17 Junho 2026
"É algo lamentável que, através destas atitudes, seja inferido que falta-nos a fé. Sem ela, não há existência cristã; e sem esta última, o nosso sacerdócio é um auto-engano. Fujamos da ‘sindrome de Caim’! Não fiquemos a tentar matar os nossos irmãos de presbitério, com as nossas invejas, maldades e iniquidades. Sejamos promotores do bem", escreve Matias Soares, pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório-Natal/RN, Capelão da UFRN.
Eis o artigo.
O presbitério é constituído por seres humanos. Assim como os demais indivíduos, todos carregam na sua estrutura antropológica, as marcas do pecado original e originante, que consiste “na falta real e o ato de desobediência cometido livremente pelos primeiros pais, que perderam a graça santificante e os dons originais”. Existem consequências existenciais desta realidade que, segundo à Tradição cristã, são a herança da primeira negação da centralidade de Deus na história de cada ser humano (cf. Gn 3,1-24). Neste cenário, aparece a figura de Caim, que, por ciúmes, mata o seu irmão, Abel (cf. Gn 4, 1-16). Em tudo isso, podemos inferir, o afastamento de Deus, ou, em termos aproximativos colocados pelo saudoso Papa Francisco, o “mundanismo espiritual” que assola a existência de muitos sacerdotes. Observando os sinais, é perceptível como essa ‘síndrome de Caim’ faz-se presente em estilos relacionais nalguns ambientes presbiterais. Os fenômenos são as intrigas, fofocas, maledicências, invejas, lutas por poder, lobbies, desonestidades, mentiras, calúnias, ofensas, perjúrios, perseguições, orgulho e buscas constantes de promover a destruição dos colegas. Esses são sinais dos ressentimentos que transitam pelos corações e mentes de alguns destes, que tonam-se joio nos colegiados presbiterais.
A partir destas constatações, o que pensar, ou que caminho seguir? Sem dúvida, o primeiro passo é o convite feito por Nosso Senhor, “convertei-vos e crede no Evangelho”! (cf. Mc 1, 14-15). A primeira referência é a abertura à ação do Espírito Santo para que possamos ter em nós os sentimentos de Jesus Cristo (cf. Fl 2, 5-11). Quando não há esse processo, os males causados por estas personalidades com desvio de caráter são danosos e geradores de sofrimentos e, às vezes, instigadores de ‘desencantos vocacionais’ de outros irmãos. Já chegou-se à constatação de que alguns presbíteros abandonaram o ministério por causa destes travestidos que estão nos presbitérios; mas, nem como cristãos fazem quaisquer esforços para viver. Alguns, com péssima qualificação espiritual e intelectual, pois estas dimensões estão sempre conectadas, não teriam as mesmas oportunidades no mundo civil de bem estar, se não tivessem a proteção da Igreja, com a credibilidade que os bons dignos sacerdotes adquiriram, com o seu testemunho, no decorrer da história.
Uma outra atenção, poderia ser a da justa medida no trato destes indivíduos, que prezam por gerar desunião, negação dos irmãos de caminhada sacerdotal e cancelamento dos que não compactuam com seus estilos de vida marcados por vícios e obscuridades. Para isso, seria necessário um olhar clínico para que fossem detectados quem nos colegiados presbiterais assumem esses comportamentos, sendo importante a proximidade, o reconhecimento de campo e a capacidade de escuta. Estes terroristas que vivem a minar as relações fraternas nos presbitérios têm carência de ‘hombridade’ para dizer o que poderia ser conversado com seus pares, em sintonia com os ensinamentos do Evangelho (cf. Mt 18, 15-35). Essa deveria ser a atitude honrosa e de respeito aos irmãos, que oferecesse momentos para o diálogo franco e sincero; com consciência da responsabilidade pelo bem comum e a comunhão do presbitério das Igrejas Particulares. Tal preocupação deveria fazer parte das preocupações dos processos formativos desde os seminários. Os transtornos de caráter já são percebidos durante a fase seminarística. Contudo, infelizmente o acompanhamento personalizado e responsável pelo bem da Igreja, nem sempre é levado a sério e desenvolvido de acordo com a proposta da formação integral daqueles que, amanhã, farão parte de colegiados presbiterais.
O Papa Leão, no último dia doze de junho de dois mil e vinte seis escreveu aos presbíteros (disponível aqui). Na missiva, além de outros ensinamentos concernentes à santidade dos sacerdotes, o pontífice enfatiza um que nos situa mais densamente no propósito desta meditação, a saber: “Zelai pela fraternidade presbiteral: procurai-vos, escutai-vos, ajudai-vos uns aos outros. O sacerdote que se isola, apaga-se lentamente; o sacerdote que caminha com os irmãos cresce. Santo Agostinho recorda-nos: ‘Como podemos não nos encontrar nas trevas? Amando os irmãos. Qual é a prova de que amamos os irmãos? Esta: não destruir a unidade e praticar a caridade’” (cf. Idem. In Epist. Io. ad Parthos II, 3). Quem cospe na caridade e luta contra a unidade, nega o espírito do Evangelho e o da sinodalidade. A comunhão do presbitério é extremamente importante. Precisa ser algo sinfônico e trabalhado de forma artesanal, com paciência e grande capacidade de caridade na verdade.
Enfim, é a misericórdia de Deus que pode penetrar o coração de quem necessita de compaixão, mas também de correção. A justificação é Graça, mas acontece pelo nosso testemunho de fé (cf. Rm 5, 1-10). Nós, presbíteros, também somos chamados à uma profunda experiência de arrependimento e mudança de comportamentos. É algo lamentável que, através destas atitudes, seja inferido que falta-nos a fé. Sem ela, não há existência cristã; e sem esta última, o nosso sacerdócio é um auto-engano. Fujamos da ‘sindrome de Caim’! Não fiquemos a tentar matar os nossos irmãos de presbitério, com as nossas invejas, maldades e iniquidades. Sejamos promotores do bem. Valorizemos a nossa formação permanente, que vai nos capacitando constantemente a moldarmos o que em nós causa desencontros e conflitos. É desafiador; mas, é por meio dela que buscamos melhorar cotidianamente para sermos testemunhas credíveis do nosso único Mestre e Senhor. Irmãos presbíteros, cuidemos uns dos outros! Sejamos pontes à santificação e felicidade dos nossos companheiros de caminhada! Somos um corpo. Por isso, para que exista Salus - saúde e salvação - entre nós, comecemos a zelar com simples e constantes atos de caridade e justiça de uns para com os outros, para que sejamos “sinais de esperança”, aqui e agora. Assim o seja!
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