IA e as regras que precisam ser escritas agora. Artigo de Paolo Benanti

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01 Outubro 2026

"Governar a Inteligência artificial significa impedir que esse critério se torne a gramática implícita das nossas instituições. Isso explica por que a governança é urgente e por que não pode ser reduzida a uma norma técnica", escreve Paolo Benanti, em artigo publicado por Avvenire, 29-09-2026.

Paolo Benanti é teólogo italiano e franciscano, além de professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e acadêmico da Pontifícia Academia para a Vida. Em português, é autor de Oráculos: entre ética e governança dos algoritmos (Unisinos, 2020).

Eis o artigo.

No intervalo de oito dias, ouvi a mesma palavra em dois contextos muito distintos. O primeiro foi a Dumfries House, uma casa setecentista dos irmãos Adam em Ayrshire, onde, em 17 de setembro, o Rei Charles III reuniu os líderes da Nvidia, Google DeepMind, OpenAI e Anthropic, juntamente com o Ministro britânico para a Inteligência Artificial.

O segundo foi a Sala I da UNESCO, em Paris, onde, em 25 de setembro, após uma manhã de debate com estudantes, professores e artistas sobre a encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV dirigiu-se às nações. A palavra era "harmonia": o monarca britânico evocou-a como a filosofia que busca praticar em sua propriedade há anos, lembrando que cada inovação deve ser pensada dentro dos sistemas mais amplos dos quais todos dependemos, enquanto o Pontífice utilizou-a para descrever o que nasce quando da diversidade das perspectivas se chega a uma convergência, e da convergência a uma ação comum.

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O fato de um rei e um Papa, duas autoridades que não comandam exércitos nem controlam capitais, sentirem a necessidade de pronunciar a mesma palavra diante da tecnologia mais poderosa do nosso tempo já é, por si só, um indício da fase que atravessamos. O Rei o fez com uma pergunta direta: não precisamos de meios adequados de controle antes que seja tarde demais? Acrescentou duas outras questões: como colher os benefícios da inteligência artificial colocando a segurança no centro e como construir uma cooperação internacional que não deixe nenhuma nação para trás e mantenha a humanidade em seu devido lugar. Ele chamou essa postura, com uma moderação tipicamente britânica, de "realismo esclarecido".

As palavras têm peso dependendo do contexto onde são ouvidas

Na mesma semana, alguns dos principais laboratórios haviam solicitado uma desaceleração coordenada da fronteira tecnológica, com avaliadores externos e cooperação internacional. O fato é, ao mesmo tempo, inédito e ambíguo: aqueles que lideram a corrida admitem não conseguir parar por conta própria e pedem que seja algum outro a definir o ritmo. Contudo, trata-se apenas de uma promessa, e a moderação prometidas pelos competidores é revogável, exposta ao primeiro trimestre de resultados decepcionantes ou à primeira potência que vislumbre uma vantagem na desaceleração alheia.

A mesa-redonda de Dumfries, mediada pela Fundação Ditchley, não resultou em textos nem em assinaturas, nem era esse o objetivo, em vez disso, tornou visível que a questão do controle não pode mais ficar restrita àqueles que têm interesse direto na resposta. Em Paris, Leão XIV conferiu profundidade histórica a essa intuição.

Recordando que a UNESCO nasceu das ruínas da Segunda Guerra Mundial, ele observou que a humanidade já então havia compreendido como o progresso científico dissociado da sabedoria pode se transformar em arma devastadora, e que as nações fundadoras entenderam que os tratados, embora necessários, são insuficientes se não estiverem alicerçados em uma cultura compartilhada. No mesmo discurso, o Papa apontou o paradoxo de um tempo que atribui inteligência a sistemas computacionais, mas tem dificuldade em reconhecer a dignidade das pessoas, medidas pelo critério da eficiência e descartadas quando não produzem mais.

Governar a Inteligência artificial significa, acima de tudo, impedir que esse critério se torne a gramática implícita das nossas instituições. Isso explica por que a governança é urgente e por que não pode ser reduzida a uma norma técnica. O Papa descreveu o poder que invoca a lei quando lhe convém e a ignora quando o limita: é a tentação recorrente de qualquer indústria que concentra capital e poder de cálculo em poucas mãos, tratando as regras como custos sujeitos a negociação.

As duas imagens bíblicas que ele propôs - Babel e Pentecostes - oferecem uma taxonomia política de rara precisão: de um lado, a unidade imposta pelo domínio que, no nosso caso, seria a ordem ditada por poucos atores privados a todos os outros, de outro, a unidade que permite a cada um manter sua própria língua, possibilitando, ainda assim, a compreensão mútua, e que se assemelha muito a um multilateralismo capaz de normas comuns sem apagar as diferenças.

Sob essa ótica, a governança é o processo paciente de construção de um interlocutor, que a fronteira tecnológica hoje não possui. Aqueles que desenvolvem os modelos mais poderosos dialogam com os mercados, mas raramente com alguém autorizado a dizer "não" em nome daqueles que não estão à mesa: os jovens, que o Papa pediu para proteger para que sua vulnerabilidade digital não se torne fonte de exploração; as nações que o rei teme possam ficar para trás; as gerações que herdarão as decisões tomadas neste momento decisivo.

As instituições internacionais atravessam uma crise de eficácia, como o próprio Leão reconheceu; a alternativa à sua lentidão, no entanto, é a velocidade de quem não precisa prestar contas a ninguém. Hans Jonas escreveu que um poder técnico, ao crescer além de qualquer medida, exige uma responsabilidade proporcional. Em Dumfries e em Paris, duas vozes sem divisões pediram a mesma coisa com línguas diferentes: que o poder finalmente encontre uma medida. A harmonia, seja em uma propriedade escocesa ou em uma praça de Pentecostes, nasce de um acordo entre vozes que ninguém tem o direito de silenciar. Essas regras precisam ser escritas agora, enquanto a caneta ainda está em nossas mãos.

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