A denúncia do capitão da Flotilha: "Chutes nas costelas e na virilha"

Foto: Alpha bakemono/Wikimedia Commons

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06 Mai 2026

"Eles gritavam e perguntavam quem era o capitão. Ninguém respondia. Assim que subiram a bordo, nos empurraram e pediram nossos passaportes. Revistaram-nos um por um no chão. Depois, nos colocaram no bote inflável por cerca de uma hora e nos levaram para uma embarcação militar. Lá, começaram a nos empurrar e tiraram todas as roupas quentes que estávamos vestindo. Ficamos de joelhos com as mãos para trás." Anna, uma ativista espanhola que estava a bordo do navio Bribon, da Flotilha Global Sumud, relata o que aconteceu na noite de 29 de abril durante a interceptação pelo exército israelense em águas internacionais na costa de Creta.

A reportagem é de Youssef Hassan Holgado e Chiara Sgreccia, publicada por Domani, 05-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

A brutalidade do tratamento não abalou nem o presidente do Senado da Itália, Ignazio La Russa, nem o ministro do Interior, Matteo Piantedosi, que ontem atacaram a expedição: "Quantos palestinos as flotilhas salvaram? Quantas crianças ficaram vivas? Nenhuma. Portanto, são operações de propaganda de alto conteúdo midiático. Se você tiver a sorte de ser parado e dizer que foi torturado, é o melhor que pode esperar", disse La Russa. Piantedosi: "Concordo plenamente".

Essas palavras de altas autoridade do Estado certamente provocarão grandes polêmicas, pois também há cidadãos italianos entre os ativistas. Além disso, os depoimentos coletados pelo Domani relatam violências gratuitas do exército contra os ativistas. "No navio militar israelense estavam todas as outras pessoas interceptadas. Tudo no chão estava molhado, não tínhamos nenhuma informação e víamos pessoas chegando continuamente. Acima de nós, nos corredores do navio, havia soldados apontando suas armas para nós e falando conosco pelo megafone", explica Anna. Ela passou duas noites e um dia naquele navio da Marinha. "Só tínhamos um pouco de pão; fazia muito frio à noite e muito calor durante o dia."

A Procuradoria de Roma abriu uma investigação sobre o embarque israelense por sequestro de pessoa. O caso, confiado pelo procurador Francesco Lo Voi ao substituto Stefano Opilio, é atualmente contra pessoas desconhecidas e baseia-se em três denúncias e depoimentos transmitidos nos últimos dias. Duas das denúncias dizem respeito aos ativistas Thiago de Avila e Saif Abukeshek. Eles são os únicos levados diretamente para Israel. No domingo, o tribunal de Ashkelon prorrogou a prisão preventiva deles na penitenciária de Shikma por dois dias, e uma nova audiência está marcada para hoje.

Anna se lembra dos rostos deles a bordo do navio onde estava com os outros membros da Flotilha. "Assim que os levaram, começamos a protestar e a cantar pelos nossos companheiros", diz Anna, que também relata ter oferecido resistência passiva para não descer do navio até receber notícias de Avila e Abukeshek. "Naquele momento, eles nos chutaram, nos bateram com os fuzis e nos obrigaram a desembarcar. Também nós estávamos dispostos a nos deixar levar para Israel", diz ela. Atrás da faixa "Somos todos Thiago e Saif", marchou uma manifestação organizada em Milão exigindo a libertação imediata dos dois.

Gianfranco Frongia, capitão do Eros I estava no barco com os dois ativistas levados em detenção para Israel. Ele se lembra bem do momento da interceptação. O exército os obrigou a navegar por uma hora em direção ao grande navio da Marinha onde estavam os outros membros da Flotilha. "Houve uma mudança completa de comportamento entre o momento em que as Forças de Defesa de Israel estavam a bordo de nossos barcos, quando dava para ver que eles estavam tentando evitar incidentes, e quando subimos a bordo do navio israelense, onde fomos maltratados", relata. "Eles me bateram quando eu não sabia onde Thiago e Saif estavam, e me recusei a obedecer às suas ordens." Gianfranco conta que levou chutes nas costelas e na virilha. Hoje, está com o olho direito roxo e vários hematomas. É um dos 34 que foram levados para o hospital.

Em terra

Assim que atracaram, os membros da Flotilha foram obrigados a se ajoelhar com abraçadeiras de plástico nos pulsos e esperaram por uma hora pela chegada das autoridades gregas. "Doía; quando tentávamos nos mexer, eles nos batiam." Fotos publicadas nos últimos dias confirmam esses relatos, mostrando ativistas com rostos inchados e escoriações pelo corpo.

Em terra, eles foram levados ao aeroporto pela polícia grega. "Demos prioridade aos feridos; havia pessoas com marcas de balas de borracha pelo corpo. Um homem estava inconsciente porque havia sido atingido. Então, colocamos os feridos primeiro no ônibus para o hospital. Depois, fomos para o aeroporto." Representantes de várias embaixadas os aguardavam lá.

Os relatos daqueles que foram abordados ilegalmente em águas internacionais são semelhantes. Lino estava a bordo do Atlantic Blue quando foi interceptado. "Eles me bateram nas costas, nos joelhos e na barriga sem motivo algum", relata ao Domani. Ele também, de 29 anos, foi levado para o navio da Marinha israelense antes de atracar em Creta. "Dormi no chão porque não havia espaço nos contêineres. O chão estava todo molhado; acho que jogavam água de propósito", explica.

"Dormiram perto um do outro, tanto por falta de espaço quanto para nos manter aquecidos; fazia muito frio à noite", conta Pietro, natural de Pádua e interceptado a bordo do Ghea.

Na prisão israelense

O destino de Ávila e Abukeshek poderá ficar mais claro na terça-feira, 5 de maio. Os dois estão no sexto dia de greve de fome. Em uma carta à filha, Ávila descreveu ter sido submetido a repetidos interrogatórios (com duração de mais de oito horas) e até mesmo ter recebido ameaças de morte. Os advogados do centro Adalah visitaram os dois ativistas e, em um comunicado, descreveram seu estado de detenção, caracterizado por abusos físicos: "As celas são submetidas a uma iluminação constante e de alta intensidade 24 horas por dia. São mantidos vendados sempre que são tirados de lá, mesmo durante os exames médicos."

Na Europa, os advogados gregos que auxiliam a Flotilha Global Sumud estão tomando medidas. Em uma carta enviada aos Ministérios das Relações Exteriores e da Marinha, solicitaram esclarecimentos oficiais sobre as ações tomadas pelas autoridades gregas após o sequestro ilegal dos ativistas.

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