24 Junho 2026
A crise socioambiental e a urgência de construir alternativas estiveram no centro das reflexões da 23ª Jornada de Agroecologia, no Paraná. Em uma das mesas de debate, Leonardo Boff, João Pedro Stédile e Camila Girardi Fachin ofereceram uma leitura crítica da realidade contemporânea, evidenciando os limites do capitalismo e apontando a solidariedade como fundamento ético e político para a construção de uma nova sociedade.
A reportagem é de Fernan Silva, da equipe do Cepat, com informações do Jornal Brasil de Fato Paraná.
Antes do debate, a programação teve início com o “Concerto pela Paz”, apresentado pela Orquestra Popular Camponesa. O projeto de iniciação musical reuniu cerca de 40 crianças e jovens Sem Terra, com idades entre 9 e 18 anos, oriundos de acampamentos e assentamentos do MST no Paraná. O repertório mesclou clássicos como a Ode à Alegria, de Beethoven, com canções latino-americanas como "Venezuela" e "El Derecho de Vivir en Paz", além do coral "Luar do Sertão".
Para Igor de Nadai, coordenador do projeto, a iniciativa reafirma o direito universal à música e sua importância em processos comunitários transformadores. “Todas as crianças têm direito à música, ao ensino de música. E isso é possível em comunidades transformadas, em que a Reforma Agrária é exemplo dessa transformação”, afirmou.
Conferência da 23ª Jornada de Agroecologia (Foto: Danielle Freitas)
Na sequência, Leonardo Boff abriu o debate propondo uma reflexão sobre a solidariedade como elemento fundamental da condição humana. Ao evocar práticas ancestrais de partilha, o teólogo destacou a importância da convivência coletiva na constituição da humanidade. “Quando nossos ancestrais buscavam a comida, não comiam sozinhos; traziam para o grupo, davam para os pequeninos, para os mais idosos, depois comiam juntos. E esse comer juntos, a comensalidade, permitiu o salto da animalidade à humanidade; foi então que ficamos humanos”, disse.
Boff criticou o modelo capitalista contemporâneo, que, segundo ele, privilegia a competição em detrimento da cooperação. “A solidariedade é uma das coisas que menos existem no mundo de hoje, porque o capitalismo só conhece a competição sem nenhuma cooperação, sem nenhuma solidariedade”, analisou. E complementou: “Vejam o morticídio, o genocídio que ocorre na Faixa de Gaza. Os países europeus que criaram a democracia, os direitos humanos, os primeiros que abraçaram o cristianismo, estão de braços cruzados, nos envergonhando”.
O teólogo também chamou atenção para a necessidade de recuperar a dimensão espiritual como parte constitutiva da experiência humana. “Assim como temos a vontade, temos a inteligência, temos a sensibilidade, com o mesmo direito de cidadania, temos a espiritualidade, que é o profundo do ser humano, onde ele coloca as grandes questões. Tudo isso constitui a espiritualidade natural dos seres humanos”, afirmou.
João Pedro Stédile, por sua vez, apresentou uma análise abrangente da conjuntura política e econômica, enfatizando o caráter estrutural da crise atual. Para o dirigente do MST, o sistema capitalista enfrenta limites profundos, mesmo diante da crescente concentração de riqueza. "Os capitalistas estão acumulando muito dinheiro, cada vez mais concentrado, porém o sistema capitalista não consegue mais organizar a produção e a vida social em benefício das necessidades das pessoas", disse.
Stédile também apontou o avanço de ideologias conservadoras e de extrema-direita como um fator que impacta negativamente a organização da classe trabalhadora. Como resposta, defendeu a retomada do debate coletivo e a reconstrução das lutas de massa como estratégias fundamentais para a garantia de direitos e melhoria das condições de vida da população. "A classe trabalhadora, nesse tempo histórico, precisa refletir e debater coletivamente para encontrar saídas para a sua crise organizativa, sua crise programática, e retomar as lutas de massa para garantir direitos e melhorar as condições de vida de toda a população", concluiu.
Encerrando o painel, Camila Girardi Fachin, destacou o papel da agroecologia para além das práticas agrícolas, definindo-a como um projeto de reorganização da relação entre sociedade e natureza. “A agroecologia não é apenas uma técnica de organização da produção agrícola, ela é uma proposta de reorganização da relação entre a sociedade e a natureza”, disse. Em sua fala, ela defendeu que a universidade pública deve colaborar para esta reorganização da sociedade. “A 23ª edição da Jornada é um espaço que mostra que esse projeto alternativo de sociedade não é uma utopia distante, ele é uma realidade […] que está sendo semeada nos territórios, nas escolas, nas universidades, nos assentamentos, nas comunidades de todo o Brasil.”
Na opinião da vice-reitora, trata-se de abrir as portas da universidade para os saberes populares. “A gente tem que defender uma ciência aberta, uma universidade de portas abertas”, defendeu.
O debate realizado na Jornada evidenciou a centralidade da agroecologia como horizonte político e social diante de uma crise estrutural que articula, de forma simultânea, dimensões ambientais, tecnológicas, humanistas e do próprio capital. Ao reunir diferentes leituras sobre esse cenário, o encontro reforçou a urgência de construir caminhos coletivos capazes de enfrentar os desafios do tempo presente e de sustentar alternativas que coloquem a vida no centro.
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