15 Mai 2026
O historiador grego escreveu que "foi a ascensão de Atenas e o medo que ela instilou em Esparta que tornaram a guerra inevitável". O cientista político americano Graham Allison revisitou a citação em um ensaio de 2017 para explicar as relações entre Pequim e Washington. O presidente chinês a mencionou novamente em seu encontro com Trump.
A reportagem é de Daniele Castellani Perelli, publicada por La Repubblica, 14-05-2026.
“Foi a ascensão de Atenas e o medo que instilou em Esparta que tornaram a guerra inevitável”, escreveu o historiador grego Tucídides no século V a.C., ao falar sobre a Guerra do Peloponeso. E esta noite, esse cenário antigo foi ecoado nas palavras do presidente chinês Xi Jinping, que, durante o discurso de abertura do encontro bilateral com o presidente dos EUA, Donald Trump, disse: “A questão agora é se a China e os Estados Unidos conseguirão superar a chamada ‘Armadilha de Tucídides’ e inaugurar um novo paradigma nas relações entre grandes potências. Devemos ser parceiros, e não adversários, alcançando o sucesso uns para os outros, prosperando juntos e forjando um caminho adequado para que as grandes potências da nova era convivam harmoniosamente”.
🇨🇳🇺🇸 Sob o olhar global, Xi Jinping propôs a Trump uma convivência pacífica para vencer a Armadilha de Tucídides: a tese de que o choque entre uma potência emergente e a hegemônica é inevitável. Para a China, a saída é cooperar para evitar o conflito de grandes nações. pic.twitter.com/QuCD26AwSW
— Análise Geopolítica (@AnaliseGeopol) May 14, 2026
A "Armadilha de Tucídides" refere-se, portanto, à tendência ao conflito que surge quando uma potência emergente ameaça uma potência estabelecida. Essa teoria foi formulada em 2017 pelo cientista político de Harvard, Graham Allison, que citou essa passagem do historiador grego, afirmando que essa "armadilha" é a melhor lente para compreender as relações entre os EUA e a China no século XXI. Allison, apesar de seu livro se intitular "Destinados à Guerra", enfatizou que o conflito não é inevitável. Ele escreveu que, nos últimos 500 anos, essas mesmas condições se repetiram 16 vezes, e nem sempre terminaram em bombas e massacres. É claro que, em apenas quatro dessas 16 vezes, houve paz. E, no entanto, nos dois últimos casos, o derramamento de sangue foi evitado: durante a Guerra Fria entre os EUA e a URSS e, na década de 1990, com a ascensão de uma Alemanha unificada na Europa.
Hoje, a China parece imparável, enquanto a superpotência americana está em meio a uma crise estrutural, liderada por um presidente imprevisível que almeja "tornar a América grande novamente" (MAGA). Um conflito comercial ou um acidente no mar poderiam acender o pavio mais terrível que o mundo já viu. Um antigo provérbio apreciado por Xi diz: "O céu é ilimitado e permite que os pássaros voem livremente; o oceano é vasto e permite que os peixes nadem à vontade". Tucídides não poderia ter dito melhor.
Leia mais
- Por que Xi fez alusão à armadilha de Tucídides?
- Trump viaja para a China envergonhado após a afronta iraniana
- Xi Jinping saúda Trump em meio à desordem global e alerta para o risco de "confrontos" entre a China e os EUA sobre Taiwan
- Xi-Trump: cúpula temporária. Artigo de Francesco Sisci
- 2025, ano zero da armadilha de Tucídides e o ano em que a máscara do livre mercado caiu. Artigo de Yago Álvarez Barba
- “Ainda há muito a ser revelado sobre a IA que está sendo desenvolvida pela China e pelos EUA.” Entrevista com Ángel Gómez de Ágreda
- Conselho Nacional de Ciência, extinto por Trump, estava finalizando um relatório sobre a crescente superioridade científica da China em relação aos EUA
- O socialismo chinês e a equação desafiadora de Xi Jinping. Entrevista com Yann Moulier-Boutang
- Guerra no Irã acelera duelo EUA-China pelo futuro da energia
- Transição energética da China e a reconfiguração do comércio internacional
- China e Índia lideram e redefinem o futuro energético global
- A pegada ecológica e a transição energética da China. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
- China e Estados Unidos em disputa pelo topo do mundo. Vamos todos acabar em guerra?