Quando o cristianismo acaba. Artigo de Marcello Neri

Foto: Pexels

Mais Lidos

  • Apesar da proibição, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X pretende continuar sua peregrinação a Lourdes

    LER MAIS
  • Deportado sem aviso prévio para a Guiné Equatorial com uma grande hérnia ventral: “Ninguém assume a responsabilidade por mim”

    LER MAIS
  • Flávio Bolsonaro abandona promessa de transparência sobre Dark Horse e diz que caso é ‘privado’

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

27 Agosto 2026

O paradoxo diante do qual nos encontramos é exatamente este: o melhor cristianismo de hoje, com seu aparato pastoral e institucional, é a razão principal que freia a gênese do cristianismo por vir que está dando seus primeiros passos em nossas sociedades ocidentais.

O artigo é de Marcello Neri, teólogo e padre italiano, professor da Universidade de Flensburg, na Alemanha, publicado por Settimana News, 27-08-2026.

Eis o artigo.

Que o cristianismo termine não é um fenômeno inédito, algo que de repente se anuncia como destino de uma extinção inexorável nunca antes ocorrida. Historicamente, o cristianismo ocidental já terminou muitas vezes, algumas por substituição, outras por esgotamento interno. Teologicamente, justamente por ser um fenômeno da história humana, o cristianismo é evangelicamente chamado a extinguir-se para poder continuar a ser.

À clara percepção difundida do fim do cristianismo ocidental não parece corresponder, porém, a percepção de uma nova gênese, do lento parto de um cristianismo inédito cuja forma ainda não é possível conceber, porque continuamos a olhá-lo com as lentes do cristianismo que está desaparecendo.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

E os albores desse cristianismo por vir, que já se anuncia no ocaso de seu passado, são com demasiada frequência forçados no leito de Procusto daquele que está se despedindo de nós. Com efeitos mortíferos para a possibilidade de um cristianismo por vir. Porque o paradoxo diante do qual nos encontramos é exatamente este: o melhor cristianismo de hoje, com seu aparato pastoral e institucional, é a razão principal que freia a gênese do cristianismo por vir que está dando seus primeiros passos em nossas sociedades ocidentais.

Por outro lado, o inédito desse cristianismo, irredutível àquele que está se despedindo, busca, de algum modo, sua casa justamente nessa evanescência de si mesmo. Tornando-se, por sua vez, razão da possível transformação da gênese do cristianismo que virá no instante luctuoso de ter perdido a ocasião que se anuncia às portas da nossa fé.

Mas também esse drama, que hoje sacode nossas almas crentes, não é algo novo; antes, anuncia aquele que é o modo fundamental de ser do cristianismo dentro das vicissitudes humanas. Outros e outras crentes tiveram que se confrontar com essa situação paradoxal de uma evanescência do cristianismo que continha em si sua gênese por vir. Esses irmãos e irmãs na fé encontraram o caminho para sustentar a gênese resistindo à força centrípeta do cristianismo que ia desaparecendo, do terreno da fé que literalmente vinha a faltar sob seus pés.

Se hoje somos crentes, devemos isso a eles: à sua inteligência e sensibilidade evangélica de acompanhar a gênese cultural de uma nova estação do cristianismo. A tentação, para todos, é a de uma repetição literal do seu gesto, como se ancorar a passagem de hoje à história do que fomos fosse a única possibilidade de contrastar a evanescência de um cristianismo em vias de despedida.

Dessa forma, porém, acabaríamos por dar o golpe de misericórdia não apenas no cristianismo que vem, mas também naquilo que dele resta. Porque sair da história humana significa se condenar a perder o encontro com o Deus de Jesus, com as presenças do seu Espírito, que é a sensibilidade de Deus para o humano e suas histórias.

Não se trata de aceitar passivamente que a essência do cristianismo viva da tensão entre "fim" e "gênese"; trata-se, antes, de encontrar o modo inédito de dar forma a essa tensão no hoje de nossas sociedades ocidentais. Em todos os momentos de limiar que o cristianismo conheceu em seus dois mil anos de vida, o drama e o paradoxo de uma gênese do cristianismo por vir se decidiram em virtude de práticas do Evangelho que, ao mesmo tempo em que desarrumavam o evanescente ordenamento cristão, davam forma ao inédito cristão dentro de uma nova constelação cultural e social do humano.

Nós, cidadãos do cristianismo que termina, temos a tarefa de sermos como radiestesistas do Espírito: que reconhecem e desentocam, na cotidianidade do viver, aquelas práticas do Evangelho que se dão sem nenhuma adscrição, sem título, mas não sem nomes e histórias. Tomando cuidado, porém, nesse gesto de reconhecimento, para não as atribuirmos a nós, ao nosso cristianismo finito, mas ao próprio Evangelho.

E, sobretudo, temos a tarefa de protegê-las da força pervasiva e colonial do cristianismo que está desaparecendo, que, contanto que não precise se despedir de si mesmo, está disposto a arrastar consigo, em seu próprio fim, cada prática do Evangelho que vai gerando o cristianismo que virá.

Leia mais