Em Springfield, no estado de Ohio, católicos haitianos reuniram-se em 12 de julho para uma missa em crioulo na Igreja de São Rafael, um imponente templo em estilo gótico localizado a leste do centro da cidade, cuja torre sineira ultrapassa os 40 metros de altura. A paróquia de São Rafael é a mais antiga comunidade católica de Springfield. Foi ali que, em 1886, Daniel Rudd, um homem negro norte-americano nascido na escravidão, fundou o primeiro jornal católico negro da história dos Estados Unidos, o American Catholic Tribune.
A reportagem é de John W. Miller, publicada por America, 21-07-2026.
Atualmente, não há padres haitianos em Springfield, mas o padre Fritzner Valcin viajou da vizinha Columbus para celebrar a missa. Também imigrante haitiano e hoje cidadão norte-americano naturalizado, o padre conduziu a celebração em crioulo haitiano — a língua falada cotidianamente no Haiti — enquanto um coral composto por oito cantores, um percussionista e um tecladista preenchia a ampla igreja com música, ritmo e beleza.
A leitura do Evangelho daquele dia era a Parábola do Semeador.
— Meus pais eram agricultores; é assim que compreendo a parábola do semeador, disse o padre Valcin. Jesus nos convida tanto nos tempos bons quanto nos tempos difíceis.
Entre os fiéis da comunidade haitiana presentes na missa, um menino também comemorava seu aniversário. Ao final da celebração, o padre Valcin o chamou ao altar.
— Quantos anos você tem? Sete?, perguntou.
— Oito!
— Você está feliz?
— Sim, respondeu o menino.
O padre então fez uma oração, pedindo a Deus que cuidasse da criança em seu aniversário. Seus pais, porém, enfrentam a ameaça de deportação para o Haiti e poderão ter de decidir se o filho, nascido nos Estados Unidos, deverá acompanhá-los.
Membros da comunidade haitiana de Springfield — estimada entre 12 mil e 15 mil pessoas —, assim como milhares de outros imigrantes em todo o país, vivem hoje sob a ameaça do tempo. Uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, tomada em junho, permitiu que o governo Trump levasse adiante o plano de encerrar o Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês) para haitianos e outros grupos de imigrantes.
O TPS é um mecanismo legal criado pelo Congresso norte-americano em 1990 que, desde 2010, permite que cerca de 331 mil imigrantes haitianos vivam e trabalhem legalmente nos Estados Unidos.
Confrontos violentos recentes envolvendo agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) e relatos de que o FBI deixará de investigar mortes ocorridas em confrontos com agentes federais aumentaram o temor de que as deportações se intensifiquem antes do fim do verão no hemisfério norte. Diante desse cenário, organizações católicas em todo o país têm ajudado comunidades haitianas a se preparar para o que muitos receiam ser uma campanha nacional de prisões e deportações.
A comunidade haitiana de Springfield ganhou notoriedade em 2024, durante a campanha presidencial norte-americana, quando passou a ser apresentada como um símbolo dos desafios da imigração nos Estados Unidos e se tornou alvo de uma onda de ataques e discursos de ódio nas redes sociais.
Após sucessivas prorrogações, o prazo final para a expiração do TPS dos imigrantes haitianos foi fixado em 24 de julho, obrigando milhares de pessoas e seus apoiadores a decidir rapidamente como reagir.
"Às vezes parece não haver esperança, mas estamos sempre pensando: 'Qual é o próximo passo?'", afirmou Casey Rollins, diretora-executiva da unidade de Springfield da Sociedade de São Vicente de Paulo, em entrevista concedida no escritório local da instituição beneficente em 13 de julho.
Moradora de Springfield durante toda a vida, Rollins e outros líderes católicos da cidade vêm auxiliando famílias haitianas a encontrar advogados para serem acionados em caso de detenção, providenciar passaportes para crianças nascidas em território norte-americano e tomar decisões sobre o que fazer caso precisem deixar o país.
Parte da comunidade haitiana de Springfield já decidiu aceitar a chamada "autodeportação" para o Haiti, medida incentivada pelo Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS). Outros, porém, buscam alternativas mais promissoras. Valcin informou ter conhecimento de pelo menos quatro haitianos de Springfield que se mudaram para o Canadá em meados de julho, à medida que o prazo final do TPS se aproximava.
Antes da decisão da Suprema Corte, os grupos católicos concentravam seus esforços em enfrentar desafios de longo prazo enfrentados pelos imigrantes haitianos na cidade, oferecendo aulas de inglês, capacitação profissional e instrução para obtenção da carteira de motorista. Segundo Rollins, muitos haitianos encontraram dificuldades para se adaptar às estradas e às regras de trânsito dos Estados Unidos.
No início da década de 2020, após uma onda de imigração haitiana para Springfield, alguns moradores passaram a reclamar da sobrecarga nos serviços públicos municipais. Em 2023, um imigrante haitiano colidiu contra um ônibus escolar, causando a morte de Aiden Clark, de 11 anos, e deixando outras 23 pessoas feridas. O acidente rapidamente foi explorado por grupos da extrema direita na internet.
Em agosto de 2024, integrantes de um grupo nacionalista branco marcharam pelas ruas de Springfield exigindo a expulsão dos moradores haitianos.
Pouco depois, o presidente Donald Trump e seu então companheiro de chapa, JD Vance, intensificaram a polêmica ao divulgar nas redes sociais uma teoria conspiratória segundo a qual imigrantes haitianos em Ohio estariam capturando e comendo cães e gatos de moradores da cidade. Naquele ano, dezenas de ameaças de bomba levaram ao fechamento temporário da prefeitura de Springfield e provocaram evacuações em hospitais, escolas e estabelecimentos comerciais.
"Eles estão comendo os cachorros. As pessoas que chegaram estão comendo os gatos", afirmou Trump durante um debate televisionado contra a candidata democrata Kamala Harris. "Eles estão comendo os animais de estimação das pessoas que vivem lá, e é isso que está acontecendo no nosso país. É uma vergonha."
Na sequência, Vance reforçou as alegações falsas do então presidente sobre os haitianos em Springfield e afirmou que elas mereciam ser repetidas porque serviriam a um objetivo maior.
"Se eu tiver que criar histórias para que a mídia americana finalmente preste atenção ao sofrimento do povo americano, então é isso que vou fazer", declarou Vance à emissora CNN.
Nem todos os republicanos, porém, compartilham dessa abordagem ou da avaliação negativa sobre a contribuição dos imigrantes haitianos para os Estados Unidos. O governador de Ohio, Mike DeWine, republicano e católico praticante, defendeu que os haitianos possam permanecer no estado e criticou a decisão da Suprema Corte, proferida no mês passado.
"Como resultado da decisão de hoje", afirmou DeWine em comunicado divulgado à imprensa, "mais de 10 mil haitianos que viviam legalmente em Ohio — a maioria na região de Springfield — por meio do TPS passarão agora a estar em situação migratória irregular e ficarão sujeitos à deportação imediata."
"Isso também significa que, se ontem esses haitianos estavam trabalhando e contribuindo para a nossa comunidade e para a nossa economia, hoje passou a ser ilegal empregá-los."
"O cenário no Haiti dificilmente poderia ser pior", prosseguiu o governador. "Gangues violentas controlam a maior parte do país. O governo mal consegue funcionar. E a economia está em ruínas."
Os imigrantes haitianos nos Estados Unidos receberam o TPS pela primeira vez após o terremoto que devastou o Haiti em 2010. Desde então, a medida foi sucessivamente renovada em razão da persistente instabilidade política e da grave crise de segurança que afetam o país.
Ao concluir sua manifestação, DeWine afirmou que o fim do TPS "não atende aos melhores interesses dos Estados Unidos nem de Ohio".
Springfield é uma cidade de cerca de 60 mil habitantes, localizada entre Dayton e Columbus, no estado de Ohio. Existe quase uma centena de cidades chamadas Springfield nos Estados Unidos, de modo que a cidade de Ohio não pode reivindicar ter inspirado a cidade fictícia da série Os Simpsons. Ainda assim, há algo profundamente representativo da experiência norte-americana em sua história.
Durante uma visita realizada na semana passada, encontrei uma extensa malha suburbana composta por amplos espaços abertos e bairros residenciais. Foi em Springfield que nasceu o programa agrícola juvenil 4-H, e a cidade abriga ainda uma residência projetada pelo renomado arquiteto Frank Lloyd Wright.
A primeira grande indústria instalada na cidade fabricava equipamentos agrícolas, o que rendeu a Springfield o apelido de "Champion City", em referência à fabricante local Champion Farm Equipment. Posteriormente, a empresa tornou-se a International Harvester, responsável pela produção de cortadores de grama, caminhões, reboques e diversos equipamentos agrícolas destinados a um país em plena expansão.
Como tantas outras localidades norte-americanas, Springfield também carrega um passado marcado pela intolerância racial. Nas primeiras décadas do século XX, a cidade foi palco de linchamentos e motins raciais. Multidões de homens brancos incendiaram bairros habitados por negros. Apesar desse histórico, Springfield elegeu um prefeito negro no fim da década de 1960.
Nas últimas décadas do século XX, porém, a desindustrialização atingiu duramente a cidade. As fábricas fecharam, a população caiu de mais de 80 mil para menos de 60 mil habitantes e, em 1986, a International Harvester encerrou suas atividades na região. Poucos anos depois, uma epidemia de drogas — que persiste até hoje — agravou a crise local. Cresceram os casos de suicídio, as mortes provocadas por motoristas alcoolizados e outras chamadas "mortes por desespero". Muitos dos moradores mais jovens e qualificados deixaram Springfield em busca de oportunidades.
No início da década de 2010, diante desse cenário, o governo municipal lançou um plano para revitalizar a cidade, incentivando a chegada de imigrantes. Famílias haitianas que já viviam em outras partes dos Estados Unidos começaram então a se mudar para Springfield.
A estratégia deu resultados. Os haitianos reconstruíram suas vidas em Springfield e ajudaram a impulsionar a economia local ao ocupar postos de trabalho em fábricas, frigoríficos e em um centro de distribuição da Amazon. Jovens haitianos passaram a se destacar também nas equipes de futebol das escolas da cidade.
Entre as experiências mais marcantes da visita do autor esteve uma refeição no restaurante haitiano Keket Bon Gout, instalado em um discreto centro comercial. Segundo ele, ali provou "a melhor carne de cabrito frita" de sua vida, acompanhada de banana-da-terra, arroz e feijão. Springfield possui pelo menos outro restaurante haitiano, além de diversos estabelecimentos semelhantes nas cidades vizinhas, que vêm contribuindo para diversificar a gastronomia e fortalecer a economia regional.
A maioria dos empresários e lideranças civis da cidade considera a chegada dos haitianos uma bênção para Springfield.
"A ideia de que os imigrantes estão tirando empregos dos americanos é um absurdo", afirmou Jamie McGregor, diretor-executivo da fabricante McGregor Metal, em entrevista à NPR em 2024. "Quem diz isso claramente nunca precisou pagar uma folha salarial nem administrar uma empresa."
Nem todos, entretanto, compartilham dessa visão. Integrantes do governo Trump comemoraram a decisão da Suprema Corte que pode levar à desestruturação da comunidade haitiana na cidade.
"O 'T' de TPS significa temporário. No entanto, muitas dessas designações acabaram se transformando, na prática, em uma anistia permanente", declarou James Percival, assessor jurídico do DHS. "Esta é uma vitória para o Estado de Direito e para o bom senso."
Springfield está longe de ser a única cidade onde imigrantes vivem sob o temor de ações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE). Atualmente, vivem nos Estados Unidos mais de 858 mil pessoas nascidas no Haiti, número semelhante ao de imigrantes oriundos da Jamaica. Quase dois milhões de residentes estrangeiros nasceram em Cuba.
Em diversas regiões do país — especialmente em locais com grandes comunidades haitianas, como Brooklyn, Miami, Houston e a própria Springfield — organizações católicas vêm preparando famílias para possíveis detenções e deportações.
"Nossa orientação é que as pessoas mantenham a calma e procurem representação jurídica", afirmou Sandra Dieudonne, advogada de imigração da Catholic Charities de Nova York, responsável por oficinas de preparação destinadas às famílias. "Não queremos colocá-las em uma situação ainda pior."
Segundo Dieudonne, as primeiras ondas migratórias haitianas para os Estados Unidos provocaram uma significativa fuga de cérebros do país caribenho.
"Há muitos haitianos em Nova York e na Flórida que são médicos e advogados", explicou.
Nos últimos anos, porém, a imigração haitiana passou a ser composta principalmente por trabalhadores de perfil operário, em busca de melhores oportunidades de educação e de futuro para seus filhos. A Catholic Charities USA uniu-se a outras organizações nacionais de defesa dos imigrantes para pressionar o Congresso norte-americano a prorrogar o TPS dos haitianos.
Uma das iniciativas consideradas mais urgentes consiste em garantir passaportes para crianças nascidas nos Estados Unidos, filhas de imigrantes haitianos. Outra decisão recente da Suprema Corte, também proferida em junho, reafirmou que qualquer pessoa nascida em território norte-americano possui direito à cidadania dos Estados Unidos.
"Agora é importante providenciar passaportes para essas crianças, para que possam viajar com seus pais caso isso seja necessário", explicou Casey Rollins, diretora da Sociedade de São Vicente de Paulo em Springfield.
De acordo com autoridades de saúde do condado, cerca de 1.300 crianças nasceram em Springfield de pais haitianos que chegaram recentemente ao país.
Outra frente de atuação da entidade é a capacitação de motoristas haitianos. O acidente envolvendo um ônibus escolar em 2023 não foi o único episódio de trânsito envolvendo imigrantes haitianos na região. Na mesma época, um haitiano que aprendia a dirigir acabou colidindo contra uma igreja.
"Nós gostamos muito dos haitianos, mas eles vêm de um país onde muitas leis de trânsito simplesmente não são fiscalizadas", comentou Rollins, enquanto apresentava dois modernos simuladores de direção semelhantes aos de videogames de corrida.
O padre Fritzner Valcin reconheceu que houve dificuldades iniciais de adaptação, mas acredita que o problema tende a diminuir com o tempo.
"Depois de alguns anos vivendo aqui, acho que essas preocupações diminuem bastante", concluiu.
Casey Rollins permitiu que eu acompanhasse, durante uma manhã, o trabalho dos voluntários da Sociedade de São Vicente de Paulo, que prestam assistência à comunidade haitiana de Springfield.
Entre os atendidos estava Abraham, de 35 anos, que chegou ao centro acompanhado da filha de dois anos, nascida nos Estados Unidos. Ele pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome.
Abraham trabalha no turno da meia-noite às sete da manhã, realizando a limpeza e a higienização de equipamentos industriais em um frigorífico da região — um tipo de trabalho pesado que, há décadas, costuma ser desempenhado por imigrantes nos Estados Unidos.
Naquele dia, ele buscava ajuda para alterar o endereço registrado em sua carteira de motorista. Abraham não quer deixar os Estados Unidos.
"Morei sete anos no Chile, mas aqui, na América, a vida é melhor", afirmou. "Aqui eu consigo comprar um carro."
Ele está protegido pelo TPS e também apresentou um pedido de asilo, que ainda aguarda análise pelas autoridades migratórias. Ainda assim, vive sob constante apreensão diante da possibilidade de ser detido antes que seu caso seja julgado.
"Hoje em dia eles nem sempre precisam de um motivo para prender alguém e mandá-lo de volta", disse.
A equipe da Sociedade de São Vicente de Paulo colocou Abraham em contato com um advogado que poderá ser acionado caso ele seja detido por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) ou da Patrulha de Fronteira.
Quem o auxiliava naquele momento era outro imigrante haitiano, Patrick Joseph. Durante o dia, Joseph trabalha na Sociedade de São Vicente de Paulo e, em algumas noites, complementa a renda em uma fábrica de autopeças.
Aos 51 anos, ele vive em Springfield há quase cinco anos.
Antes disso, trabalhou durante uma década no atendimento ao cliente em navios de cruzeiro. Contudo, após o assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse, em 2021, o agravamento da crise política praticamente paralisou os serviços públicos do Haiti. O país entrou em colapso administrativo, e Joseph não conseguiu renovar seu visto de trabalho marítimo.
Um amigo sugeriu que ele deixasse o Haiti e fosse para a Flórida enquanto tentava regularizar sua situação migratória nos Estados Unidos.
Mais tarde, mudou-se para Springfield, onde passou a viver na casa de um conhecido.
Ali, quinze haitianos dividiam apenas dois quartos. "Era terrível", recordou. "Liguei para minha esposa e disse: 'Essa é a situação. Acho que não vou conseguir.'"
Segundo Joseph, a resposta dela lhe deu forças para continuar. "Ela me disse: 'Você é o único que está trabalhando. Tenha paciência. Deus sabe que você nos deixou para buscar uma vida melhor.'"
Ele relembra as condições em que viveu durante os primeiros meses. "Uma casa para quinze pessoas", repetiu.
Joseph sequer possuía uma cama. Dormia em um colchão inflável. "Todos os dias era preciso enchê-lo de novo para poder deitar."
Ele permaneceu nessa situação durante cerca de seis meses, enquanto aguardava a concessão do TPS, que lhe permitiria trabalhar legalmente.
Foi justamente durante uma visita à Sociedade de São Vicente de Paulo que sua trajetória mudou. "Havia muitos haitianos tentando comprar coisas, mas ninguém conseguia se comunicar", contou. "Fiquei ali, atrás do balcão, e foi assim que Deus encontrou um lugar para mim."
Como fala inglês, Joseph começou a atuar como voluntário. Depois que a entidade providenciou toda a documentação necessária, foi contratado oficialmente.
Hoje, trabalhando no centro de atendimento, ele ouve relatos frequentes de haitianos que afirmam ter amigos detidos por agentes do ICE enquanto se dirigiam ao trabalho.
Ele teme que o mesmo aconteça com ele caso o Status de Proteção Temporária seja encerrado conforme previsto.
Joseph tem dois filhos que permanecem no Haiti. "Não quero voltar para o Haiti neste momento", afirmou. "Lá não é seguro."
Em Springfield, o medo de ser deportado para um Haiti dominado por gangues criminosas tornou-se um sentimento cada vez mais presente entre os integrantes da comunidade haitiana.
"Agora existe a possibilidade de o ICE aparecer a qualquer momento", afirmou o reverendo Viles Dorsainvil, cofundador e diretor-executivo do Haitian Support Center. Ele trabalha em estreita colaboração com as lideranças da Sociedade de São Vicente de Paulo em Springfield.
Segundo Dorsainvil, a decisão da Suprema Corte não o surpreendeu completamente.
"Mas fiquei decepcionado, porque realmente acreditava que eles decidiriam a nosso favor", disse.
Os advogados que representavam os autores da ação argumentaram que as repetidas declarações ofensivas e falsas feitas pelo governo Trump sobre os imigrantes haitianos demonstravam um viés racial que deveria ter invalidado a decisão de encerrar o TPS.
"Trump chamou o nosso país de 'buraco de merda' (shithole)", recordou Dorsainvil. "Integrantes do governo disseram coisas racistas; afirmaram que estávamos comendo gatos e cachorros."
Pastor de uma igreja protestante em Springfield, o próprio Dorsainvil também está protegido contra a deportação graças ao TPS. Agora, porém, prepara-se para o pior.
"Mas eu não fiz nada de errado", afirmou. "Por isso, não vou me esconder."
De volta à igreja de São Rafael, ao encerrar sua homilia, Valcin lembrou à comunidade haitiana que, mesmo diante da crescente incerteza, sua missão permanece a mesma.
"É responsabilidade de vocês espalhar a Palavra de Deus por toda a cidade." Após a celebração, o sacerdote comentou que a situação poderá tornar cada vez mais difícil a permanência dos haitianos nos Estados Unidos. "Podem acontecer coisas que tornem desconfortável permanecer aqui", disse.
Também nascido no Haiti, Valcin afirmou conhecer profundamente a realidade vivida por seus conterrâneos. "Eu também sou do Haiti e conheço essas histórias." Segundo ele, o país está dominado por gangues criminosas.
"O governo [dos Estados Unidos] quer que eles voltem, mas eles não têm para onde voltar."
Enquanto conversava com o padre Valcin e com Casey Rollins, um haitiano aproximou-se para pedir orientação. Sua carteira de motorista havia vencido e, com o prazo final do TPS se aproximando, ele pretendia mudar-se para mais perto do trabalho, reduzindo o risco de ser abordado por agentes do ICE durante o trajeto diário.
Rollins prontamente se ofereceu para ajudá-lo. "Você conseguirá pagar o aluguel?", perguntou. "Nós também podemos ajudar com isso."