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30 Março 2016

“O hebraísmo não inventou a filosofia, como os gregos. Inventou a profecia. Para os profetas da Bíblia hebraica, Deus não é concebido mediante conceitos, nem percebido mediante o sentido da dependência ou da necessidade de afogar-se no Todo. Ele é visto na sua ação. Deus é aquele que funda a tua liberdade e te dá uma tarefa”, escreve Mauro Pesce, biblista e historiador do cristianismo, em artigo publicado por Settimana, 25-03-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.

Deus é universal, é infinito. Assim estamos habituados a pensar. Um filósofo do século dezenove dizia que diante da transcendência de Deus experimentamos o sentimento da dependência. Diante da imensidão da natureza, percebemos o sentido da nossa nulidade, ou então o desejo de uma anulação panteísta, a necessidade de imergir-se neste todo divino que nos transcende. Leopardi expressou ambas estas sensações: tanto o sentido do limite diante do infinito (a sebe que nos separa) como a atração da participação sentimental (“naufragar me é doce neste mar”). Estas sensações, normais na nossa cultura, não o são, todavia, em outras.

Radicalmente diversa é a percepção hebraica de Deus. O hebraísmo não inventou a filosofia, como os gregos. Inventou a profecia. Para os profetas da Bíblia hebraica, Deus não é concebido mediante conceitos, nem percebido mediante o sentido da dependência ou da necessidade de afogar-se no Todo. Ele é visto na sua ação. Deus é aquele que funda a tua liberdade e te dá uma tarefa. No próprio momento no qual o percebe, o profeta conhece ser por ele enviado a cumprir o seu livre dever ético. Tu não te anulas nele. Se tiveres uma percepção de Deus, é porque Deus te manda fazer algo. Jesus é um hebreu e raciocina hebraicamente. Para ele, Deus é aquele “que faz surgir o seu sol sobre os maus e sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos” (Mt 5, 45).

Desta percepção de Deus não deve brotar somente um pensamento, mas uma ação que mude a vida de modo radical. Se Deus é aquele que faz chover sobre os bons e sobre os maus, a consequência é imediatamente de caráter ético: “amar os inimigos” (“amai os vossos inimigos e orai pelos vossos perseguidores, para que sejais filhos do vosso Pai celeste”: Mt 5, 44-45). Da ação universal de Deus deriva uma ação universal do homem. A infinidade de Deus, segundo Jesus, é agida, não pensada. E isso na contradição e no particular.

Não se pode sair da individualidade da própria existência. Jesus o sabe. Por certo, aos hebreus do Primeiro Século, o hebreu Jesus anuncia que o seu Deus dominará universalmente sobre o mundo, mas a tarefa do povo de Israel é somente a de converter-se. A cada hebreu individual Jesus diz: Converte-te! E crê no meu anúncio: “o reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15). Crer em Deus não é elaborar um conceito abstrato. Deus é universal, mas para o hebreu Jesus isso não se traduz numa universalidade pensada. Deus é universal porque reinará universalmente (uma universalidade agida).

Cada hebreu deve agir a universalidade de Deus que reina, e não pensá-la. E pode realiza-la plenamente permanecendo no interior de sua singularidade: isto é, convertendo-se. Será Deus que porá em ato a própria universalidade. Esta é a mensagem que vem de Deus. Somente Deus possui a universalidade. Não há um sistema político para realizá-la humanamente. Cada um está encerrado na própria particularidade. Para dela sair e adequar-se à universalidade de Deus é preciso fazê-la agir na individualidade. Quando isto ocorre, nasce o conflito com tudo aquilo que encerra o indivíduo nos limites dos próprios interesses.

Não se pode obedecer a Deus, se se mantém o interesse pela própria família. Jesus exige, por isso, a separação do núcleo doméstico, a renúncia ao trabalho, a venda de tudo aquilo que se possui.

Jesus coloca a bomba da universalidade de Deus no interior das estruturas fundamentais da sociedade. Pensar a infinidade de Deus é para ele de todo inútil. Ela é, para Jesus, a ação de Deus que reina. Jesus insere o infinito na finitude para fazê-la explodir. Cria necessariamente, e intencionalmente, um conflito. Por isso, a mensagem de Jesus não são as suas teorias, mas a sua prática. A primeira mensagem é a prática de vida do itinerante.