Obras primas do Canto Gregoriano – “Ad te levavi”

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Por: André | 02 Dezembro 2013

Este é o intróito do primeiro Domingo do Advento. Numa nova execução que nos é oferecida pelos Cantori Gregoriani e seu maestro.

A reportagem é de Fulvio Rampi e publicada no sítio Chiesa.it, 30-11-2013. A tradução é de AndréLanger.

 
Fonte: http://bit.ly/1aj10B3  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tradução

Ad te levavi

Para ti elevo a minha alma,
Deus meu, em ti confio. Não seja confundido,
nem de mim escarneçam os inimigos!
Não serão confundidos
os que esperam em ti.

Mostra-me os teus caminhos, Senhor,
Ensina-me tuas sendas.

Para ti elevo a minha alma...

*

Não serão confundidos
os que esperam em ti, Senhor.

Mostra-me os teus caminhos, Senhor,
Ensina-me tuas sendas.

Não serão confundidos...

(Salmo 24, 1-4)

 Escuta

 Clique aqui.

Guia para a escuta

“Ad te levavi anima meam”: este é o incipit do intróito gregoriano do primeiro Domingo do Advento e, portanto, o incipit de todo o Graduale Romanum, o livro litúrgico que reúne os cantos próprios da missa.

O grande “A” inicial, primeira letra do alfabeto, é sinal de Cristo como “Alpha” no qual tem origem e para o qual converge constantemente a longa meditação que a Igreja organiza, mediante seu canto gregoriano, ao longo de todo o ano litúrgico.

O mesmo faz o Antifonal, de uma maneira igualmente não casual, com o responsório “Aspiciens a longe”, a peça que inaugura o tempo do Advento para o repertório musical do Ofício Divino.

Poder-se-ia dizer que o canto gregoriano preocupa-se, desde o princípio, em ressaltar a coragem cristológica do seu projeto exegético-musical.

O primeiro motivo de interesse é a escolha dos textos que compõem o “proprium” desta primeira missa do ano litúrgico. Os versículos iniciais do Salmo 24, apesar de algumas variações significativas, dão corpo não apenas ao intróito, mas também ao gradual e ao ofertório da mesma missa.

Esta é a prova, aqui totalmente evidente, da intenção primeira que está na base do antigo repertório gregoriano, isto é, a capacidade de fazer ressoar o próprio texto em momentos litúrgicos diferentes e, mais concretamente, a firme decisão de obter um resultado sonoro fruto de um verdadeiro e próprio percurso da “lectio divina”. É assim que se apresenta, de fato, a sucessão dos três momentos litúrgico-musicais citados.

Na abertura da celebração, a peça procissional no estilo semi-adornado dos intróitos desenvolve, de fato, a exegese do texto com figuras pneumáticas elementares, ou seja, de poucos sons por sílaba, amplificando os valores sobre algumas sílabas importantes – por exemplo, sobre o acento em “à-nimam” durante o primeiro inciso –, mas sempre mantendo-se em uma conduta de frase, no conjunto, fluida.

A peça se apresenta, em geral, como uma grande invocação. Este caráter se resume e destaca especialmente no começo do segundo inciso textual, ali onde, com impulso e com uma linha melódica levada à extremidade aguda, a peça destaca com decisão a invocação “Deus meus”, que se converte em nota expressiva que sela toda a composição.

Mas a “lectio divina” realizada pelo canto gregoriano sobre este texto não para no intróito, mas prossegue e se eleva até uma dimensão contemplativa, sobretudo no gradual “Universi”, depois da primeira leitura.

O mesmo texto do intróito – na perspectiva da “lectio divina” – é retomado, selecionado e repensado para chegar a ser mais profundamente entendido em cada uma das suas partes. O que quase havia desaparecido mediante um estilo semi-adornado, é cristalizado por um estilo que responde a outras exigências litúrgico-musicais.

Na missa, depois da primeira leitura, quando todos estão em silêncio, sentados e, supostamente, atentos, quando não há – como, ao contrário, acontece no intróito – nenhum movimento procissional, quando a liturgia exige uma resposta digna à leitura da Palavra de Deus apenas proclamada, é aqui que se retoma o texto do intróito, mas – preste atenção – não desde o começo, mas extraindo apenas a última frase da antífona: “Universi que te exspectant non confundentur, Domine”.

Se no intróito, por exemplo, a palavra “universi” recebe uma acentuação mínima e faz parte de um movimento fluido global, no gradual esse é colcoado na primeira fila e promovido, inclusive, a incipit da peça. Mas, sobretudo, dilata enormemente seu alcance expressivo, com consumada arte retórica. O incipit do gradual quer meditar, quer “perder tempo” sobre essa palavra que detém o olhar sobre a universalidade do Advento, anunciado com abundância de som e com generosas ampliações de valor, carregados de sentido.

Por último, voltando a olhar o esquema melódico global do intróito podemos verificar facilmente – como, por outro lado, está indicado na edição vaticana – sua clara pertença ao oitavo modo, o “tetrardus plagale”, segundo a terminologia que deriva do antigo sistema musical grego.

Este é o último dos oito modos gregorianos, que resumem e marcam as possíveis e rígidas estruturas musicais de todo o repertório monódico litúrgico.

Este último modo é, na mente dos compositores anônimos e dos teóricos medievais, o símbolo da perfeição, do cumprimento, do tempo definitivo. O oitavo modo é, muitas vezes, uma alusão explícita ao oitavo dia, início da nova criação. Não é por acaso que tanto os cânticos como o triplo aleluia da vigília da Páscoa tenham esta mesma cor modal.

No início do ano litúrgico, o canto gregoriano lê em filigrana todo o mistério de Cristo e dilata a compreensão do tempo do Advento para a memória mais ampla do “Adventus Domini”, itinerário iluminado pelo acontecimento pascal, que medita tanto o mistério do nascimento de Jesus como a espera da sua vinda final.

A construção modal deste primeiro intróito é sinal deste percurso e entrevê, desde o princípio, as infinitas ressonâncias.

O mestre Rampi e seu coro

Fulvio Rampi é um especialista em canto gregoriano de fama internacional. Nasceu e vive em Cremona. Ensina canto gregoriano no Conservatório Musical “G. Verdi” de Turim. Fundou, em 1986, o coro Cantori Gregoriani, um conjunto profissional de vozes masculinas, do qual é diretor estável. Com este grupo atuou em vários países do mundo, gravou para importantes casas discográficas e efetuou numerosas gravações radiofônicas e televisivas. Em 2010, formou o Coro Sicardo, com um amplo repertório de polifonia clássica e contemporânea. Entre suas publicações destaca-se Del canto gregoriano, Rugginenti Editore, Milão, 2006.