O astrônomo do Vaticano

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

18 Mai 2016

Para chegar ao escritório do Irmão jesuíta Guy Consolmagno, precisamos pegar um trem em direção ao sudeste de Roma. O local fica a uma hora da Cidade do Vaticano, num um cenário bucólico que conta com o Lago Albano e com a cidadezinha de Castel Gandolfo. Assim que descemos do trem e andamos algumas ruas, vemos uma pequena placa de bronze cujas inscrições latinas dizem: “Specola Vaticana”. Basta abrir as portas e estaremos no Observatório Vaticano: um laboratório secreto numa cratera vulcânica, simplesmente é o sonho de todo o cientista promissor.

E o Irmão Guy é um cientista, além do seu trabalho na Igreja. Natural de Detroit, ele possui dois mestrados pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT e um doutorado pela Universidade do Arizona.

A reportagem é de Fiona Zublin, publicada por Ozy, 15-05-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Num outro momento de sua vida, ele elaborou modelos computacionais teóricos de vários corpos do sistema solar: modelos que acabaram se mostrando corretos.

Mas uma crise em sua fé nesta pesquisa o mandou se juntar ao Peace Corps, agência humanitária do governo americano, e então aos jesuítas, o que o levou para o seu chamado atual: a ciência em nome de Deus. Há 23 anos, Guy trabalha no Observatório Vaticano e, no ano passado, foi nomeado como diretor.

Nos Estados Unidos, a ciência e a religião são, geralmente, entendidas como dois lados de uma Guerra Santa e, de fato, os cientistas por vezes se colocaram contra a doutrina católica: a 400 anos atrás, a Igreja condenava os ensinamentos heliocêntricos de Galileu como “formalmente hereges”.

Mas já aí era fundamental para a Igreja Católica ter cientistas em seu meio. Astrônomos criaram o calendário para Gregório, e o Vaticano ainda tem um pequeno grupo de oito ou nove cientistas jesuítas ocupados pensando e pesquisando; o financiamento destes é mais estável do que a maioria daqueles disponíveis no mundo acadêmico, em particular porque o voto de pobreza que eles proferem contribui para baixar os custos de manutenção dos mesmos.

Enquanto isso, o Papa Francisco, ele próprio um cientista formado, trouxe à tona inquietações científicas como as alterações climáticas juntamente com a sua ênfase, muito elogiada, na questão da justiça social. “Eu acho que o Papa Francisco está fazendo a diferença na forma como se percebe a ciência”, diz Celia Deane-Drummond, botânica e professora de teologia da Universidade de Notre Dame, nos EUA.

“Temos uma liberdade enorme de ir aonde acharmos ser interessante”, afirma o Irmão Guy. Embora a NASA financie uma missão espacial ou a criação de grande telescópio, pode ser difícil convencer o Congresso de financiar a pesquisa cotidiana em que a maior parte dos cientistas, de fato, se põe a trabalhar. No entanto, este trabalho de pesquisa é o que nos ajuda a interpretar os dados que uma espaçonave coleta, por exemplo.

No Vaticano, a sua pequena equipe não tem de se preocupar com a redução que o dinheiro sofrerá, muito embora o orçamento milionário em euros seja bastante pequeno quando comparado ao resto dos investimentos vaticanos. Com este um milhão de euros vem uma certa liberdade de estudar o que achamos interessante, o que conduz a uma ampla gama de tópicos: como as galáxias se aglomeram, como o universo se formou e onde pode estar o próximo exoplaneta interessante.

Pode ser difícil encontrar cientistas para trabalhar no Observatório, posto que eles devem ter dois diplomas avançados: um da academia e outro dos jesuítas.

Chris Impey, chefe do departamento astronômico da Universidade do Arizona em Tucson, onde o Observatório construiu o seu novo telescópio quando a poluição luminosa de Castel Gandolfo se tornou um problema, serviu no conselho consultivo que escolheu o novo diretor do Observatório.

Embora fosse uma pessoa agradável e possuísse um currículo repleto de pesquisas proeminentes, havia duas coisas desfavoráveis ao Irmão Guy: ele não era um padre jesuíta – ele é um irmão – e, além disso, era americano.

O Vaticano não quer que o Observatório se pareça demasiado americano, especialmente quando o seu recrutamento se centra nos países latino-americanos e asiáticos, onde o catolicismo está se edificando. Mas “é preciso escolher o melhor para a função”, diz Impey. “E ele [Guy] era o melhor para este cargo”.

Michelle Francl, química-teórica da Bryn Mawr College, conheceu o Irmão Guy num congresso promovido por Google. “Ele estava usando uma camisa que dizia: ‘Pergunte-me sobre o meu voto de silêncio’, enquanto falava alto no ônibus”, diz ela. Eles acabaram conversando sobre achar um lugar para irem à missa juntos. Na qualidade de fiel e cientista, ela percebe muitas coisas em comum entre as duas disciplinas, citando a descrição da contemplação religiosa, do teólogo jesuíta Walter Burghardt, como um “olhar demorado e amoroso sobre o real”.

Embora o Irmão Guy reconheça haver uma cultura de guerra entre a religião e a ciência, para ele não existe conflito algum. “De certa forma, os cientistas e os religiosos são os últimos a dizer: ‘EXISTE uma verdade’”, segundo ele. Ainda que tenha conhecido pessoas que acham ser preciso negar a ciência para permanecer verdadeiro à fé, Guy não vê nenhuma batalha intrínseca entre Deus e Galileu, mas apenas com alguns de seus seguidores.

Guy Consolmagno põe a religião dentro do diálogo científico de uma forma inesperada, aparecendo em eventos de ficção científica – ele é um fã de longa data que escreveu algumas histórias ficcionais terríveis não publicadas ainda – e em congressos científicos ao redor do mundo.

Mas esta não é a sua maior batalha: ele precisa lidar com grupos religiosos ligados a fundamentalistas que, segundo ele, muitas vezes temem o desconhecido, enquanto ao mesmo tempo são pessoas curiosas por novos achados. Felizmente, a astrofísica é a melhor ciência possível para isso. “A astronomia é a maior porta de entrada para a ciência”, diz ele, e qualquer um que já caminhou ao ar livre numa noite clara e tentou contar as estrelas sabe que ele está certo.