamente não é diminuir ou enfraquecer a presença real, mas sim fundamentá-la na condição gloriosa e cumprida do seu Presentificado” (p. 241).

b) O sacramento (o signum) (p. 241-248)

- “O sacramento, portanto, não tem a sua realização naquilo que acontece com um ente espacialmente considerado na sua inseidade, em torno do qual se desenharia secundária e consequentemente uma forma ritual. O fato do sacramento está justamente na forma ritual agida, dentro da qual os entes (estamos na história e, portanto, podemos considerá-los assim ainda) pão e vinho também são inevitavelmente colocados” (p. 241-242);

- a forma do sacramento não é a ceia propriamente dita, mas “aquele processo em quatro ações que conecta (...) aquele que preside, pão e vinho, discípulos” (p. 242).

- isso significa “indicar na ação litúrgica, que, para a eucaristia, tem-se na ação de tal forma, o nível essencial do sacramento. Não o seu marco cerimonial” (p. 243) É todo o processo ritual que é reconhecido como essencial. Isso implica, em nível dogmático, “a decisiva superação da distinção clássica entre sacramento e uso” (p. 243).

- “O modelo clássico se fundamenta no pensamento espacializante ôntico grego e, por isso, não hesita em encerrar o fato eucarístico na relação de pregação lógico-performativa entre o pronome hoc, a referência ao pão em si e o predicado corpus meum, tudo através da cópula est (e o mesmo para o vinho). Mas um olhar fenomenológico nos mostra que essa é uma abstração filosófica que faz uma certa violência ao texto. Os pronomes demonstrativos (hoc-hic) referem-se a um pão e a um vinho agidos, não a um pão e vinho em si” (p. 245).

- “O modelo da transubstanciação impede que a ratio sacramenti detenha em si a tensão escatológica: quando transubstanciados, pão e vinho consagrados absolutamente não podem ser a antecipação histórica da irrupção progressiva do eskaton: eles não são mais eles mesmos e, portanto, o que ocorre com eles não tem nada a ver com o destino final da criação, em que tudo será cumprido em plenitude e não transubstanciado! O modelo que estamos esboçando, por sua vez, permite a reivindicação escatológica: a presença do Ressuscitado emerge na história na conexão formal-relacional entre os elementos. Estes, portanto, não perdem a si mesmos, mas se cumprem na sua relacionalidade com todo o resto, precisamente por serem assumidos na posição da forma sacramental” (p. 247).

c) A ontologia (a res) (p. 248-257)

Ainda é preciso se perguntar, porém, se o advérbio substantialiter, que caracterizou a tradição eucarística dos últimos 500 anos, pode ser reduzido a essa interpretação negativa – diríamos não ocasionalista da eucaristia – e privado de “conteúdo positivo”. Para responder a essa objeção e elaborar uma “ontologia eucarística”, é necessário que Carra prossiga em diversos planos:

- “A pergunta, portanto, deve ser posta dentro do modelo que a reflexão teológica fornece. O que acontece com este pão e este vinho liturgicamente agidos?” (p. 249).

- Mas, se o acesso ao Cristo ressuscitado é dado “em uma forma relacional dinâmica, em vez de em uma inseidade ôntica substancial, então os pontos de conexão da forma, os elementos nela envolvidos, sobre os quais ela estende o seu conjunto processual, orgânico e coeso de vetores conectivos, são todos intrínsecos à própria forma (...) A forma se cumpre na manducação sacramental, porque ela é sua parte estrutural (...) A manducação é essencial ao sacramento e, portanto, à presença” (p. 251).

- “A Igreja também, na sua relação com a eucaristia, é, em pleno direito, corpus Christi: porque ela é parte intrínseca da forma sacramental da Sua presentificação. A comunhão dos fiéis do único pão tomado, eucaristizado, partido e dado é partícipe da forma presentificante. E, portanto, o elemento fiéis-Igreja, que tal vetor da forma conecta, faz parte da única presença corpórea do Cristo pascal” (p. 251-252).

Daí também deriva, por fim, uma afiada releitura da SC 7 sobre a presença de Cristo: “Portanto, não vários modos justapostos (e não mais teorizáveis) da presença real de Cristo (modo eucarístico, modo eclesial, modo daquele que preside...), mas sim diversos polos intrínsecos à única forma orgânica de presentificação real, corpórea e não ocasional (portanto, “substancial”) do próprio Cristo crucificado ressuscitado” (p. 252)

* * *

Com esta última parte, conclui-se a resenha do texto de Zeno Carra. O autor, a meu pedido, escreveu um texto de apresentação sintética do seu pensamento, que vou publicar em diversos posts, nos próximos dias, como enriquecimento ao debate sobre a “nova teologia eucarística”.

Leia mais: