Os riscos de um novo período de violência pré-eleitoral

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06 Agosto 2026

Os casos mais do que quadruplicaram nos últimos cinco anos; o uso de força e intimidação contra pessoas envolvidas no pleito se tornou frequente.

O artigo é de Renato Dornelles, jornalista, escritor, cineasta e documentarista com foco em Segurança Pública, publicado por ExtraClasse, 05-08-2026.

Eis o artigo.

A virada de semestre neste ano de eleições nacionais e estaduais chega acompanhada de muito receio em relação à violência pré-eleitoral. É algo que vem apresentando índices vertiginosos de crescimento nos últimos anos. É uma demonstração de que a discussão em torno do tema da segurança pública deve ir muito além dos debates acerca de planos, projetos, propostas e promessas, muitos dos quais de cunho meramente eleitoreiro.

Em 2022, o estudo Violência política e eleitoral no Brasil, produzido pelas organizações de direitos humanos Justiça Global e Terra de Direitos, apontou que os dois meses que antecederam as eleições daquele ano tiveram um número de episódios de violência política praticamente igual ao dos sete primeiros meses do mesmo ano.

Para essa conclusão, foi analisado o período entre 2 de setembro de 2020 e 2 de outubro de 2022, com o mapeamento de 523 casos ilustrativos de violência política, que resultaram em 482 vítimas, englobando representantes de cargos eletivos, pré-candidatos e pré-candidatas, candidatos e candidatas e agentes políticos.

Nesse mesmo período, foram registrados 54 assassinatos, 109 atentados, 151 ameaças, 94 agressões e 104 ofensas, além de 6 casos de criminalização e 5 de invasão. Em um recorte que englobe apenas o período eleitoral, até a realização do primeiro turno (de 1º de agosto a 2 de outubro), a média ficou em torno de 2 casos por dia, com o registro de 121 eventos de violência política.

Foi uma confirmação da tendência de crescimento da violência política a partir de 2019: até o ano anterior, uma pessoa era vítima deste tipo de caso a cada 8 dias. A partir de 2019, essa média caiu para dois dias. Ou seja, os casos se quadruplicaram.

As eleições municipais, realizadas há pouco menos de dois anos, também apresentaram dados alarmantes. O uso intencional de força e intimidação contra envolvidos direta ou indiretamente com o pleito teve um expressivo crescimento, segundo o Grupo de Investigação Eleitoral da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e as organizações Terra de Direitos e Justiça Global. Os dados superaram, inclusive, as eleições nacionais e estaduais de dois anos antes.

Essas manifestações envolvendo assassinatos, agressões, ameaças e constrangimentos, uma vez que dizem respeito a eleições, um dos pilares da democracia, não deixam de ser uma ameaça ao Estado Democrático de Direito. Logo, atos dessa natureza devem ser repudiados por todos que são contra práticas criminosas e também por todos os defensores da democracia.

Não há como não lembrar que, em 2018, o então candidato à presidência Jair Bolsonaro foi vítima de um atentado a faca durante um ato de campanha. Apesar disso, depois de eleito e já concorrendo à reeleição, em 2022, não foi veemente em seus discursos contra a violência no período de campanha.

Ao comentar um caso grave ocorrido em Foz do Iguaçu, no Paraná, no qual o guarda municipal e líder petista Marcelo Arruda foi assassinado por comemorar seu aniversário com motivos petistas (decoração e tema da festa), Bolsonaro criticou o que definiu como “exploração política” do caso.

O então presidente argumentou que “frequentemente era alvo de perseguição por parte da mídia, que estaria tentando associá-lo a crimes cometidos por terceiros”. Mais especificamente sobre o caso, disse que “dispensava o apoio de quem pratica a violência contra opositores” e afirmou que, por “coerência”, essas pessoas deveriam mudar de lado e apoiar a esquerda, acusando o grupo político de possuir um histórico de violência.

Ou seja, Jair Bolsonaro, em pleno exercício da presidência, se esquivou de um apelo público para que o país, em todas as suas ideologias, repudiasse a violência política. Preferiu fazer uso político, acusando adversários de práticas violentas, sem qualquer repúdio formal e oficial a quem quer que fosse.

E não podemos esquecer que a violência e as ameaças extrapolaram, inclusive, o período eleitoral. É só lembrarmos de atitudes de inconformados, como o homem que foi detido com um caminhão com explosivos nas proximidades do aeroporto de Brasília e os próprios invasores dos prédios da Praça dos Três Poderes.

Embora a tendência indique o contrário, torço por um ano diferente em 2026. Espero uma postura mais firme, desde o presidente Lula aos eleitores mais engajados, no sentido de que toda e qualquer forma de atitude de violência eleitoral seja repudiada e outros sejam desencorajados a repetirem atos desta natureza.

Que, em vez de uso político, o discurso contra a violência política seja, de fato, pacificador. Sei que isso é difícil, pois, afinal, o início no número de casos, não por mera coincidência, coincide com o período do incremento da polarização política. E com o aumento também das campanhas pelo armamento da população.

Desde lá, as redes sociais passaram a ser inundadas abertamente por ilustrações intimidatórias a pessoas com pensamentos diferentes e, por via privada, por ameaças diretas de tortura, crimes sexuais e de morte. O radicalismo está à solta e se não houver uma forte reação, o que já estava ruim tende a ficar muito pior. No combate a esse tipo de caso, é preciso também buscar os canais competentes para denunciar.

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