Papa Francisco: “Que vergonha! Chamaram uma bomba de mãe”

Papa Francisco (Fonte: Flickr)

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09 Mai 2017

Entre as crianças bombardeadas e degoladas, os migrantes, os trabalhadores ilegais e as mulheres vítimas da exploração, e uma Criação cada vez mais maltratada, está claro que “está crescendo entre nós uma cultura da destruição”. É a triste análise, crua e realista, realizada pelo Papa Francisco sobre a realidade de hoje, em conversa, na Aula Paulo VI, com cerca de 7.000 garotos das Escolas da Paz de toda a Itália. Esta é uma iniciativa promovida pelo Ministro da Educação Pública do país, em colaboração com a Coordenação Nacional dos Entidades Locais para a Paz e os Direitos Humanos e com o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano e Integral, da Santa Sé.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 06-05-2017. A tradução é do Cepat.

Bergoglio respondeu a estes garotos e garotas que lhe perguntaram por que há tantas guerras e tantas injustiças. A maior parte deles são adolescentes ou um pouco maiores. Acolheram o Pontífice com símbolos da paz e lhe pediram uma “selfie” de costume, mas Francisco falou com eles como se fossem adultos, para lhes abrir os olhos sobre a situação negativa do mundo de hoje. “Está crescendo, cresceu e cresce entre nós uma cultura da destruição”, denunciou o Papa, que ressaltou em particular o drama dos migrantes: “a maior tragédia após a Segunda Guerra Mundial”, segundo a análise dos sociólogos.

“Nós estamos vivendo isto - recordou o Papa Bergoglio -; o mundo está em guerra, bombardeia-se e se debaixo estão os enfermos, as crianças, isto não importa: aí vai a bomba. Em determinado momento não sei o que ocorre: se destrói muito”. Não é uma novidade: a luta fraticida “começou desde o início, com os ciúmes de Caim, que destruiu seu irmão Abel com a faca. Matou-o”. Mas, esta crueldade, explanou o Papa, parece aumentar cada vez mais: “Vemo-la na televisão, todos os dias. Hoje, vimos degolar crianças”. Francisco recordou a seus visitantes que se envergonhou profundamente quando escutou o nome que deram à Moab, a “superbomba” que há um mês foi lançada pela aeronáutica estadunidense no Afeganistão. “ Chamaram-na “a mãe” de todas as bombas. A mãe dá vida, está produz morte, e nós chamamos esse artefato de mãe. Envergonhei-me...”, confessou.

Também disse estar triste por “outro negócio com o qual o mundo lucra hoje”: a exploração das pessoas. “Crianças operárias que trabalham desde os 7, 8, 9 anos sem educação. O tráfico de pessoas em trabalhos nos quais recebem 2 liras por meia hora de trabalho”. “O tráfico de armas, de drogas, de pessoas - continuou -, de crianças e de mulheres” que são vendidas “para ser exploradas”. “Estes são negócios que ajudam o deus dinheiro a crescer. É isto que domina o mundo”, denunciou o Papa, “mas isto também acontece aqui na Europa, na Itália. Aqui, explora-se as pessoas quando são pagas ilegalmente, quanto fazem com você um contrato de trabalho de setembro a maio e, em seguida, dois meses sem trabalho, assim não há continuidade, e depois você volta a iniciar em setembro”, comentou o Pontífice. Esta também é “destruição”, e a exploração “se chama pecado mortal”.

Com dureza parecida, Bergoglio voltou a condenar o “terrorismo das fofocas”: “Aquele que está acostumado a fofocar é um terrorista”, advertiu. “A fofoca é como uma bomba que explode e mata. “Mas isto não é original, já disse muitas vezes”. Mas, por favor, um conselho a todos, se você tem vontade de fazer uma fofoca, melhor morder a língua. Sofrerá um pouco, a língua ficará inchada, mas ganhará ao não ser um terrorista”. Também, recomendou o Papa, é preciso parar de insultar e com a “ladainha das grosserias”. “É suficiente ir à rua em um momento de pico, quando o trânsito está assim, e talvez uma moto avance um pouco além ou um carro do outro lado e, imediatamente, ao invés de dizer “Perdão”, inicia-se a cadeia, a ladainha de grosserias, uma após outra. Estamos acostumados a nos insultar”, ao invés de esclarecer as coisas. “Não, insulto-o imediatamente e depois a adjetivação; não dizemos “esse jovem” ou “esse tio”, mas “esse...” boom, e o adjetivo, esses adjetivos que eu não posso dizer, mas que acredito que todos vocês conhecem muito bem”.

“Insultar é ferir, fazer uma ferida no coração do outro”, advertiu o Papa. Como exemplo, citou o recente debate na França entre os dois candidatos ao Palácio do Eliseu: Marine Le Pen e Emmanuel Macron. “Não falo como Papa, mas como uma pessoa que escutou (mas, não viu) o que aconteceu em um diálogo pré-eleitoral: onde estava o diálogo ali? Lançavam-se pedras, não se permitia que o outro terminasse, inclusive com palavras um pouco fortes. Se em um nível tão alto se chega a não dialogar, o desafio do diálogo cabe a vocês”, digo aos jovens. E os convidou a tomar “20 minutos para ler a Carta ao Apóstolo São Tiago. É pequenininha. Ele diz que o homem e a mulher que dominam a língua são perfeitos”.

Segundo Francisco, a causa de muitas destas atitudes equivocadas está na educação, que já não conduz às “virtudes da mansidão, da paz, da tranquilidade”. Por isso, insistiu na necessidade de se “voltar a fazer um pacto educativo entre a família, a escola e o Estado”, e, a esse respeito, recordou uma anedota de sua juventude: “Quando ia à escola, o professor escrevia uma nota, depois, em casa, você era repreendido... Eu estava na quarta série, tinha nove anos, e disse uma coisa feia à professora, a professora escreveu à minha mãe no caderno, porque pensou: “Se este, aos 9 anos, é capaz de me dize aquilo, o que fará aos 20?”. No dia seguinte, foi minha mãe, a professora nos deixou fazer exercícios e depois me chamou, e minha mãe, em frente à professora, repreendeu-me e disse-me que pedisse perdão à professora. Pedi-lhe perdão, a professora me deu um beijo, e voltei à sala, um pouco vencedor, “não foi tão ruim”, mas este era o primeiro ato; o segundo ato aconteceu quando voltei para casa”, disse Bergoglio, fazendo o gesto de dar uma palmada, suscitando risos e aplausos. “O que quero dizer?” - prosseguiu - “Quero dizer que havia um pacto educativo entre a família e a escola, ao passo que agora, muitas vezes, se na escola o professor ou a professora repreende os alunos, são os pais que, no dia seguinte, vão repreender a professora por esta “agressão contra meu filho”.

Não faltou espaço para estimular o cuidado com a Criação, com referência ao tema do encontro: Protejamos nossa casa. O ponto de partida foi a pergunta de uma garota que citou a Laudato Si’: “Nós estamos destruindo a Criação, o presente mais precioso que Deus nos deu”, disse o Papa, sem meias palavras. “O consumismo nos leva a isto - continuou -, à exploração da terra”. Pensemos nos experimentos químicos: “Hoje, você não pode comer uma maçã sem retirar a casca por causa dos pesticidas. E também ocorre que os médicos aconselham as mães a não dar frango aos pequenos, porque lhes criam um desequilíbrio hormonal. E as mães estão preocupadas...”. “Quantas vezes – perguntou o Papa – conheceram jovens com enfermidades raras? De onde provêm? O que acontece no Mediterrâneo, onde a quantidade de plástico é o quádruplo do máximo que pode haver? Não só estamos sujando a Criação, estamos destruindo-a”.

O Pontífice também citou os objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, a respeito dos quais uma garota, Constanza, expressou “resignação e desilusão”, posto que os “responsáveis políticos não parecem determinados” a cumpri-los. “Aqui, irrito-me eu, a resignação está proibida para nós. Devemos seguir adiante, lutar com criatividade”, recomendou o Papa. De qualquer modo, falando sobre o compromisso político, de fato, disse: “sabe o que pensei? Pensei na grande Mina (cantora italiana, n.d.r) quando cantava: “Parole, parole, parole...”.

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