Notas sobre “A Odisseia” de Christopher Nolan. Artigo de Alessandro Atanes

Cena de "A Odisseia", do renomador diretor Christopher Nolan. (Foto: Reprodução)

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28 Agosto 2026

A adaptação desprovida de luz reduz o épico homérico a um lamento político moderno, ignorando o encanto e a complexidade visual do texto original.

O artigo é de Alessandro Atanes, publicado por A Terra é Redonda, 23-08-2026.

Alessandro Atanes é jornalista e mestre em história social pela USP. Autor de Esquinas do mundo: ensaios sobre história e literatura a partir do porto de Santos.

Eis o artigo.

“Uma tradução deve levar o leitor a compreender o universo lingüístico e cultural do texto de origem ou deve transformar o texto original para torná-lo aceitável ao leitor da língua ou da cultura de destino? Em outras palavras, dada uma tradução de Homero, o tradutor deveria transformar os próprios leitores em leitores gregos dos tempos homéricos ou obrigar Homero a escrever como se fosse um autor de nossos tempos?" (Umberto Eco, Quase a mesma coisa: experiências de tradução)

Troque na epígrafe “tradução” por “adaptação cinematográfica” e repousam aí essas notas sobre o filme A Odisseia de Christopher Nolan. Escrevo sobre o filme depois das notícias sobre Ceuta, e fica muito difícil não começar esse texto relacionando os refugiados aos “povos do mar”, possíveis invasores aos quais se referem algumas das personagens do filme.

1.

A analogia entre os refugiados da realidade e os povos do mar do filme provavelmente dê razão aos que tomam como acertada a concepção do cineasta de aclimatar a história de Homero com o peso dos dias de hoje, uma Odisseia soturna, sem risos, em que ninguém come (tirando Polifemo e os companheiros de Ulisses na cena no barraco de Circe), ninguém faz amor nem sexo, ninguém canta ou chora.

Somos didaticamente informados no filme de que a civilização está sob perigo e que a Era do Bronze chega a seu final, um grande lamento na boca de um Ulisses que não maquina, apenas sofre. Será mesmo necessário que este ou qualquer outro filme ou obra de arte nos alerte sobre a esquina civilizacional que estamos prestes a dobrar? Sabemos dela, está aí logo à frente, alguns de nós não estamos nem aí, outros torcemos por um restabelecimento da ordem ou da harmonia e ainda há os que queremos que tudo se exploda. Sabemos, e nada disso se altera com o filme.

Na segunda de suas teses sobre a história, Walter Benjamin escreve que o “O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção”. Quando, na abertura do filme, Ulisses conversa com Penélope antes de embarcar para a guerra, revela que o rapto de Helena havia sido apenas um pretexto para que Agamêmnon/Batman tomasse as rotas de comércio de Troia/Hormuz. Ali, Nolan logo afasta o telespectador de qualquer relação com um “índice misterioso” daquele passado. Ele limita nossa compreensão à certeza (dele) de que uma guerra não poderia ter sido iniciada por causa de um rapto, e que mesmo naquele passado, só a ambição material poderia pô-la em andamento.

Ao projetar nossos tempos mesquinhos sobre o passado, Christopher Nolan aplasta toda uma constelação de significados, cifras, indícios, pistas de algo diferente que pudéssemos reconhecer nas dobras do presente, mas não, expande o presente hegemônico sobre o passado e bloqueia qualquer futuro.

2.

Retomo a segunda tese de Walter Benjamin como uma maldição sobre o diretor: “Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente” (Walter Benjamin, Teses sobre o conceito de história (1940).

Revi nestes dias Guerra Civil (2024), de Alex Garland. Eu achava que a aliança entre Califórnia e Texas contra o governo central tinha a função de evitar a leitura do filme entre progressistas liberais e liberais fascistas em que se divide hoje a política nos Estados Unidos para que o telespectador se centrasse na trama. Relendo a segunda tese de Walter Benjamin, aprendo que o filme escutou as vozes do passado, no qual Califórnia e Texas foram México (o México surge também em constelação em Uma batalha após a outra, mas o filme toma outro caminho).

Jeanice Ferreira me chamou a atenção para uma cena da Odisseia de Christopher Nolan em que há um indício desse olhar para o passado, a do cavalo de madeira encalhado na praia…

Cena do longa A Odisseia (2026). (Foto: Reprodução)

… que remete à da Estátua da Liberdade no filme O Planeta dos Macacos de 1968.

Cena final do filme Planeta dos Macacos (1968). (Foto: Reprodução)

Neste caso, teria sido olhar para o passado do próprio cinema e buscar nele uma nova concepção visual para o Cavalo de Troia (geralmente um barril gigante com rodas) que representasse a queda civilizacional, um pathosformel, a “fórmula do pathos” de Aby Warburg (1866-1929), “tropo visual carregado de emoção”.

3.

Um pouco da busca do ar do passado está também na insistência de Telêmaco no início do filme em buscar reconhecer em visitantes os olhos de Atena, como, por exemplo, os vimos na Pallas Athene (1898) do quadro de Gustav Klimt. Os olhos que o Telêmaco de Nolan deixou de ver.

Mas em vão. Logo ele deixa de procurar. É mais um recado de Nolan: — Não há olhos dardejantes ou faiscantes neste filme. Minha Atena é apagada como o passado, só aparece como indício de um trauma.

Palas Atena (1898), de Gustav Klimt. (Foto: Reprodução)

No filme de Christopher Nolan, o passado – e com ele suas cores e encantamento – é um refugiado impedido de desembarcar no império do presente.

Na tradução de Trajano Vieira da Odisseia publicada pela Editora 34, Helena é citada ou se manifesta 24 vezes, em 13 delas é tratada simplesmente pelo nome ou pronome, em quatro é tratada por argiva (sinônimo para grega na obra), duas vezes por divina (“filha de Deus” no original em uma delas), duas vezes pela beleza da roupa e, uma vez cada, de belos cabelos, de bela face e, enfim, de braços brancos.

São os olhos dardejantes de uma deusa que enxergam os braços brancos de Helena. Ela é vista assim por Atena, que a descreve ao dar uma bronca em Ulisses: “Mas onde foi parar tua fibra e teu furor,/ com que, por nove anos, sempre, combatias/ troianos por Helena bracibranca, de ótimo/ ancestre?…”

Quem já ao menos passou os olhos pela Ilíada ou pela Odisseia sabe muito bem que nossa “experiência cromática” não é a mesma de Homero. O sangue é negro e o mar tem cor de vinho. A cor nunca é só o pigmento, mas também o brilho e a textura, como naquelas pinturas impressionistas de um mesmo lugar que muda de cores de acordo com a luminosidade do dia ou das estações ou, em Homero, pelos olhos de uma deusa, eles mesmos glaucos (aquela cor que não é verde nem azul), exemplos dessa forma de expressão, exato oposto da Atena do filme, pálido reflexo de uma culpa.

Essa luz própria que é o tchan de Helena. É necessário algo mais além da beleza. E aí, nem Lupita Nyong’o de Odisseia nem Diane Kruger de Tróia, belíssimas, quem viu As Troianas sabe que Helena é Irene Papas.

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