21 Mai 2026
Ben Gvir compartilhou vídeos mostrando os ativistas, incluindo 44 espanhóis, amarrados, ajoelhados e humilhados, o que também gerou desconforto no governo de Netanyahu.
A informação é de Luís de Vega, publicada por El País, 20-05-2026.
Vídeos que mostram o linha-dura israelense Itamar Ben Gvir humilhando ativistas da flotilha de solidariedade a Gaza — detidos em águas próximas a Chipre no início desta semana — ajoelhados e algemados após sua chegada a Israel na quarta-feira, provocaram condenação internacional. Espanha, Bélgica, França, Itália, Turquia e Canadá, todos com cidadãos entre os presos (44 são espanhóis), protestaram e exigiram explicações pela recepção violenta.
No âmbito interno, as ações do Ministro da Segurança Nacional também geraram inquietação. Até mesmo o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, criticou o ultranacionalista por filmar a si mesmo maltratando detentos, cercado por policiais, e depois publicar as imagens nas redes sociais com a mensagem: “É assim que recebemos os apoiadores do terrorismo. Bem-vindos a Israel.”
Far-right National Security Minister Itamar Ben-Gvir released a video showing detained participants of the intercepted Gaza-bound flotilla being bound and dragged in Israel's Ashdod Port, writing, "That's how we welcome the terror supporters. Welcome to Israel."
— Haaretz.com (@haaretzcom) May 20, 2026
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Nas últimas semanas, dezenas de navios da Freedom Flotilla Coalition (FFC) e da Global Sumud Flotilla (GSF) tentaram romper o bloqueio israelense ao livre fluxo de ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, em vigor desde outubro de 2023. Esta é uma missão que já haviam tentado, sem sucesso e com o mesmo resultado, em outras ocasiões desde o verão passado. Segundo os organizadores, esta última tentativa envolveu cinquenta navios e 430 ativistas.
Israel interceptou os navios da flotilha no início desta semana e, assim que atracaram na manhã de quarta-feira no porto de Ashdod, no sul do país, diversas autoridades israelenses quiseram enviar uma mensagem à comunidade internacional e se encarregaram de divulgar imagens do grupo de ativistas sendo humilhados e abusados.
O próprio Ben Gvir divulgou imagens mostrando “guardas prisionais e soldados israelenses espancando e humilhando ativistas”, denunciou a organização israelense de direitos humanos Adalah em um comunicado. Anteriormente, a ministra dos Transportes, Miri Regev, publicou um vídeo no qual os ativistas são rotulados como “simpatizantes do terrorismo” e “alcoolizados”. Além disso, em outro vídeo, que a ONG atribui a Moti Kastel, jornalista israelense do Canal 14, os ativistas aparecem ajoelhados com as mãos algemadas nas costas e os rostos pressionados contra o chão, enquanto o hino nacional israelense toca ao fundo.
Horas depois, Netanyahu defendeu seu direito de deter “apoiadores do Hamas e terroristas”. No entanto, acrescentou que o tratamento dado por Ben Gvir “não está em consonância com os valores e normas do Estado de Israel”. O primeiro-ministro acrescentou, em comunicado, que ordenou a “deportação dos provocadores o mais rápido possível”. Um deles é o jornalista Ignacio Ladrón de Guevara, colaborador do EL PAÍS, com quem todas as comunicações foram cortadas quando os navios foram atacados.
“Ben Gvir é um criminoso e um risco estratégico para o Estado de Israel”, declarou o líder da oposição, Yair Golan, nas redes sociais. Golan, um general, chefia a coalizão entre o histórico Partido Trabalhista e o Meretz, um partido à sua esquerda. “Essa coalizão sabe que seu fim está próximo”, acrescentou, referindo-se à mistura de forças que apoiam o governo de Netanyahu.
"Come entravi nel container di ingresso ti gonfiavano. A me hanno preso a calci sulle gambe e a cazzotti in faccia." Questa la testimonianza del giornalista de Il Fatto Quotidiano, Alessandro Mantovani, al suo arrivo all'aeroporto di Roma Fiumicino. L'uomo si trovava a bordo di… pic.twitter.com/ULNEIviQUb
— Local Team (@localteamit) May 21, 2026
“Monstruoso e desumano”
“Vi um vídeo monstruoso, desumano e vergonhoso no qual membros da Flotilha foram tratados de forma injusta e humilhante por um ministro israelense e pela polícia. Considero isso extremamente alarmante e exijo um pedido público de desculpas de Israel”, disse o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, em Berlim, referindo-se às imagens que mostram Ben Gvir zombando dos ativistas. Albares fez essas declarações à imprensa na capital alemã, onde se reuniu com seu homólogo, Johan Wadephüll, segundo informações de Miguel González.
O cônsul espanhol em Ashdod não teve permissão para acessar o porto onde os ativistas, incluindo os espanhóis, desembarcaram. Albares anunciou que a Espanha convocou a encarregada de negócios de Israel em Madri, Dana Rerlich, pela segunda vez em 48 horas, para protestar e exigir a libertação imediata dos detidos. "Expresso nossa completa rejeição e repulsa por este tratamento absolutamente abominável e inaceitável", disse ele.
O ministro também observou que o político de extrema-direita Ben Gvir está sob sanções da Espanha e previu que em breve será sancionado por toda a UE. Ele afirmou que a Espanha coordenará ações com outros governos cujos cidadãos estão na flotilha para dar uma resposta conjunta.
Israel is on high alert arresting hundreds of civilians on ships bound for Gaza carrying weapons such as bread, milk and medicine.
— Mohamad Safa (@mhdksafa) May 20, 2026
The people of Gaza have the right to aid even under occupation and siege, but international law clearly doesn’t apply to Israel. pic.twitter.com/02iud1Anv5
O governo italiano, que também convocou o embaixador israelense, condenou as imagens divulgadas por Ben Gvir como “inaceitáveis”. “É inadmissível que esses manifestantes, entre os quais muitos cidadãos italianos, sejam submetidos a um tratamento que viola a dignidade humana”, declararam a primeira-ministra Giorgia Meloni e o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, em um comunicado conjunto. Além de exigir a libertação dos 29 ativistas italianos detidos, “a Itália também exige um pedido de desculpas”, diz o comunicado.
Até mesmo a oposição italiana se juntou às críticas. A secretária do Partido Democrático, Elly Schlein, falou de "imagens arrepiantes" e se referiu ao ocorrido como "crimes contra a dignidade humana" cometidos pelo "governo criminoso de Netanyahu".
A França também convocou o embaixador israelense devido ao "comportamento inaceitável" de Ben Gvir. "Para expressar nossa indignação e exigir explicações", escreveu o ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Noël Barrot, em comunicado à imprensa. O ministro afirmou que "a segurança de nossos cidadãos é uma prioridade constante". "Independentemente do que se pense dessa flotilha — e já expressamos repetidamente nossa desaprovação a essa iniciativa —, nossos compatriotas que participam dela devem ser tratados com respeito e libertados o mais rápido possível", acrescentou.
A condenação do tratamento “inaceitável” também levou o ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-primeiro-ministro belga, Maxime Prévot, a convocar o embaixador israelita e a exigir “tratamento digno e libertação imediata” dos detidos, como escreveu na revista X.
“As imagens que circulam são profundamente perturbadoras. Pessoas detidas, amarradas, obrigadas a deitar de bruços, e um ministro do governo divulgando sua humilhação nas redes sociais (...). Essa situação é inaceitável. Viola os princípios mais básicos da dignidade humana”, condenou Prévot, acrescentando que seu país continuará “chamando a atenção por todos os canais diplomáticos” para a “situação catastrófica em Gaza”, relata Silvia Ayuso.
“Este ministro [Ben Gvir], figura-chave no genocídio perpetrado por Israel em Gaza, demonstrou mais uma vez abertamente a mentalidade bárbara e violenta do governo Netanyahu”, afirmou o Ministério das Relações Exteriores da Turquia em comunicado, segundo informações de Andrés Mourenza.
O governo canadense também anunciou que convocará o embaixador israelense para consultas pelos mesmos motivos. Outros países aderiram aos protestos, incluindo o Reino Unido e a Holanda.
“Política criminal”
“Após a interceptação ilegal da flotilha em águas internacionais e o sequestro ilegal de mais de 400 ativistas de todo o mundo, Israel está empregando uma política criminosa de abuso e humilhação contra ativistas que buscam denunciar os crimes que Israel continua a cometer contra o povo palestino”, denuncia o comunicado da Adalah.
Esta ONG está tentando fornecer assistência jurídica aos detidos e exige sua libertação incondicional. "A comunidade internacional deve tomar medidas urgentes para proteger os membros da flotilha dessa conduta brutal e ilegal por parte das autoridades israelenses", afirma.
Na terça-feira, as forças militares israelenses abriram fogo, usando canhões de água e realizando manobras arriscadas para abordar os últimos dez barcos que ainda navegavam em direção a Gaza. Quase 100 ativistas estavam a bordo. Anteriormente, na segunda-feira, 40 barcos com mais de 300 ativistas a bordo foram apreendidos.
Flotilla, la ministra dei Trasporti israeliana: "Attivisti drogati e sostenitori del terrorismo" - la Repubblica https://t.co/eRLzhPkaXD
— IHU (@_ihu) May 21, 2026
A ONG israelense Adalah já havia documentado padrões semelhantes de maus-tratos contra ativistas em missões anteriores da flotilha, pelas quais Israel não foi responsabilizado, acrescentaram. Esta e outras organizações humanitárias documentaram os ataques sistemáticos e a tortura sofrida diariamente pelos milhares de palestinos presos em cadeias israelenses.
Segundo fontes diplomáticas chilenas, os indivíduos detidos no Mediterrâneo chegaram ao porto de Ashdod em dois navios da Marinha israelense. Eles seriam transferidos para a prisão de Ketziot, perto da fronteira com o Egito, acrescentaram as mesmas fontes. Somente após a chegada à prisão, e não antes, terão início os procedimentos para visitas consulares e assistência.
Na Faixa de Gaza, onde os navios da flotilha tentavam atracar, mais de 72 mil palestinos morreram sob fogo israelense desde o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, que deixou cerca de 1.200 mortos e cerca de 200 reféns em Israel (todos já retornaram ao seu país ou morreram).
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