04 Julho 2026
"O que há num nome?", perguntava-se Stephen Dedalus, personagem de Joyce no Ulysses. Dessa forma, ele interrogava o segredo da filiação e da herança.
O artigo é de Massimo Recalcati, psicanalista, publicado por La Repubblica, 21-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O que há no nome de Lucian Freud, um dos pintores mais célebres do século passado, é o tema explorado pelo psiquiatra e psicanalista napolitano Gaetano Romagnuolo em seu recente livro, Lucian Freud: Il corpo e il segno (Lucian Freud: o corpo e o signo), publicado pela editora Castelvecchi. De fato, não se pode ignorar a genealogia que liga o grande pintor à figura de seu famoso avô, a única figura da família que ele realmente amou e respeitou. Estamos diante de dois impressionantes outsiders. Sigmund abalou os fundamentos da razão filosófica ocidental clássica, forçando-a a uma subversão radical. Judeu marginalizado pelas universidades e pelo meio acadêmico, ele infligiu uma ferida incurável ao narcisismo humano ao demonstrar que o "Eu não é sequer senhor em sua própria casa".
Seu neto Lucian foi outro outsider: judeu alemão; um Don Juan impenitente que humilhava e negligenciava suas presas em uma sociedade ainda moralista; um pai negligente com seus próprios filhos; um filho rebelde e neto sacrílego, um pintor figurativo em uma época em que a pintura parecia dominada pela abstração. Um ponto de pesquisa liga esses dois grandes outsiders: o corpo humano. Embora o neto nunca tenha se interessado pela psicanálise, é importante notar que sua obra pictórica herda a centralidade que a ciência inventada por seu avô atribui ao corpo. Em sua obra, Lucian fez da representação dos corpos - principalmente aqueles humanos, mas também aqueles animais e vegetais - o núcleo exclusivo de sua visão poética.
Antes dele, na segunda metade do século XIX, foi Sigmund quem conseguiu extrair, do corpo histérico, a ideia inédita de que o corpo poderia ser tratado como o equivalente a um discurso ou a uma cena teatral.
De fato, a origem da psicanálise reside nesse passo fundamental de seu fundador: o corpo não é apenas um conjunto anatômico de órgãos; ele fala, expressa significado, possui uma ordem de sentido, é um laboratório de mensagens.
Da mesma forma, o corpo ao qual a obra de Lucian Freud se dedica não é mais o "corpo-máscara" ou o "corpo-teatro" das histéricas analisadas por Sigmund. Trata-se, em vez disso, de um corpo que não fala, que não pode ser reconduzido a um discurso, pois se apresenta primordialmente como uma massa informe de carne. Isso marca um ponto de ruptura radical, não apenas entre os dois Freud, mas também entre a retratística de Lucian e aquela que se consolidou na pintura mais tradicional. É uma das teses centrais desenvolvidos por Romagnuolo. Se esta última entendeu o retrato como uma forma de mascarar a natureza informe do corpo, de seu lado Lucian Freud trabalha para desmantelar justamente essa mesma máscara, revelando o que o corpo é para além ou aquém de sua forma representável. Trata-se, como escreve o autor, de uma operação de "dessacralização" da imagem narcísica do corpo, visando desvelar sua realidade mais nua: "o corpo feito de carne e vísceras, sem o parêntese de um discurso que o possa enquadrar em um contexto de sentido"; o corpo reduzido a "detrito, montanha de gordura e músculos, amontoado de ossos, corpo deflorado, deposto, despencado no chão, encolhido como um cão"; o corpo sem imagem, sem espelho possível, exposto em sua sexualidade sem erotismo e em seu completo abandono.
Nesse sentido, a presença do corpo não dá origem a nenhuma celebração monumental, mas torna-se um puro objeto de angústia. A alma dissolve-se na carne, sem deixar rastro de sua espiritualidade. Todo simbolismo também é zerado. Disso, como frisa Romagnuolo, a importância mais da pele do que da alma, fazendo de Lucian Freud um "pintor da epiderme". É um realismo subjacente (antimetafórico) que caracteriza suas pinturas. Nesse aspecto, a trajetória pictórica de Lucian Freud não podia deixar de cruzar não apenas aquela de Auerbach, mas também com aquela do grande Francis Bacon. Comparação rigorosa à qual o livro dedica algumas de suas páginas mais intensas.
Contudo, nenhum retrato do corpo pode jamais conseguir capturar plenamente o seu mistério. Nenhum retrato pode pretender solidificar uma identidade que é sempre esquiva e que jamais pode ser representada. Qualquer tentativa de o sujeito coincidir com a sua própria imagem transforma-se em uma espécie de expropriação contínua. É o que também ocorre, embora seguindo uma linha irônica diametralmente oposta àquela freudiana, nos autorretratos de De Chirico, que desmontam sistematicamente qualquer forma de autoglorificação justamente no ponto em que a amplificam de maneira deliberadamente farsesca.
"Quero me retratar até à morte", declarava Lucian Freud a um amigo, já no fim da vida. Ele buscava levar sua pintura aos limites extremos da representação. Quando em primeiro plano, como escreve Romagnuolo, não havia "um jovem guerreiro ou uma divindade, mas sua paródia irônica e grotesca: um velho sátiro nu, com veias saltadas, pele flácida e pênis caído". Não se tratava apenas de concluir um autorretrato, mas de levar a termo - sem concessões – o retrato lúcido daquilo que constitui o próprio húmus humano.
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