03 Julho 2026
O autoempreendedorismo está em plena expansão na China. Apoiados por uma infinidade de ferramentas de inteligência artificial, os “empreendedores individuais” estão lançando seus próprios negócios com custo mínimo e sem trabalhadores. Essa tendência mascara um medo agora generalizado de se tornarem obsoletos diante da automação do trabalho.
A reportagem é de Emilie Echaroux, publicada por Usbek & Rica, 01-07-2026. A tradução é do Cepat.
Existe o Wang Zixiang e seu gerador de resumos de podcasts, o Ying Junjiu e seu aplicativo de produtividade desenvolvido para funcionários viciados em seus celulares, ou o Li Xinyu e seu negócio online de venda de computadores concertados… A imprensa chinesa está repleta de histórias de autoempreendedores que aproveitaram a ascensão da IA para lançar seus microempreendimentos com custo mínimo – e sem contratar um único trabalhador.
Segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, a “era do empreendedorismo individual” chegou, impulsionada pelos millennials do final da geração e pelo início da geração Z – nascidos entre 1990 e 2000 – que utilizam cada vez mais ferramentas de inteligência artificial como OpenClaw, DeepSeek ou seu equivalente californiano, o ChatGPT, para lidar com programação, direção de arte, lançamentos de produtos e comunicação de seus negócios incipientes.
De acordo com um relatório da Associação de Talentos de Zhongguancun, com sede em Pequim, o número de empresas individuais aumentou 47% em um único ano, chegando a 16 milhões em junho de 2025, o que representa mais de um quarto de todas as empresas do país. Para algumas dessas microempresas, a inteligência artificial tornou-se um componente essencial, permitindo que elas realizem tarefas que antes exigiriam uma equipe inteira. “Em vez de substituir seres humanos (os agentes de IA) são, na verdade, funcionários de empreendedores individuais”, disse Kuo Zhang, presidente do Alibaba.com, ao Business Insider, estimando que de 30% a 40% dos clientes da plataforma sejam agora microempreendedores.
Percebendo uma oportunidade lucrativa, o marketplace chinês (que conecta compradores e fornecedores) lançou o Accio Work, um agente de IA projetado para automatizar as operações diárias de pequenas empresas, desde o atendimento ao cliente e a logística até a contabilidade. Implementada no final de 2024, a ferramenta agora conta com 10 milhões de usuários ativos por mês.
A estratégia “AI Plus” da China
A imprensa chinesa atribui esse boom de “empreendedores individuais” em parte à chegada explosiva do OpenClaw no final de 2025 – um agente autônomo que se tornou tão popular que acabou preocupando o Partido Comunista Chinês, que restringiu seu uso em empresas estatais e agências governamentais. Mas é principalmente resultado de uma abordagem estatal pronunciada. Já em 2014, Pequim lançou seu programa de “empreendedorismo em massa” para estimular a inovação na era da internet, financiando generosamente novos negócios e subsidiando espaços de trabalho.
Uma década depois, as comunidades locais estão assumindo o controle, fornecendo aos novos empreendedores apartamentos gratuitos e espaços de coworking a preços drasticamente reduzidos.
Em Xangai, o distrito de Pudong oferece cobertura de até 300.000 yuans (o equivalente a € 38.000) em custos de TI para startups. Em Hangzhou, um plano de ação visa apoiar essas empresas durante todo o seu ciclo de vida, do registro ao financiamento. A cidade de Suzhou, por sua vez, promete fomentar o surgimento de 1.000 empresas individuais até 2028.
“A China é como um enorme Vale do Silício – resume Lin Zhang, professor associado da Universidade de New Hampshire e especialista em economia digital chinesa, em entrevista ao portal de notícias online Rest of World. Quando uma nova tecnologia surge, todo o sistema burocrático é mobilizado para desenvolvê-la”. Isso levou à atração de perfis inesperados: entre as 624 comunidades de empreendedores individuais identificadas pela plataforma OPCquan em 79 cidades chinesas, 75% dos fundadores vêm de áreas não técnicas (ou seja, fora das áreas de engenharia, ciência de dados e TI).
Mas isso pode ser menos resultado de uma pressão política frenética do que um sinal de uma estratégia de adaptação empregada por trabalhadores que sabem – ou sentem – que seus empregos estão sendo automatizados. Desde que Pequim lançou sua iniciativa “AI Plus”, que visa uma taxa de adoção de inteligência artificial de 70% em vários setores-chave (indústria, cultura, agricultura, serviços, etc.) até 2027 e, em seguida, 90% até 2030, os trabalhadores têm adotado rapidamente ferramentas de IA. Eles têm pouca escolha, visto que 9,6% de todos os empregos chineses – aproximadamente 70 milhões – correm um grande risco de serem eliminados devido à IA, de acordo com um relatório do Citibank. Uma taxa que chega a 13,6% para trabalhadores na faixa dos 20 anos, que estão entre os primeiros a optar pelo autoempreendedorismo…
Bolha econômica
Mas será que essa estratégia de trabalhar por conta própria está realmente compensando para os empregadodos que sofrem de FOBO (ou seja, o medo de se tornarem obsoletos)? Está longe de ser certo. Nas páginas do jornal China Daily, pertencente ao Departamento Central de Propaganda do Partido Comunista Chinês, fala-se abertamente sobre o risco de uma bolha econômica, visto que a criação de microempresas exige habilidades e recursos que nem mesmo uma superinteligência artificial pode fornecer (como manter uma conexão com a comunidade online para promover os produtos).
Segundo informações do portal de notícias financeiras Caixin, divulgadas pelo jornal chinês China Daily, quatro em cada dez empresas individuais fecham as portas devido a dificuldades em conquistar clientes. Ainda mais preocupante, 40% dos fundadores supostamente mantêm a ilusão de um negócio próspero, apesar de um modelo de negócios precário. “Os empreendedores enfrentam forte concorrência de seus pares em todos os aspectos de seus produtos, principalmente em termos de preço, qualidade e serviço pós-venda, explicou Yan Zhenqiang, diretor de operações da SegMaker, ao China Daily. Problemas na cadeia de suprimentos, dificuldades em encontrar fornecedores confiáveis e restrições de financiamento continuam sendo os principais pontos fracos [das empresas individuais] em suas operações diárias”.
Vamos, pois, nos encontrar novamente daqui a alguns anos para fazer um balanço deste período que, segundo o He Jiaying (investidor da empresa Volcanics Ventures, com sede em Xangai), dará origem a uma nova categoria de “superindivíduos (...) mais determinados do que as gerações anteriores, visto que o sucesso depende inteiramente de sua criatividade e capacidade de execução”. Esperemos que essa geração de indivíduos excepcionais não se esgote antes disso... caso contrário, podem acabar se transformando em pássaros.
Leia mais
- A China retoma a liderança mundial em supercomputação e destrona os EUA em meio à corrida tecnológica
- China. Uma visão de baixo para cima do mundo do trabalho. Artigo de Andrea Ferrario
- O fosso social na China tecnológica. 'A inteligência artificial não é, de fato, artificial e nem mesmo inteligente'. Entrevista especial com Jack Qiu
- “Muitos empregados de fábrica na China não veem sua vida ter um futuro para além da linha de montagem”. Entrevista com Pak Kin Wan
- DeepSeek, China e IA: Um desafio geopolítico. Artigo de Cecília Rikap
- “Ainda há muito a ser revelado sobre a IA que está sendo desenvolvida pela China e pelos EUA.” Entrevista com Ángel Gómez de Ágreda
- China, o Partido contra os videogames: permitidas apenas três horas semanais
- Na China, a ‘rebelião’ contra os “9.9-6”: trabalho das 9h às 21h, seis dias por semana
- Assim o capitalismo chinês explora. Entrevista com Jenny Chan
- China. A máquina é seu amo e senhor
- As exportações da China superam o PIB brasileiro. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
- Made in China: uma questão de classe
- China, nova potência mundial – Contradições e lógicas que vêm transformando o país. Revista IHU On-Line, Nº. 528
- A “nova informalização” e a perversidade da plataformização do trabalho. Entrevista especial com Ruy Braga