Origens do clericalismo leigo. Artigo de Guillermo Jesús Kowalski

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04 Mai 2026

"O clericalismo leigo não é um fenômeno isolado ou autônomo. É fruto de uma cultura eclesial que por muito tempo identificou autoridade com poder-privilégio e obediência com 'submissão-temor reverencial'."

O artigo é de Guillermo Jesús Kowalski, teólogo e cientista social, mestre em Doutrina Social da Igreja pela Universidade de Salamanca, publicado em Religión Digital, 02-05-2026. 

Eis o artigo. 

Quando falamos de clericalismo, a atenção geralmente se volta quase automaticamente para ministros ordenados: bispos, padres ou estruturas hierárquicas visíveis. No entanto, nas últimas décadas, outra forma emergiu, mais sutil e, em muitos casos, mais difícil de identificar: o clericalismo praticado por leigos dentro de movimentos, comunidades ou paróquias.

À primeira vista, esse fenômeno pode parecer autônomo, surgindo espontaneamente em certos grupos ou líderes leigos. Mas o clericalismo leigo não é independente; pelo contrário, é fruto, continuação e reprodução do clericalismo estrutural de uma Igreja excessivamente hierárquica e muito pouco sinodal. Ele não surge do nada, nem da necessária participação ativa dos leigos, mas dentro de um sistema que o moldou, permitiu e, às vezes, o promoveu.

Portanto, a questão não é apenas corrigir abusos específicos em certos movimentos, mas compreender o modelo eclesial que os torna possíveis, o qual, em última análise, responde a esse gene "egoísta" e vaidoso — talvez o "pecado original" em termos religiosos — que todos carregamos dentro de nós e que nos predispõe a nos sentirmos superiores, a dominar e a subjugar os outros.

Mas "não deve ser assim entre vocês", disse Jesus, o Messias que não andava por aí ostentando sua divindade (Filipenses 2,6), mas elogiava os humildes. Ele instituiu o serviço (Mateus 20,20) e o samaritanismo (Lucas 10,25) como sinais de uma nova lógica na qual nos chama de "amigos" e não de servos (João 15,15), enquanto nos pede para não nos deixarmos chamar de pai ou mestre (Mateus 23,8) e se mostra como um companheiro de viagem (Lucas 24,13).

I. O clericalismo laical como reprodução de um modelo hierárquico

Os testemunhos recolhidos em experiências como as relatadas em contextos comunitários como os do Caminho Neocatecumenal revelam uma realidade perturbadora: leigos que exercem autoridade absoluta sobre a consciência alheia, legitimados por um suposto "carisma" superior ou pela recompensa pela servidão na sacristia.

A estes "grupos de catequistas", apesar de serem leigos, operam a partir de uma posição de poder. Atribui-se a eles uma capacidade especial de discernir a vontade de Deus para a vida alheia, o que lhes permite intervir em decisões íntimas: relações familiares, sexualidade, finanças ou vocação pessoal. Os chamados "escrutínios" representam um verdadeiro tribunal de consciência, onde a vida íntima do indivíduo é exposta publicamente e sujeita a julgamento. A obediência é apresentada como fidelidade a Deus e a dúvida como pecado.

Contudo, essa forma de exercer autoridade não é uma anomalia isolada. Ela reflete um modelo eclesial no qual a autoridade é entendida como domínio sobre as consciências. Esses leigos não inventaram esse sistema: eles o reproduzem. Em uma Igreja altamente hierárquica, onde por séculos a autoridade foi identificada com o poder e a obediência com a submissão, os leigos formados nesse sistema acabam internalizando e replicando essa mesma lógica, em vez de vivenciar uma participação saudável.

Portanto, o clericalismo leigo não pode ser analisado sem referência ao clericalismo dos ministros ordenados. Ele é sua extensão, seu eco e sua consequência. À luz de Pierre Bourdieu e Paulo Freire, o clericalismo leigo pode ser entendido como a reprodução internalizada do poder: os leigos, formados em estruturas hierárquicas absolutistas, incorporam a lógica clerical e a exercem, chegando ao ponto de acreditar que essa é a única forma possível de viver a Igreja.

II. Formação, controle e prestação de contas: nada acontece fora da hierarquia

Existe um mito de que certos abusos dentro de movimentos ou comunidades são incidentes isolados, fora do controle da Igreja institucional. No entanto, é difícil sustentar essa tese em uma estrutura eclesial tão organizada e hierárquica. É improvável que algo que impacte sistematicamente a vida das pessoas ocorra sem o conhecimento, a supervisão ou, pelo menos, a tolerância da hierarquia. Os movimentos eclesiais não são entidades autônomas. Eles são aprovados, apoiados e guiados por bispos e padres. Sua formação, práticas e liderança se desenvolvem dentro de uma estrutura eclesial que os legitima.

Isso não implica necessariamente uma intenção consciente de manipular. Muitas vezes, não há "má vontade". Mas existe um problema estrutural: não há proteção da consciência individual. Quando leigos são autorizados a exercer autoridade espiritual sem limites claros, quando a ideia de que alguém "em nome do Espírito Santo" pode falar sobre a vida concreta de outra pessoa é legitimada, abre-se a porta para abusos morais e psicológicos profundamente prejudiciais.

Além disso, se surgirem problemas, o sistema se protege minimizando os danos: "Você era livre", "Você poderia ter ido embora", "Não é tão grave assim". A responsabilidade é transferida para a vítima, e a impunidade do sistema é fortalecida.

III. Manipulação da consciência: o cerne do problema

O aspecto mais grave do clericalismo leigo não é apenas o controle externo, mas a manipulação interna da consciência. A Igreja opera na esfera mais delicada da existência humana: nossa relação com Deus, nossa liberdade interior, nosso sentido da vida. Quando esse espaço é invadido, as consequências são profundas e duradouras.

A pressão psicológica é exercida por meio de mecanismos religiosos: identificar a obediência aos catequistas com a obediência a Deus; associar a dissidência ao pecado ou à falta de fé; e gerar medo espiritual ("estar fora da vontade de Deus"). Isso gera uma subjugação que nem sempre é visível, mas que deixa feridas profundas: sentimento de culpa, insegurança, perda de autonomia, dificuldade em tomar decisões livres, servidão sistêmica.

O problema não é apenas que alguns indivíduos se comportem de maneira abusiva, mas também o quadro teológico e pastoral que molda, permite e justifica tudo isso.

IV. Rumo a uma Igreja mais evangélica: superando o clericalismo em todas as suas formas

Não basta apontar o dedo para certos leigos ou movimentos cujo "modus operandi" se assemelha ao de seitas. É necessário repensar o modelo de autoridade em toda a Igreja. O Evangelho propõe uma lógica radicalmente diferente. Jesus não domina, não impõe, não controla a consciência. Ele acompanha, escuta e liberta. Ele chama seus discípulos de "amigos", não de servos. Seu pastorado é a "Magna Carta" da Sinodalidade. Por essa razão, o clericalismo — exercido por clérigos ou leigos — é uma distorção do Evangelho.

Superar o clericalismo exige uma Igreja sinodal na qual a autoridade esteja a serviço, a consciência seja inviolável, a formação seja libertadora e a transparência garanta a prestação de contas, proibindo qualquer abuso de poder sobre as consciências. Isso também envolve reconhecer os erros, ouvir aqueles que sofreram e aceitar que o problema não é apenas individual, mas também estrutural.

Há uma razão pela qual tão poucos leigos são proclamados santos e tantos ministros são canonizados, apesar da ênfase de Francisco no papel dos "santos ao lado". Precisamos repensar a hagiografia que se concentra no clero e oferece apenas migalhas aos leigos.

Conclusão: do controle à comunhão

O clericalismo leigo não é um fenômeno isolado ou autônomo. É fruto de uma cultura eclesial que por muito tempo identificou autoridade com poder-privilégio e obediência com "submissão-temor reverencial".

Se queremos uma Igreja fiel ao Evangelho, a mudança é necessária. Não basta corrigir os excessos; precisamos transformar as raízes. Porque a mensagem de Jesus não pode ser usada para controlar consciências ou decidir a vida de outros. Ela é chamada a curar, libertar e restaurar a dignidade de cada pessoa.

E isso só será possível quando a Igreja parar de reproduzir lógicas de dominação — em qualquer nível — e se tornar verdadeiramente uma comunidade de irmãos e irmãs em que ninguém se coloca acima da consciência de outro, mas sim caminha lado a lado, sinodalmente, juntos.

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