22 Abril 2026
Entrevista com a analista Manal Al Baraiki: “Existe um receio generalizado de que a dinâmica das negociações não leve em consideração de equilíbrios regionais".
A entrevista é de Laura Lucchini, publicada por La Repubblica, 22-04-2026.
Manal Al Baraiki, diretora de “Estratégias Futuras” da Academia Diplomática Anwar Garasch, um think tank próximo ao governo, está preocupada com as conversas bilaterais em Islamabad a partir de Abu Dhabi: “Tememos que a dinâmica bilateral possa negligenciar as necessidades regionais”.
Eis a entrevista.
Pela primeira vez desde fevereiro, as crianças voltaram às aulas presenciais. Os Emirados Árabes Unidos esperam agora retornar à vida pré-guerra ou precisam de um "novo normal"?
A ideia de um retorno à vida pré-guerra não reflete totalmente a realidade dos Emirados, onde a vida cotidiana nunca parou. Pelo contrário, ela continuou de forma constante. Medidas como o ensino a distância fazem parte de políticas flexíveis para garantir a continuidade e a qualidade da educação, mesmo em circunstâncias imprevistas. O impacto econômico e social foi limitado em comparação com outros países: serviços essenciais, empresas e produção permaneceram operacionais, reforçando a sensação de segurança e estabilidade.
Que garantias de segurança os Emirados Árabes Unidos esperam que sejam incluídas em um acordo sustentável com o Irã?
A principal garantia é o retorno ao respeito pelos marcos internacionais. Para o Irã, isso significa aderir às obrigações globais, incluindo os mecanismos de controle nuclear. É também essencial assegurar a segurança do Estreito de Ormuz e gerir mísseis, drones e a presença militar em conformidade com o direito internacional. Estas são condições fundamentais para a estabilidade duradoura e a plena reintegração no sistema internacional.
Qual a importância da liberdade de navegação no Estreito de Ormuz para as negociações em curso?
Esta é uma questão crucial. O Estreito deve permanecer aberto e seguro, sem condições, e não deve estar atrelado a tensões regionais ou decisões unilaterais.
A crise atual está redefinindo a estratégia geopolítica de Abu Dhabi?
A estratégia geopolítica certamente evoluiu, e não apenas nos Emirados. Mas essa mudança é menos evidente nos Emirados Árabes Unidos, visto que o país está há muito tempo preparado para lidar com choques. Resiliência, abertura e uma visão de futuro continuam sendo pilares fundamentais. Portanto, não se espera uma mudança radical.
Em que medida os Emirados Árabes Unidos e seus parceiros do Golfo coordenam suas posições nas negociações?
A coordenação é ativa e visível, com foco na desescalada, segurança e liberdade de navegação. Os países do Golfo querem contribuir ativamente para o resultado das negociações, evitando serem meramente influenciados por elas. No entanto, persistem as preocupações de que a dinâmica bilateral possa negligenciar as necessidades regionais.
O que os Emirados Árabes Unidos aprenderam com os ataques de mísseis e drones?
Em vez de aprender com os erros, os Emirados demonstraram uma preparação consolidada. Sua capacidade de interceptar ameaças reflete o investimento contínuo em defesa e estratégia. O foco agora está se deslocando para além do conflito, em direção à estabilidade futura e à próxima fase.
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