4º domingo da Páscoa - Ano B - O bom Pastor doa livremente sua vida

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Por: MpvM | 20 Abril 2018

Portanto, a figura do Bom Pastor é claramente inspirada pela obra de Jesus que tem origem no amor eterno de Deus, que se manifesta na aceitação voluntária de sua vida para completar a obra da salvação na qual realiza a unidade escatológica do rebanho de que fala Ez 34 e 37.

experiência de Deus foi central e decisiva na vida de Jesus. A razão é que o Pai o conhece e ele conhece o Pai. A confiança que nasce do conhecimento do Pai o faz agir de maneira livre e inovadora: “Minha vida ninguém a tira de mim, mas eu a dou livremente. Tenho poder de dá-la e de retomá-la; esse é o mandamento que recebi do meu Pai”. Como Filho, vive continuamente identificando-se com ele e imitando seu agir. O tema do mútuo conhecimento vem sublinhado pela repetição. “O Filho conhece o Pai, o Pai conhece o Filho, o Filho conhece as ovelhas e as ovelhas o conhecem”. É Ele quem inspira sua mensagem, unifica sua intensa atividade em torno de uma experiência nuclear: Seu Deus-Pai cuida e protege a todos. Deus é o Pai de todos. É isto que Jesus quer nos dizer por meio do símbolo do Pastor. Ele com a doação livre de sua vida assume a guarda e a proteção do rebanho no qual se manifesta o amor de Deus.

A reflexão é de Tania Couto, teóloga leiga. Ela possui  Bacharelado em Teologia pelo Instituto Teológico-Pastoral do Ceará 2006), mestrado (2009) e doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro -PUC-Rio (2014). Atualmente é professora na área de bíblia da Faculdade Católica de Fortaleza e professora da área de bíblia da Escola de Pastoral Catequética. 

Referências bíblicas
1ª leitura - At 4,8-12;
Salmo - 118,1. 8-9. 21-23. 26. 28cd. 29;
2ª leitura - 1Jo 3,1-2;
Evangelho - Jo 10,11-18

Somos convidados neste quarto domingo da Páscoa a aprofundar a fé em Cristo Ressuscitado que no Evangelho fala de si mesmo, do seu relacionamento com o Pai e com seus discípulos. Através de obras e Palavras Jesus se manifesta a sua comunidade como aquele que dá a vida para reunir o povo, para que haja um só rebanho e um só pastor.

A primeira leitura (At 4,8-12) nos fala da experiência que a comunidade cristã está vivenciando ao ensinar e anunciar, em Jesus, a ressurreição dos mortos. A adesão à fé em Jesus cresce na cidade de Jerusalém nos que ouvem a Palavra e é causa de perseguição aos apóstolos que são presos e submetidos a interrogatório. A presença dinâmica e constante do Espírito, que se renova pela oração nos momentos difíceis, capacita os apóstolos para realizar sinais e confere-lhes audácia para continuar a proclamação. Pedro ao se dirigir a todo povo de Israel, às autoridades e às lideranças político-religiosas do seu tempo, desmascara a falsidade do sinédrio ao mostrar que o interrogatório foi ocasionado pelo fato de eles terem feito um benefício a um enfermo. E aproveitando-se do momento em que todos tinham os olhos fixos nele, diz: “é em nome de Jesus Cristo, o Nazareu, aquele a quem vós crucificastes, mas a quem Deus ressuscitou dos mortos, é por seu nome e nenhum outro que este homem se apresenta curado no meio de vós”. Enquanto o sinédrio condena a quem restituiu a saúde a um enfermo, a comunidade cristã anuncia que para Jesus, a vontade de Deus não é nenhum mistério: consiste em que todos cheguem a desfrutar a vida em plenitude. Jesus quer libertar a vida do mal.

E ao ouvir as vozes que ainda com força ressoavam o acontecimento pascal vivenciado pelas primeiras comunidades cristãs, Pedro fez ecoar em todo sinédrio por meio da alusão ao Salmo 118,22 o profetismo da comunidade que consistia em dar e servir a Palavra, sob o impulso do Espírito, proclamando as grandezas de Deus, e em concreto a morte e a ressurreição de Jesus. Declarando Jesus como “Pedra angular”, pôs em relevo a afirmação de que a única possibilidade que há debaixo dos céus para salvar os homens é pelo nome de Jesus, o crucificado, que foi rejeitado e é, agora, por Deus exaltado. A fé em Deus leva Jesus a ir diretamente à raiz: a defesa da vida e o auxílio às vítimas.

Na segunda leitura (1Jo 3,1-2) outra comunidade para a qual João escreve faz, também, a experiência do amor ao viver como filhos de Deus, e testemunha: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus. E nós o somos!” Este testemunho está alicerçado no conhecimento que ela tem de Deus, na vivência da justiça e do seu amor. “Pois todo aquele que pratica a justiça nasceu de Deus” (2,29). Se a comunidade cristã sofre perseguição do mundo é porque este não conheceu a Deus, pois viver como filho de Deus exige coerência com a sua vontade que se manifesta na prática da justiça e do amor e isso não agrada ao mundo. A carta exorta que o dom da filiação divina é graça, mas também implica um relacionamento mútuo: “seremos semelhantes a Ele”. Portanto, precisamos fazer o mundo conhecer o amor de Deus por meio de nosso agir como filhos amados do Pai e em união com seu Filho.

O texto do Evangelho (Jo 10,11-18) traz o tema do Bom Pastor no qual Jesus se apresenta na sua dignidade e função de Pastor: “Eu Sou o Bom Pastor”. Revelando-se, neste domingo, como o “Bom Pastor que dá a sua vida pelas suas ovelhas”, manifesta seu projeto de vida plena para todos e que se contrapõe ao projeto do pastor mercenário que foge ao ver o lobo, não se importa com suas ovelhas, deixando o rebanho dispersar-se.

A imagem do pastor e do rebanho largamente difundida no mundo religioso oriental pertence ao conjunto dos maiores símbolos do AT para expressar as relações de Deus com o seu povo. A Bíblia nasceu num povo enraizado na vida pastoril. Os patriarcas eram pastores. Deus é pastor. Deus é o pastor, o povo de Israel seu rebanho. O Sl 23 diz: “O Senhor é meu pastor” (Sl 80,2: “Tu pastor de Israel, escuta, tu que guias a José como um rebanho...”; Salmos 95,7 e 100,3: “nós somos o povo de seu pasto, o rebanho que conduz com sua mão”; Os profetas sempre que pretendem chamar a atenção do povo para o agir de Deus e para Sua relação com eles, recorrem a este tema: Is 40,12; Jr 23,3; Ez 34,12-15). Especialmente Ez 34 que serve de pano de fundo para Jo 10; o pastor futuro, messiânico. Esse texto denuncia o descaso dos pastores mercenários (34,5-6) e anuncia que Deus mesmo assumirá o pastoreio de seu povo (34,11-16).

Do AT a imagem do Pastor passa para o NT no qual a figura do Bom Pastor se funde com a de Jesus. A imagem do pastor aparece com frequência no NT, aplicada a Cristo (A ovelha perdida: Mt 18,12-13; o pastor separando as ovelhas: Mt 25,32-33; Mc 14,27: Jesus se compara ao pastor separado das ovelhas pela morte violenta). Jesus sabe que a tradição bíblica considera as relações de Deus com o povo de Israel, como as de um Pastor, esposo, libertador, mas especialmente, como as de um pai com seu filho. São imagens que falam de relações cotidianas e de intimidades que produzem conhecimento. A relação aí existente não se deve a uma condição de assalariado, mas de alguém que cuida porque ama, o que lhe importa é o bem das ovelhas e sua segurança.

A primeira característica de tal pastor consiste no oferecimento da própria vida pelas ovelhas. Não se trata somente da disponibilidade de pôr a vida em risco, mas do Dom efetivo e real da Vida. Outra característica do Bom pastor é o conhecimento recíproco entre pastor e ovelhas. O verbo conhecer aqui indica uma comunhão de vida. O conhecimento recíproco exprime uma relação profunda entre pessoas que se conhecem. O conhecimento entre Deus-Pai e Jesus representa o modelo de relações entre Jesus e os discípulos. Há uma relação profunda entre Pastor e ovelhas. Nenhum pastor diz que dá a vida por suas ovelhas e a dá em abundância e nem que as ovelhas lhe pertencem. Por sua encarnação Jesus conhece profundamente as ovelhas e elas o conhecem. É Jesus quem assume e tem em sua mão o rebanho e o chama de “meu”, minhas ovelhas.

Portanto, a figura do Bom Pastor é claramente inspirada pela obra de Jesus que tem origem no amor eterno de Deus, que se manifesta na aceitação voluntária de sua vida para completar a obra da salvação na qual realiza a unidade escatológica do rebanho de que fala Ez 34 e 37.

A experiência de Deus foi central e decisiva na vida de Jesus. A razão é que o Pai o conhece e ele conhece o Pai. A confiança que nasce do conhecimento do Pai o faz agir de maneira livre e inovadora: “Minha vida ninguém a tira de mim, mas eu a dou livremente. Tenho poder de dá-la e de retomá-la; esse é o mandamento que recebi do meu Pai”. Como Filho, vive continuamente identificando-se com ele e imitando seu agir. O tema do mútuo conhecimento vem sublinhado pela repetição. “O Filho conhece o Pai, o Pai conhece o Filho, o Filho conhece as ovelhas e as ovelhas o conhecem”. É Ele quem inspira sua mensagem, unifica sua intensa atividade em torno de uma experiência nuclear: Seu Deus-Pai cuida e protege a todos. Deus é o Pai de todos. É isto que Jesus quer nos dizer por meio do símbolo do Pastor. Ele com a doação livre de sua vida assume a guarda e a proteção do rebanho no qual se manifesta o amor de Deus.

O conhecimento de Deus e o seguimento dos fiéis discípulos está, portanto, na dependência dos verdadeiros pastores.

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