Entre o rearmamento deliberado e a resistência pacifista: o Japão enfrenta uma inflexão em sua história. Artigo de Sébastien Raineri

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06 Junho 2026

No War. Duas palavras que, desde o início de 2026, ecoam de uma ponta à outra do arquipélago, de Sapporo a Fukuoka, das ruas de Kyoto à área próxima ao prédio do parlamento em Tóquio. O Japão está vivendo as maiores manifestações contra a guerra em décadas, após a decisão da primeira-ministra Sanae Takaichi de acelerar o rearmamento do país diante de um aumento sem precedentes nas ameaças à região, com uma China turbulenta, uma Rússia agressiva e uma Coreia do Norte imprevisível”. A reflexão é de Sébastien Raineri, em artigo publicado por Asialyst e reproduzido por Viento Sur, 04-06-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

No War. Duas palavras que, desde o início de 2026, ecoam de uma ponta à outra do arquipélago, de Sapporo a Fukuoka, das ruas de Kyoto à área próxima ao prédio do parlamento em Tóquio. O Japão está vivendo as maiores manifestações contra a guerra em décadas, após a decisão da primeira-ministra Sanae Takaichi de acelerar o rearmamento do país diante de um aumento sem precedentes nas ameaças à região, com uma China turbulenta, uma Rússia agressiva e uma Coreia do Norte imprevisível.

Sanae Takaichi assumiu o cargo de primeira-ministra em outubro de 2025, apoiada pela ala mais conservadora do Partido Liberal Democrático (PLD), que controla o poder quase ininterruptamente desde a sua criação em 1955. Nas suas primeiras semanas no cargo, ela definiu o tom: o Japão deve se rearmar e a sua Constituição deve evoluir para refletir “as realidades do mundo atual em termos de segurança”.

A vitória esmagadora do seu partido nas eleições parlamentares antecipadas de fevereiro de 2026 (316 dos 465 assentos na câmara baixa, um recorde para o PLD) deu-lhe a maioria necessária para propor uma emenda constitucional ao parlamento. Ela declarou imediatamente a sua intenção de apresentar um projeto ainda este ano. Medidas concretas seguiram-se a um ritmo que surpreendeu até os observadores mais experientes. Em 21 de abril, o governo revogou oficialmente o embargo de longa data à exportação de armas letais, justificando esta decisão com base num “ambiente de segurança cada vez mais perigoso”.

O orçamento de defesa para o ano fiscal de 2026 ultrapassa os 9 trilhões de ienes, o 14º recorde anual consecutivo, como parte de um plano para elevar os gastos militares para 2% do PIB, um nível também sem precedentes desde a rendição do Japão em 1945. Baterias de mísseis de longo alcance foram implantadas nas ilhas do sudoeste, juntamente com instalações de radar mais sofisticadas, para cobrir o Mar da China Oriental.

O tabu do Artigo 9 da Constituição japonesa

No âmbito constitucional, as propostas em discussão no âmbito do PLD giram em torno de dois pontos principais: o reconhecimento explícito das Forças de Autodefesa (nome dado às forças armadas japonesas) no Artigo 9, que atualmente proíbe o Japão de manter forças armadas, e a introdução de uma cláusula de emergência que permitiria a suspensão de eleições e conferiria força de lei aos decretos governamentais. Seu parceiro de coligação, o Partido da Inovação do Japão, vai ainda mais longe, defendendo a revogação total do segundo parágrafo do Artigo 9 da Constituição, que foi redigido sob a influência das forças de ocupação estadunidenses após a Segunda Guerra Mundial.

A primeira-ministra, a primeira mulher a liderar o governo japonês, situa tudo isso num contexto regional que considera profundamente alterado, com uma China cada vez mais turbulenta, uma Coreia do Norte cujos mísseis balísticos intercontinentais podem atingir qualquer cidade japonesa e uma Rússia em guerra com a Ucrânia, mas cujas fronteiras orientais se encontram no Leste Asiático. A tudo isto se soma, desde 28 de fevereiro de 2026, a guerra no Irã e o consequente fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam 93% das importações de petróleo do Japão, provocando a desvalorização do iene, um aumento drástico nos preços da gasolina e, sobretudo, uma crise de confiança sem precedentes na aliança com os Estados Unidos.

As ruas dizem não: anatomia de um movimento sem precedentes

O movimento de protestos de coloração pacifista teve um início modesto. Em fevereiro, milhares de pessoas se reuniram em frente à Dieta Nacional (Parlamento). Em março, 30 mil pessoas compareceram a uma única manifestação noturna. Em 3 de maio, Dia da Constituição, que comemora o aniversário da Constituição de 1947, mais de 90 mil manifestantes foram às ruas em todo o país, 50 mil deles no principal parque de Tóquio, atrás de uma faixa com os dizeres: “PAREM a revisão constitucional e a expansão militar”. Manifestações ocorreram em 200 cidades e vilarejos em cada uma das 47 prefeituras do arquipélago.

Em 29 de março, no distrito de Shinjuku, em Tóquio, o coletivo Protest Rave transformou o maior centro de transportes do país em uma pista de dança política, com sistemas de som instalados na rua, atuações de DJs intercaladas com discursos e uma hashtag que viralizou: #DropBassNotBombs. Segundo seus organizadores, essa forma de protesto foi herdada das mobilizações populares contra a Guerra do Iraque em 2003.

Este movimento faz parte de uma longa tradição que começou em 1960 com Tomi Kobayashi, uma professora de 30 anos, durante protestos contra a revisão do tratado de segurança entre o Japão e os Estados Unidos. Tomi ficou sozinha diante da Dieta ostentando uma faixa que dizia: “Sociedade dos Sem Voz, aberta a todos”. Alguns transeuntes se juntaram a ela e, em pouco tempo, já eram 300. Esse movimento dos sem voz é frequentemente citado hoje como a certidão de nascimento do ativismo civil pacifista japonês. Sessenta e seis anos depois, seus sucessores usam a rede X para se mobilizar, mas a corajosa solidão daquele gesto inaugural permanece a mesma.

Um país profundamente dividido: o que dizem as pesquisas

O retrato que as pesquisas de opinião pintam é ao mesmo tempo claro e paradoxal. Reflete um país que não quer guerra, mas que também discorda do que a paz exige. Três conjuntos de dados ajudam a captar essa complexidade.

Em primeiro lugar, de acordo com uma pesquisa da Kyodo News de 2024, 75% da população japonesa acredita que uma revisão constitucional é necessária. No entanto, na mesma pesquisa, 65% consideram que não há urgência em acelerar o debate parlamentar, e as opiniões sobre o próprio Artigo 9 estão quase igualmente divididas (51% a favor da emenda, 46% contra).

Segundo fato: uma pesquisa realizada pelo maior jornal conservador, o Yomiuri Shimbun, indica que 80% da população japonesa se opõe a qualquer modificação do primeiro parágrafo do Artigo 9 (aquele que renuncia à guerra como um direito soberano), enquanto a opinião está claramente mais dividida em relação ao segundo parágrafo, que proíbe a manutenção de forças armadas.

A terceira, e talvez mais significativa, descoberta é que 82% dos entrevistados pelo jornal Asahi Shimbun, tradicionalmente de esquerda, em março de 2026, declararam-se contrários aos ataques israelenses e estadunidenses contra o Irã. Essa hostilidade permeia todos os segmentos eleitorais, incluindo 70% dos apoiadores do PLD (Partido Liberal Democrático). Koichi Nakano, professor de ciência política, resumiu o sentimento que levou os jovens às ruas: “A guerra reacendeu o risco de o Japão se envolver em um conflito ilegal sob a liderança de Takaichi. Muitas pessoas sentem que devem demonstrar seu apoio ao Artigo 9 como o último bastião contra a guerra”.

O que as pesquisas revelam implicitamente é uma distinção fundamental que tanto os apoiadores quanto os opositores de Takaichi às vezes têm dificuldade em articular com clareza: aceitar uma Força de Autodefesa fortalecida não é o mesmo que aprovar uma revisão formal do texto constitucional. A invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022 levou o então primeiro-ministro Fumio Kishida a se comprometer, em documentos de segurança nacional aprovados em dezembro de 2022, a elevar o orçamento de defesa do Japão para 2% do PIB até o ano fiscal de 2027, violando o tabu de um orçamento limitado a 1% do PIB. Ao mesmo tempo, ele anunciou a aquisição de equipamentos para ataques de longo alcance. Não houve protestos na época.

É o ato simbólico de tocar a Constituição, um texto fundamental que nunca foi emendado em 78 anos, que cristaliza a resistência.

A geração da inflexão: um pacifismo reinventado, mas não abandonado

A opinião dos jovens japoneses começou a mudar profundamente após a observação de porta-aviões chineses manobrando perto da ilha japonesa de Iwo Jima, localizada no Mar das Filipinas, a cerca de 1.046 km ao sul de Tóquio e a leste de Taiwan; mísseis norte-coreanos sobrevoando o arquipélago; e a administração Trump condicionando suas garantias de segurança ao nível de gastos militares japoneses. Uma pesquisa do Gabinete do Governo de 2025 mostrou que 93,5% das pessoas entre 18 e 29 anos tinham uma opinião favorável das Forças de Autodefesa, o índice mais alto entre todas as faixas etárias. Para esses jovens, as Forças de Autodefesa são, acima de tudo, a instituição que prestou auxílio às vítimas do terremoto de 2011 – que matou ou deixou 18.000 pessoas desaparecidas – e que protege as ilhas remotas do arquipélago.

No entanto, os dados sobre a participação nas manifestações revelam uma significativa sobrerrepresentação de mulheres jovens em suas fileiras. Para muitas delas, o que se expressa é um pacifismo mais tradicional, contrário à dissuasão, uma rejeição ao argumento de que a integração da estratégia de dissuasão dos EUA como um guarda-chuva poderia ser um ato puramente defensivo. Uma vez totalmente integrada à mecânica da aliança militar, argumentam essas vozes, a separação entre defesa nacional e compromisso expedicionário torna-se politicamente insustentável.

A crise iraniana forneceu-lhes evidências empíricas sobre um ponto em que, até então, dispunham apenas de argumentos teóricos. Em 19 de março, na Casa Branca, Donald Trump pressionou Takaichi para que enviasse navios de guerra japoneses ao Estreito de Ormuz. Ela recusou, invocando o que o Japão “pode e não pode fazer segundo suas leis”. Para os manifestantes de março e abril, esse episódio demonstra que o Artigo 9 ainda funciona como um mecanismo de controle efetivo, exatamente como seus idealizadores pretendiam.

Entre o legado moral e a realidade estratégica

O Artigo 9 da Constituição japonesa de 1947 é um dos textos mais notáveis do direito constitucional mundial. Seu primeiro parágrafo compromete o Japão a renunciar para sempre à guerra como um direito soberano e à ameaça ou ao uso da força na resolução de disputas internacionais. Seu segundo parágrafo estipula que nenhuma força terrestre, naval ou aérea será mantida e que nenhum direito de beligerância será reconhecido dentro do Estado.

Este texto foi escrito apenas dois anos depois das bombas atômicas estadunidenses terem devastado Hiroshima e Nagasaki, matando até 200.000 pessoas até o final de 1945. Os sobreviventes, os hibakusha, fizeram disso sua bússola moral. Em 2026, Jiro Hamasumi, um deles, ainda declarou perante a conferência que revisava o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares: “Armas nucleares foram usadas porque fomos à guerra. Nunca mais guerra. Nunca mais hibakusha”.

Contudo, o Artigo 9 nunca foi tão absoluto quanto sua redação sugere. A partir de 1954, sob pressão dos EUA, o Japão restabeleceu as forças armadas conhecidas como Forças de Autodefesa. Em 2014-2015, o então primeiro-ministro Shinzo Abe reinterpretou a noção de autodefesa coletiva em um decreto governamental, permitindo que o Japão apoiasse aliados em caso de ataque. Agora, sob o governo de Sanae Takaichi, uma emenda formal ao texto está sendo considerada — uma linha vermelha que nenhum governo ousou cruzar até o momento.

Os defensores da revisão argumentam que o ambiente estratégico mudou completamente, que o Artigo 9, “escrito após a derrota”, é muito restritivo e que o reconhecimento oficial das Forças de Autodefesa na Constituição nada mais é do que registrar uma realidade já amplamente aceita pela população.

Seus oponentes respondem que as modificações acabam esvaziando a cláusula pacifista de sua essência e que o Artigo 9 não é uma restrição legal, mas um compromisso moral que o mundo inteiro reconhece no Japão e que explica em grande parte sua imagem como uma potência econômica respeitada desde 1945.

Uma análise do jornal Mainichi Shimbun, publicada em abril de 2026, argumenta que o pacifismo japonês só foi viável como doutrina porque estava inserido em uma ordem internacional garantida por Washington. Hoje, essa ordem está em colapso: os próprios EUA estão minando seus fundamentos. A conclusão, portanto, é que o pacifismo e o constitucionalismo japoneses podem não ser mais articulados como antes. “A era pós-guerra acabou”, escreve o jornal, que se inclina para o centro. Não para aplaudir esse fim, mas para avaliar toda a sua gravidade.

Qual será o Japão do futuro?

Embora Sanae Takaichi detenha uma ampla maioria na Câmara dos Representantes, ela está longe de ter votos suficientes para aprovar uma emenda constitucional, necessitando de uma ampla coalizão tripartite para ultrapassar a maioria de dois terços exigida. Essa emenda também requer, após a convocação de ambas as casas legislativas, uma maioria simples em um referendo popular. Durante o mandato de Abe, um primeiro-ministro que fez da revisão constitucional o cerne de sua identidade política por quase uma década, seus anos no cargo foram insuficientes para garantir a aprovação popular.

Num país onde a mudança costuma ser lenta, a questão não é apenas o que o Japão decidirá, mas também em que ritmo e que pressão interna e externa será necessária para concretizá-la. Para o bem ou para o mal, o Japão encontra-se num momento de inflexão da sua história.

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