“Precisamos reabrir Ormuz para evitar uma crise alimentar”. Entrevista com Máximo Torero

Crise alimentar. (Foto: Boris Dunand/Unplash)

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12 Mai 2026

Para onde o mundo irá depois da crise causada pela guerra entre Israel e Estados Unidos contra o Irã, que fechou o Estreito de Ormuz? Não há resposta simples para essa pergunta. Os preços do petróleo flutuam diariamente, criando instabilidade e insegurança significativas em muitos países. Fertilizantes processados de países do Oriente Médio não conseguem chegar aos seus destinos devido ao bloqueio, o que levará a uma maior escassez de alimentos e aumento de preços. A guerra não acabou; a fome no mundo irá piorar. O que pode ser feito para controlar essa situação?

O economista peruano Máximo Torero estudou economia em seu país e obteve um doutorado em economia pela Universidade da Califórnia, Los Angeles. Atualmente, é economista-chefe da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, com sede em Roma). Torero ingressou na FAO em 2019 como diretor-geral adjunto do Departamento de Desenvolvimento Econômico e Social. Anteriormente, atuou como diretor executivo do Grupo Banco Mundial para Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai.

A entrevista é de Elena Llorente, publicada por Página|12, 12-05-2026. 

Eis a entrevista. 

Você mencionou em um podcast transmitido pela FAO que agora, devido às guerras em curso, especialmente contra o Irã, podem haver efeitos semelhantes aos causados pela crise da COVID. Quais seriam esses efeitos semelhantes?

O que aconteceu durante a COVID-19 foi que os alimentos pararam de circular. Houve escassez de alimentos, não porque não existissem, mas porque não podiam ser transportados, e as pessoas também não. Aviões não voavam, caminhões não circulavam. Agora, a situação é ainda mais grave, porque o principal fator são os preços dos combustíveis. E por esse motivo, muitos países estão restringindo a circulação de veículos, como as Filipinas e o Sri Lanka. O segundo efeito semelhante da COVID-19 é o preço de produtos básicos como trigo, milho e soja. No preço do pão, por exemplo, 15% corresponde ao trigo; o restante é energia e mão de obra. Quando os preços dos combustíveis sobem, o preço do pão sobe. E isso leva à inflação dos alimentos, que, por sua vez, leva a uma alta inflação geral e à recessão econômica. Isso aconteceu durante a COVID-19. E a tudo isso, devemos agora acrescentar, segundo especialistas, a possibilidade de que o próximo fenômeno climático El Niño seja mais forte do que o normal, causando inundações e secas em todo o mundo, prejudicando particularmente os principais produtores de alimentos.

Diz-se que a escassez de fertilizantes, especialmente os produzidos nos países que fazem fronteira com o Estreito de Ormuz, devido ao bloqueio, pode levar a um aumento global da fome. Poderia explicar como esse fenômeno ocorreria, ou se já está acontecendo?

Hoje, os países banhados pelo Estreito de Ormuz produzem 36% do petróleo mundial, 20-30% dos fertilizantes processados, 20% do gás natural e 50% do enxofre usado na produção de fosfatos (que também são utilizados em fertilizantes). As sementes híbridas, tão utilizadas na agricultura atual, são produzidas com grande quantidade de fertilizantes. O custo dessas sementes também aumentará com a alta dos preços dos combustíveis. A logística (transporte, armazenamento, etc.) também aumentará devido aos custos de energia. Isso está levando a uma situação já observada, principalmente entre os produtores de arroz: a redução da irrigação, pois utilizam bombas movidas a diesel. Se você é um produtor de milho e seus lucros diminuíram, precisa reduzir a produção. Para isso, planta menos sementes ou muda para outra cultura, como a soja, que requer menos água. Pode optar pela soja e vender biocombustíveis (feitos a partir de matéria orgânica, como plantas, óleos vegetais ou resíduos). Tudo isso leva a uma diminuição da disponibilidade de alimentos em todo o mundo e, consequentemente, ao aumento dos preços. Isso vai gerar inflação alimentar, que faz parte da inflação global. Alguns países europeus vão sofrer com inflação mais alta, como aconteceu com a COVID-19. Mais inflação significa menos crescimento. É isso que vai acontecer. Mas ainda não está acontecendo porque ainda temos um suprimento alimentar suficiente graças às colheitas anteriores. Os problemas mais sérios começarão a se manifestar no segundo semestre deste ano e ao longo de 2027.

Quais regiões seriam ou serão mais afetadas? E, em especial, quais países da África e da América Latina seriam os mais afetados?

Todos serão afetados. Os países ricos certamente têm maior capacidade de resistir a esses eventos. Na Europa, existem inúmeras medidas fiscais em vigor para evitar que o preço da gasolina seja repassado aos consumidores. Nos Estados Unidos, o preço da gasolina dobrou, mas há muito mais apoio fiscal. Um país africano pobre e endividado não pode fornecer esse tipo de apoio fiscal. E se o fizer, entrará rapidamente em crise, a menos que seja um país exportador de petróleo como a Nigéria. Um país pobre da América Latina também não pode. Na América do Sul, alguns países têm maior capacidade fiscal, como Peru, Chile, Colômbia e Brasil. Eles podem resistir à crise por um tempo. A América Central e o Caribe sofrerão mais. Países produtores de petróleo como Guiana, Venezuela e México estarão mais bem preparados para sobreviver.

Segundo o Índice de Preços dos Alimentos da FAO, os preços dos alimentos já haviam subido 2,4% em março de 2026 em comparação com fevereiro, principalmente devido ao aumento dos preços de cereais, carne, laticínios, óleos vegetais e açúcar. Será que tudo isso se deve ao bloqueio do Estreito de Ormuz?

O Índice de Preços de Alimentos da FAO acompanha commodities como trigo, milho e oleaginosas. O índice de abril, divulgado hoje, mostrou mais um ligeiro aumento de preços. As oleaginosas registraram o maior aumento, pois são utilizadas para a produção de biocombustíveis, que podem eventualmente substituir o petróleo. Isso está relacionado à situação em Ormuz. Os preços dos cereais também apresentaram um pequeno aumento: 0,8% para o trigo e 0,7% para o milho. Essas commodities ainda não sentem o impacto da próxima colheita. A situação deverá piorar com o tempo por dois motivos: espera-se uma menor disponibilidade de alimentos no mercado e haverá maior incerteza em relação aos preços do petróleo e aos conflitos em curso.

A FAO está apelando a todos os seus países membros para que considerem seriamente os biocombustíveis e evitem restrições à exportação. Como os biocombustíveis e a eliminação das restrições à exportação poderiam melhorar a situação alimentar global?

O que a FAO está dizendo é que devemos evitar restrições à energia e aos fertilizantes. Se grandes países produtores de fertilizantes, como a China ou a Rússia, aumentarem suas restrições à exportação, poderão agravar ainda mais a situação já crítica. Os biocombustíveis, que utilizam grãos, soja, etanol de açúcar ou oleaginosas para produzir energia, são bastante comuns em países como os Estados Unidos e o Brasil. Em um momento como o atual, em que pode haver escassez de alimentos até o final deste ano e no próximo, o uso de biocombustíveis pressionaria ainda mais o mercado e os preços dos alimentos subiriam. O que a FAO está dizendo é que devemos ter cuidado com as políticas que decidirmos para evitar a competição entre petróleo e biocombustíveis durante um período de baixa oferta de alimentos que afetará a todos.

Segundo o relatório Perspectivas Globais do Programa Mundial de Alimentos, cerca de 318 milhões de pessoas enfrentarão uma crise alimentar ou situação pior até 2026. A instabilidade, particularmente no Oriente Médio, poderá levar outras 45 milhões de pessoas à fome aguda nos próximos meses. O que o mundo pode fazer para enfrentar essa situação?

Para evitar uma crise alimentar, o Estreito de Ormuz precisa ser reaberto primeiro. Vamos eliminar os fatores causados pelo homem, como o fechamento do estreito, e focar no planejamento de soluções para o que acontecerá com o El Niño. Precisamos nos preparar para isso.

Será que alguns acordos de cooperação entre países, como o recente acordo entre a União Europeia e o Mercosul, poderiam ser uma das formas de reduzir a crise alimentar mundial?

Isso beneficiará os países do Mercosul, aumentando suas exportações para a Europa, mas não mudará a situação atual. Criará novas oportunidades para os países membros, pois o comércio ajuda a melhorar a eficiência, inclusive do ponto de vista logístico, mas não resolverá os problemas que eles enfrentam agora.

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