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19 Mai 2016

O sociólogo alemão Ulrich Beck lembra que ser global significa que, "de agora em diante, nada do que acontece no nosso planeta é apenas um evento localmente limitado". O Papa Francisco, desde o seu primeiro dia de governo, recorda como todo episódio da história contemporânea nos diz respeito, assumindo muitas críticas, especialmente a partir de dentro da própria Igreja.

O comentário é de Giovanni Santambrogio, publicada no jornal Il Sole 24 Ore, 15-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O que perturba e confunde? Que a globalização coloca novamente em discussão um modo de pensar consolidado, esquemas de evangelização, as dinâmicas sociais e, em particular, a relação Igreja-poder.

Entrar nesses territórios envolve escolhas concretas e algumas tomadas de posição em continuidade com a tradição, e muitas outras abrindo novas frentes, muitas vezes incômodas.

O discurso sobre o dinheiro, sobre os privilégios, sobre a pobreza, sobre os refugiados, ou a encíclica sobre o ambiente ou a exortação apostólica Amoris laetitia solicitam repensamentos sobre os estilos de vida que, por sua vez, interpelam a fé, a caridade e a misericórdia.

A globalização mudou a geopolítica, a geoeconomia e o olhar sobre a realidade. Todos estão envolvidos nela, ninguém pode se sentir excluído. A Igreja, na qualidade de instituição internacional e de sujeito presente em cada âmbito social de todo o mundo, não pode se calar sobre o que acontece, nem pode pensar em se isentar de decisões contra a corrente.

E os seus pronunciamentos adquirem um peso político relevante: pense-se em Cuba, na viagem aos EUA, nos encontros com o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, e no abraço com o Patriarca de Moscou, Kirill. A globalização também acelera o diálogo ecumênico, abatendo divisões históricas.

Quanto as profundas mudanças estão entrando na elaboração teológica? Ainda pouco. E, quando elas são tomadas como tema, como fez o teólogo estadunidense Joerg Rieger, professor da Petkins School of Theology da Southern Methodist University de Dallas, a abordagem e o tratamento parecem ser frágeis e dependentes de configurações esquemáticos filhas de uma época morta.

Rieger analisa dois modelos de globalização: a "de cima para baixo" e a "de baixo". Uma é exemplificada pelo Império Romano, pela conquista espanhola da América do Sul, pelo totalitarismo (em particular, é citado o nazismo). A outra encontra em Jesus o fundador da maior alternativa que "une aqueles que são oprimidos e lhes dá esperança".

Ambas têm no centro o conceito de poder. O texto, bem longe de propor aprofundamentos sobre a natureza do poder e sobre as suas astúcias – como se encontram, em vez disso, em um clássico ainda novo em intuições, como é o livro de Romano Guardini (Il potere [O poder], Ed. Morcelliana, mas também veja-se La fine dell'epoca moderna [O fim das época moderna]) –, limita-se a levantar o tema.

Esse é o impulso mais incisivo que põe em causa o compromisso teológico para se decidir a repassar a pessoa e o testemunho de Cristo, também nas suas relações diretas com o poder romano e das elites da época, incluindo as religiosas.

Deve-se assinalar a pontual introdução Quale teologia nel tempo della globalizzazione [Qual teologia em tempos de globalização], de Rosino Gibellini, que repropõe claramente a questão teológica do "dizer Deus" hoje.