13 Agosto 2026
A transição do PT catarinense entre 2002 e 2006 revela como o isolamento estratégico e a desarticulação de alianças converteram uma força eleitoral emergente em oposição periférica
O artigo é de Camilo Buss Araujo, professor de história na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), publicado por A Terra é Redonda, 30-06-2026.
A primeira parte do artigo pode ser lida aqui.
Eis o artigo.
Florianópolis, janeiro de 2003. Assim que tomou posse, o governador eleito de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira (PMDB), buscou o apoio petista para firmar a aliança PT-PMDB, que lhe dera a vitória em 2002, e isolar as forças políticas herdeiras da ditadura (PPB e PFL), que juntas somavam 18 das 40 cadeiras da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc).
A “Onda Lula” projetara o PT à condição de segunda maior bancada da Alesc com nove deputados. Esse capital político tornou o apoio petista indispensável para a estabilidade do novo governo, resultando em um pacto inicial que conduziu Volney Morastoni (PT) à presidência da Casa em 2003.
Ao mesmo tempo, a mudança nos governos federal e estadual abriu espaço para uma atuação conjunta em torno de uma pauta estratégica: a campanha contra a privatização do Banco do Estado de Santa Catarina (BESC). No início de 2003, o presidente do BESC, Eurides Mescolotto (PT), percorreu os corredores de Brasília junto com o diretor de Relações Institucionais do banco, Nelson Wedekin, quadro histórico do PMDB.
Somados ao governador Luiz Henrique, atuaram politicamente para impedir a privatização da instituição, federalizada durante o governo Fernando Henrique Cardoso e incluída na agenda de desestatizações. A convergência programática pontual na defesa do BESC não evitou o distanciamento entre o PT e o governo estadual na Assembleia Legislativa, onde a bancada petista consolidou uma postura de oposição sistemática a partir de 2004.
PT de Santa Catarina rompe com o PMDB
Em novembro de 2004, o diretório estadual do PT decidiu que faria oposição ao governo do PMDB em Santa Catarina. Luiz Henrique, que mantinha boa interlocução tanto com Lula quanto com o setor do PT catarinense ligado ao Campo Majoritário, lamentou a decisão, mas procurou enfatizar que ela não alteraria sua disposição de colaborar com o governo federal nem sua compreensão da importância estratégica da aliança entre PMDB e PT no plano nacional:
“A decisão do diretório estadual do PT não muda em nada minha opinião a respeito do apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que ele possa ter governabilidade. Como o PMDB, no Congresso Nacional, é fundamental para que o governo aprove as reformas que precisam ser feitas e implemente seus projetos administrativos, eu peço tranquilidade aos companheiros do PMDB. (…) Nós todos precisamos olhar a floresta, e não somente a árvore que está na frente dos nossos olhos” [i].
No xadrez da política nacional, a decisão do PT estadual complicava a dinâmica de apoio ao governo federal. Isso porque a estratégia construída pela direção nacional petista dependia precisamente da ampliação de alianças com setores do PMDB nos estados, de modo a consolidar uma base parlamentar capaz de sustentar o governo Lula no Congresso Nacional. No vizinho Rio Grande do Sul, as relações entre o governador eleito Germano Rigotto (PMDB) e o PT eram muito mais tensas, visto que, ao contrário do que acontecera em Santa Catarina, o PMDB vencera o segundo turno contra o candidato petista, Tarso Genro.
Nesse contexto, a manutenção de uma relação cooperativa entre Luiz Henrique e o governo federal assumia importância que ultrapassava os limites da política catarinense. Diante das decisões do PT de Santa Catarina, aumentava a pressão do PMDB gaúcho para que Luiz Henrique deixasse de defender o apoio ao governo Lula e passasse a adotar, também em âmbito nacional, uma postura de maior autonomia em relação ao Palácio do Planalto.
Na prática, a decisão consolidava o alinhamento do PT ao campo oposicionista na Assembleia Legislativa, afastando-o definitivamente do PMDB. A mudança de posicionamento do partido pode ser observada empiricamente na análise realizada por Carreirão sobre o comportamento das bancadas na Alesc:
“Em 2003, realmente, o PT não fez uma oposição ferrenha ao governo e, na grande maioria dos casos, votou junto com a base do governo (índices de semelhança de 72% com PMDB e PSDB). A partir de 2004, porém, o partido passou a fazer oposição clara a Luiz Henrique, o que se refletiu, em termos de comportamento em plenário, na queda dos índices de semelhança com PMDB (para 30%) e PSDB (para 35%) e na aproximação com o PP (índice de 62,2%, quando em 2003 havia sido de apenas 34,5%). Nos anos seguintes (especialmente em 2005) afastou ainda mais da base governista, mantendo comportamento mais próximo ao do PP” [ii].
Em síntese, entre 2004 e o final do primeiro mandato de Luiz Henrique, a estratégia que prevaleceu no diretório petista catarinense levou sua bancada de nove deputados a ocupar um espaço de oposição sistemática ao governo estadual. Esse posicionamento aproximou o comportamento legislativo do PT ao do PP, principal força oposicionista da Assembleia.
Mais que um alinhamento circunstancial no legislativo, esse rearranjo evidenciava os efeitos concretos das estratégias políticas adotadas pelo PT no estado. Quando Lula precisou buscar a reeleição em 2006, sob forte desgaste provocado pela crise do chamado “mensalão”, a aliança PT-PMDB, que emergira vitoriosa em Santa Catarina após a eleição de 2002, não existia mais.
Em 2005, auge da oposição petista na Alesc, iniciaram-se as articulações para a sucessão estadual. Novamente, operou-se uma tensão entre as orientações da direção nacional do PT e a direção estadual. Os catarinenses defendiam a candidatura própria enquanto o comando nacional defendia alianças estaduais para garantir palanques fortes para a reeleição de Lula.
Na imprensa, interlocutores do Campo Majoritário afirmavam que a prioridade do comando nacional do PT era garantir o apoio do PMDB, de modo a construir um bloco de apoio a Lula e isolar politicamente os principais partidos de oposição, PSDB e PFL. Para isso, as coligações com o PMDB nos estados deveriam ser priorizadas. Lula teria afirmado inclusive que refutaria candidaturas próprias do PT em Santa Catarina e no Paraná, visto que tinha boas relações com os dois governadores do PMDB, Luiz Henrique e Roberto Requião.
No entanto, o grupo político hegemônico no PT de Santa Catarina queria a candidatura própria de José Fritsch. Em entrevista à Folha de S. Paulo, José Fritsch descartou “qualquer hipótese de aliança com o governador de Santa Catarina” e reivindicou a “naturalidade” de sua candidatura própria, ancorando-a no expressivo desempenho de 2002: “Tive 28% dos votos em 2002. No PT, meu nome é colocado como natural. É o que digo: sempre fui candidato para o que o partido achou melhor. E gosto muito de uma eleição” [iii].
A contragosto do diretório nacional, tanto Paraná quanto Santa Catarina optaram por candidaturas próprias do PT, com Flávio Arns e José Fritsch. Sem o apoio do PT, o PMDB catarinense definiu, no final de junho de 2006, sua composição para a disputa de outubro: formalizou a aliança com o PSDB, indicando o senador Leonel Pavan para vice de Luiz Henrique.
Segundo a ex-senadora Ideli Salvatti, logo após a eleição de 2002, Luiz Henrique teria procurado dirigentes do PT estadual e oferecido a mesma composição construída posteriormente com o PSDB: cargos no primeiro escalão do governo do estado, formação de um bloco de apoio ao governo na Alesc com o PT, indicação do vice petista para a candidatura à reeleição em 2006 e a promessa de apoiar um candidato do PT ao governo do estado em 2010. A busca de Luiz Henrique pelo apoio do PT não era apenas um reconhecimento pelo papel decisivo da “Onda Lula” em sua vitória, mas fundamental para sua governabilidade na Assembleia Legislativa.
Ter o apoio da bancada do PT, que possuía nove deputados (22,5%) era fundamental para isolar a oposição e construir um bloco de sustentação ao executivo estadual. Era uma necessidade política estratégica: consolidar uma maioria parlamentar e aproximar-se do governo federal.
Para o comando nacional e para uma parte minoritária do PT em Santa Catarina, aliar-se com o PMDB também era uma oportunidade de formar um “bloco histórico” de sustentação do governo Lula e acumular forças para construir uma hegemonia de centro-esquerda no estado. Com o PT enveredando para a oposição, coube ao governador mexer as peças do tabuleiro político catarinense.
Luiz Henrique, ao perder o apoio petista, chamou para o governo o PFL de Jorge Bornhausen, de modo a garantir o apoio de seus oito deputados. Adversários históricos, Luiz Henrique e Jorge Bornhausen aliaram-se com objetivos distintos: o primeiro precisava de governabilidade, enquanto o segundo vislumbrava ao menos manter o espaço do PFL após as derrotas nas eleições estaduais e nacionais de 2002. Formava-se assim a chamada “tríplice aliança” (PMDB-PSDB-PFL).
Ingenuamente ou não, parte da imprensa e da própria militância de esquerda endossou a ideia de que a aliança era um ato de desagravo ao PT, que teria chamado Jorge Bornhausen de nazista por usar a expressão “vamos nos ver livre dessa raça durante pelo menos 30 anos” [iv]. A versão contribuiu para que a militância de ambos os partidos, PMDB e PFL, compreendesse a incoerente aproximação enquanto reação a um adversário comum, o PT. Paralelamente, obscurecia o papel do próprio PT nesse processo, eximindo suas lideranças regionais da responsabilidade pelo autoisolamento.
Em uma eleição marcada pelas repercussões do chamado “mensalão” e pela intensa associação do partido aos escândalos de corrupção, restou ao PT defender seu projeto de governo, materializado na reeleição de Lula, praticamente sem outros apoios. Como consequência adicional, a coligação liderada por Luiz Henrique oferecia um palanque robusto ao candidato presidencial do PSDB, Geraldo Alckmin, adversário de Lula na disputa nacional de 2006. Ironicamente, Alckmin iniciou sua campanha para presidente onde Lula terminara na eleição de 2002: um comício em Florianópolis ao lado de Luiz Henrique.
Se dependesse dos catarinenses, Geraldo Alckmin teria sido eleito presidente em primeiro turno em 2006. Obteve 56,6% dos votos válidos, contra 33,2% de Lula. O contraste com o pleito anterior é eloquente: quatro anos antes, o candidato petista havia alcançado exatamente 56,6% dos votos válidos no primeiro turno em Santa Catarina, o maior percentual registrado entre todos os estados brasileiros.
Para o governo estadual, Luiz Henrique conquistou 48,9% dos votos válidos e quase encerrou a disputa no primeiro turno. Esperidião Amin obteve 32,8%, enquanto o petista José Fritsch ficou com 14,3%. Em 2006, Luiz Henrique e Esperidião Amin voltariam a disputar o segundo turno. Diferentemente do que ocorrera em 2002, porém, as estratégias adotadas pelos partidos ao longo do quadriênio haviam produzido a reconfiguração dos palanques estaduais, invertendo alianças que, poucos anos antes, pareciam improváveis.
As pesquisas de intenção de voto para o segundo turno indicavam vantagem ao governador Luiz Henrique. Diante desse cenário, Esperidião Amin buscou ampliar seu campo de apoio e declarou publicamente que apoiaria a candidatura de Lula à Presidência da República. A declaração produziu uma configuração política que poucos anos antes pareceria inviável.
Ao fazer campanha para Esperidião Amin no segundo turno ao lado do ruralista Hugo Biehl, do PP, a deputada petista Luci Choinacki sintetizou a excepcionalidade daquela aliança: “Estamos juntos só na campanha”. Os resultados do segundo turno confirmaram o favoritismo de Luiz Henrique, reeleito com 52,7% dos votos válidos, contra 47,3% de Amin. Para a Presidência da República, embora Geraldo Alckmin tenha reduzido sua votação em relação ao primeiro turno, permaneceu à frente de Lula em Santa Catarina, obtendo 54,5% dos votos válidos contra 45,5% do candidato petista.
Quatro anos depois de registrar o melhor desempenho proporcional de Lula no país, Santa Catarina passava a figurar entre os estados em que o candidato do PSDB obtinha uma de suas mais expressivas vitórias, evidenciando a profundidade das transformações ocorridas na configuração política estadual entre 2002 e 2006.
A composição política construída por Luiz Henrique, denominada “tríplice aliança” (PMDB-PSDB-PFL), prevaleceria nas eleições seguintes, mantendo tanto a família Amin quanto o PT catarinense nas fileiras da oposição. O desempenho excepcional alcançado pelo partido na chamada “Onda Lula” de 2002 não voltaria a se repetir. Nas duas décadas seguintes, novos processos – entre eles a Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a crescente polarização política nacional e a ascensão da extrema direita em âmbito global – reconfigurariam novamente o cenário eleitoral de Santa Catarina.
Considerações finais:
A história política de Santa Catarina é muito mais complexa do que o enredo construído pela deputada Júlia Zanatta e citado no início desse texto. O estado não “deu uma única chance” ao PT para depois voltar ao que “sempre foi”. É verdade que Santa Catarina possui uma longa tradição de forças conservadoras e de estruturas oligárquicas profundamente enraizadas.
Mas seu percurso político também registra momentos de expansão das organizações populares, de crescimento eleitoral da esquerda e de construção de alternativas capazes de desafiar esse domínio. Os anos 1990 e, sobretudo, o ciclo aberto pelas eleições de 2002 demonstraram que a consolidação de um campo progressista competitivo estava longe de ser uma hipótese fantasiosa. A perda desse espaço nas eleições subsequentes, justamente em um período em que o PT ampliava sua presença institucional em grande parte do país, convida a uma investigação que ultrapassa explicações essencialistas sobre um suposto “DNA conservador” catarinense.
A análise das movimentações políticas na primeira década dos anos 2000 demonstrou que havia interpretações concorrentes sobre os caminhos de fortalecimento do partido e de expansão do campo progressista. O isolamento progressivo do PT catarinense não pode ser analisado apenas como consequência de movimentos externos ao próprio partido.
Essa interpretação tende a conferir menor peso às escolhas políticas realizadas por suas lideranças e a obscurecer o fato de que, entre os próprios petistas catarinenses, havia divergências importantes sobre as estratégias mais adequadas para disputar a hegemonia política e ampliar sua inserção institucional. Se há uma lição que emerge desse percurso, talvez seja a de que os resultados políticos nunca decorrem de uma marcha inevitável dos acontecimentos.
Portanto, se determinadas escolhas contribuíram para o refluxo da esquerda e para a posterior ascensão da direita radical, nada impede que novas escolhas, novas alianças e novas formas de mobilização social possam alterar novamente a correlação de forças no estado. A história de Santa Catarina sugere que nenhum ciclo político é definitivo e que o horizonte permanece aberto para projetos fundados na ampliação da democracia, da igualdade e da solidariedade.
Notas
[i] Folha de S. Paulo. Governador de SC diz que apoio a Lula permanece. Folha Online, São Paulo, 29 nov. 2004. Disponível aqui.
[ii] CARREIRÃO, Yan de Souza; PERONDI, Eduardo. Disciplina e coalizões partidárias na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (1999-2006). Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 24, n. 71, p. 121-141, out. 2009. Disponível aqui.
[iii] Folha de S. Paulo. Candidaturas de ministros arriscam alianças. São Paulo, 24 abr. 2005. Disponível aqui.
[iv] LO PRETE, Renata. Folha de S. Paulo, 26 jun. 2006. Disponível aqui.
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