Nesta edição do podcast, vamos falar mais uma vez da guerra no Irã, mas agora sob uma perspectiva diferente: a batalha entre Trump e o Papa Leão XIV. Também damos destaque a crises humanitárias que são esquecidas pela grande mídia: a escalada dos ataques de Israel no Líbano, a guerra do Sudão que completa 3 anos e o sofrimento do povo haitiano. Na Hungria, a derrota de Orbán depois de 16 anos no poder repercute na extrema-direita. No Peru, as eleições que se aproximam indicam que o fujimorismo segue vivo, mas está perdendo força. Neste episódio também vamos abordar a polarização nas eleições brasileiras e como dois projetos políticos se diferem.
A possibilidade de um Super El Niño assusta e a ineficiência do estado em prevenir crises climáticas deixa a população brasileira apreensiva. Vamos repercutir o fim do Acampamento Terra Livre e seus desdobramentos, em meio a lutas e desafios no Dia dos Povos Indígenas. Também fazemos memória aos 30 anos dos camponeses do MST assassinados no massacre de Eldorado dos Carajás. Por último, damos destaque aos 70 anos da obra de Guimarães Rosa: Grande Sertão Veredas e sua importância para a cultura brasileira.
O cenário internacional recente evidencia um embate simbólico entre poder político e autoridade moral, representado pelas críticas de Donald Trump ao Papa Leão XIV. Em meio a um cessar-fogo frágil envolvendo tensões no Irã, Trump atacou publicamente o pontífice, acusando-o de fraqueza e alinhamento com a esquerda, além de reivindicar influência em sua eleição. Em contrapartida, o Papa reafirmou posicionamentos éticos em defesa da paz e contra ameaças à humanidade, destacando a dimensão moral dos conflitos.
Paralelamente, ações do governo estadunidense, como o corte de recursos a organizações humanitárias, reforçam uma postura de desumanização. O conflito discursivo se intensifica com declarações de autoridades como o vice-presidente J.D. Vance, enquanto o Papa demonstra não temer tais pressões. Analistas apontam que os ataques acabaram por consolidar o pontífice como uma voz global de oposição ao trumpismo, ao passo que o presidente reforça uma retórica messiânica e nacionalista. Nesse contexto, a atenção internacional se desloca parcialmente da guerra para disputas ideológicas, enquanto novos focos de violência emergem, como no Líbano.
Em um mundo marcado pela crescente desumanização, crises humanitárias se expandem de forma alarmante. No Líbano, a intensificação de ataques e o colapso econômico colocam o país à beira da desintegração estatal. Já no Sudão, a guerra civil prolongada configura a maior crise humanitária atual, com milhões de deslocados e ausência de assistência básica, agravada pelo silêncio internacional.
Na América Latina, o Haiti enfrenta um cenário de colapso institucional, dominado por gangues armadas e com grande parte da população dependente de ajuda urgente.
Na Faixa de Gaza, mesmo após um cessar-fogo, persistem a escassez de recursos essenciais e a violência, levando analistas a interpretar a região como um reflexo de tendências globais de autoritarismo e extermínio. Assim, esses contextos revelam um padrão mais amplo de deterioração das condições de vida e da ordem internacional.
A derrota de Viktor Orbán na Hungria simboliza uma possível inflexão no avanço do populismo na Europa, inaugurando um período de “pós-populismo” marcado por desafios na reconstrução democrática. Apesar disso, o novo governo ainda se insere no campo conservador, indicando que mudanças estruturais serão graduais.
Na América Latina, o cenário político apresenta maior instabilidade, como demonstrado nas eleições peruanas, marcadas por disputas acirradas, acusações de fraude e problemas logísticos. A ascensão de candidatos de diferentes espectros políticos revela tensões sociais profundas e fragilidade institucional. Ao mesmo tempo, observa-se uma reorganização das forças políticas na região, com movimentos de ascensão da esquerda em alguns países e de fortalecimento conservador em outros, evidenciando a complexidade do momento político latino-americano.
No Brasil, a polarização política se intensificou ao longo da última década, tendo como marco o impeachment de Dilma Rousseff, permeado por discursos de ódio e conservadorismo. A partir desse episódio, o bolsonarismo se consolidou como força política relevante, permanecendo ativo mesmo após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022.
O cenário atual indica a continuidade dessa polarização, com a possível candidatura de Flávio Bolsonaro e a manutenção de Lula como principal liderança da esquerda. Enquanto o bolsonarismo busca se reorganizar e manter sua influência, o governo Lula enfrenta altos índices de rejeição e tenta implementar políticas públicas para recuperar apoio popular. No plano internacional, o presidente brasileiro busca reforçar alianças democráticas e se posicionar contra tendências autoritárias, ampliando o debate entre democracia e extremismo.
A crise climática se apresenta como um desafio crescente, ainda pouco priorizado na agenda política brasileira. A possível ocorrência de um “Super El Niño” nos próximos meses acende alertas para eventos extremos, como chuvas intensas e enchentes, com impactos econômicos e sociais significativos. Estudos indicam perdas bilionárias anuais no PIB brasileiro decorrentes de desastres climáticos, além de evidenciar limitações na capacidade de resposta do Estado.
No Rio Grande do Sul, ainda em recuperação de enchentes recentes, a falta de infraestrutura adequada agrava a vulnerabilidade da população. Especialistas destacam a necessidade de investimentos em prevenção, educação e gestão de riscos, reforçando a urgência de políticas estruturais diante do agravamento das mudanças climáticas.
A luta dos povos indígenas por direitos territoriais e preservação ambiental ganha destaque com o encerramento do Acampamento Terra Livre 2026, que denunciou o avanço da mineração em terras indígenas e criticou projetos políticos que ameaçam esses territórios.
Apesar do apoio a pautas governamentais, os movimentos indígenas reafirmam sua autonomia e disposição para pressionar por garantias efetivas. Os impactos da mineração, como contaminação por metais pesados, evidenciam graves problemas de saúde pública. Paralelamente, a memória do massacre de Eldorado dos Carajás, que completa 30 anos, reforça a histórica violência contra trabalhadores rurais e simboliza a luta por reforma agrária e justiça social no Brasil.
Por fim, a celebração dos 70 anos de “Grande Sertão: Veredas” ressalta a relevância da obra de Guimarães Rosa para a literatura brasileira. O romance, marcado por linguagem inovadora e profundidade filosófica, explora temas como amor, violência e dilemas existenciais por meio da narrativa de Riobaldo.
A obra transcende o espaço físico do sertão, transformando-o em metáfora da condição humana. Novas traduções buscam preservar a complexidade original do texto, enquanto eventos acadêmicos promovem reflexões sobre suas dimensões místicas e existenciais. Assim, o livro permanece atual, reafirmando seu papel como um dos maiores marcos da literatura em língua portuguesa.
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O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.