Um fator pouco explorado. Artigo de Sérgio Ricardo Gonçalves Dusilek

Imagem: 1º Encontro Fraternal de Líderes Evangélicos, 28/08/2021 | Foto: Alan Santos | PR

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10 Abril 2026

"O problema maior é que uma eventual derrocada do PT não será sucedida por uma mera alternância do poder, comum nos regimes democráticos; ela pode representar o próprio fim da democracia neste país, como quase experimentamos, como nação, na nossa história recente."

O artigo é de Sérgio Ricardo Gonçalves Dusilek, mestre e doutor em Ciência da Religião pela UFJF/MG, com estágio pós-doutoral concluído em 2025 pelo PPG Letras da UEMS com bolsa CAPES; professor e pastor batista.

Eis o artigo.

Em 2018 o país foi varrido por uma assustadora onda direcionada à extrema-direita que resultou na eleição de Jair Messias Bolsonaro para a presidência do Brasil. Não só a presidência: via de regra, a maior parte dos que entraram nesta improvável locomotiva tiveram sucesso eleitoral. Em contraponto, figuras tradicionais da política brasileira que se opuseram a este impetuoso vento tiveram dificuldades para se eleger, quando não foram derrotados no pleito.

Exemplo clássico disto foi o que aconteceu, em termos eleitorais, no Acre. Estado bibelô do petismo, comandado durante 20 anos muitos dos quais sob a tutela dos irmãos Viana, o Acre impingiu uma fragorosa e surpreendente derrota ao PT no pleito de 2018. Além de não reeleger Jorge Viana para o Senado Federal, de perder a eleição para Governador, de ter dado a Bolsonaro o maior percentual de votos no segundo turno (77% dos votos válidos),[1] o Estado não elegeu nenhum deputado federal do PT. Isto mesmo: um estado que chegou a ter três senadores do PT, se viu desprovido de representantes deste partido no Congresso Nacional. Isso não é pouca coisa, ainda mais quando se considera a repetição do mesmo quadro em 2022 que, mesmo diante da alta renovação (somente uma deputada federal foi reeleita), novamente deixou de conduzir ao Congresso Nacional parlamentares do PT.

Algumas explicações para este fenômeno foram elencadas:

a) um eventual cansaço do eleitor acreano tanto com a democracia (no que seria seu esgotamento, como preconizam Daniel Ziblatt e Steven Levitsky), quanto com o partido que por duas décadas conduziu o estado — o que o torna, após um tempo, responsável pelos problemas estruturais que o estado tem desde sua fundação. Pelo menos é assim que muitos eleitores (desmemoriados, é verdade) interpretam a desafiadora realidade;

b) Amazônia: por que os indígenas voltam à luta. Artigo de Fábio Caetano o adesivamento, na esteira do lavajatismo, do Partido dos Trabalhadores como agremiação símbolo da corrupção. Uma injustiça, especialmente se lembrarmos o caráter estrutural e ambidestro da corrupção no país e também a própria declaração do Procurador chefe da Operação Lava-Jato, Deltan Dallagnol, de que o PP (e não o PT) era o partido que deveria ser extinto por conta da corrupção nos seus quadros;[2]

c) a violência que eclodiu no estado com a guerra entre as facções criminosas e que tem encontrado, nos partidos de esquerda, uma histórica inabilidade para lidar com esta temática. Soma-se a isso a violência do "cidadão-de-bem" que, no caso do Acre, se traduz na estranha e condenável saudade do tempo de atuação do comandante da PM e deputado federal Hildebrando Paschoal com sua lendária e bárbara motosserra;

d) por fim, nesta lista que não se esgota em si mesma, podemos assinalar as inserções e inflexões de Marina Silva em prol de nomes não petistas, como foi, em 2014, seu apoio a Aécio Neves, que fez com que o senador mineiro alcançasse cerca de 65,7% dos votos válidos no segundo turno, servindo como prenúncio do que aconteceria quatro anos depois, desta vez com Bolsonaro.

Todavia, o que ninguém abordou foi a possível e sugestiva ligação deste "endireitamento" do Acre com o crescimento dos evangélicos.[3] O Censo de 2022 revelou que ele é o Estado mais evangélico do país, com cerca de 44,38% da sua população. Ora, quando o meio evangélico testemunhou a fratura das relações fraternais e familiares nas duas últimas eleições, agravadas pelo expurgo de membros e lideranças de igrejas simplesmente por votarem em partidos de esquerda ou centro-esquerda, o segmento se deparou com uma inquietante indagação: que tipo de evangelho grassou no país? Que mensagem foi esta, que apelo conversionista foi este, que resultou em evangélicos necessariamente de direita, imprescindivelmente capitalista, e que procura promover uma nova leitura de Jesus, oscilando sua recepção entre empreendedor e bem-sucedido empresário? Para os adeptos do que chamo aqui de neo-evangelho, a profissão de fé passou a ser dupla: só há garantia de salvação e permissão para comungar, para quem confessa Jesus e se declara capitalista.[4]

Importa destacar que a escala atingida por este clima persecutório, inquisitório, tal qual se observou nas duas últimas eleições presidenciais, é nova nas igrejas evangélicas. Anteriormente, o que tivemos de mais próximo a esta situação, conquanto igualmente grave, foi o "entreguismo", a denúncia de irmãos e irmãs para a ditadura militar por suas lideranças eclesiásticas.[5] Fora esta nódoa, até então vigorava o respeito entre diferentes posicionamentos políticos, assim como certo distanciamento do pleito eleitoral, à exceção da sempre presente voracidade de certos grupos neopentecostais.

Ora, se há uma incompatibilidade defendida e propalada entre ser cristão-evangélico e de esquerda, o que foi proclamado no Brasil não foi o Evangelho de Jesus, mas uma ideologia política. Isto explica não só a violência simbólica no meio evangélico, como também o crescente flerte deste segmento com discursos e práticas de ódio. O resultado é que o crescimento do Evangelho de Jesus de Nazaré não se deu na mesma velocidade e proporção da chamada Igreja Evangélica (ou melhor: das igrejas evangélicas, do segmento evangélico).

De fato, não há nada novo aqui. Para ficarmos em um exemplo, durante a Ditadura Civil-Militar, os dois principais movimentos dos generais foram acompanhados e apoiados pelos batistas (da Convenção Batista Brasileira) mediante a promoção de duas campanhas de evangelização:

a) em janeiro de 1965, primeira Convenção após o Golpe de 1964, lançou-se a Campanha "Jesus Cristo é a única esperança";

b) em janeiro de 1969, na primeira Convenção após o AI-5 de dezembro de 1968, foi lançada a "Campanha das Américas".

Em ambas, o comum propósito de inocular o "evangelho de Jesus" como vacina contra o comunismo. Foi esta a explicação dada pelos líderes batistas aos generais, visando obter autorização prévia para as movimentações populacionais, na forma de concentrações, cruzadas, entre outros.[6]

Logicamente que a perspectiva anunciada não era do puro evangelho e da pura e ingênua salvação em Jesus. A proclamação, a esta altura, estava contaminada por uma ideologia fundamentalista de corte estadunidense. Aquilo que podemos chamar de segunda evangelização do Brasil (de matiz protestante) foi efetivada sob uma teologia colonial.

Este último fator se torna mais preocupante se analisarmos a falta de organicidade do PT no trato dos evangélicos. Cito um exemplo clássico do último pleito: enquanto em outubro de 2022 o PT celebrava a chamada Frente Ampla no TUCA (PUC/SP), tendo no palco representantes da classe artística, do movimento negro, de partidos políticos (como alguns caciques do PSDB), de sindicalistas, do meio acadêmico, não havia nenhum evangélico naquele palco. O segundo encontro com evangélicos, durante a campanha, acontecera uma semana antes em um hotel de São Paulo, em separado. Ao que tudo indica, o vetor do PT na direção aos evangélicos implica em sua eterna setorização.

Sendo outro o Evangelho, a saber, uma versão atualizada oriunda do fundamentalismo estadunidense, mais urgente e premente se torna a mudança de postura do PT caso deseje seguir pleiteando cargos majoritários. De outro modo, pode se ver repetir, tanto em nível nacional quanto em outros estados, a mesma derrocada experimentada pelo partido no Acre: o sepulcro, que não é Caiado por razões óbvias.

O problema maior é que uma eventual derrocada do PT não será sucedida por uma mera alternância do poder, comum nos regimes democráticos; ela pode representar o próprio fim da democracia neste país, como quase experimentamos, como nação, na nossa história recente. No pior dos pesadelos, na vigência do que seria um "Evangelistão".[7]

Notas

[1] Seria muito importante que uma densa e séria pesquisa de campo fosse empreendida para entender as razões para este olvidamento partidário. Sobre os resultados do Acre em 2018, ver: Folha de S.Paulo. "Ex-reduto do PT, Acre dá a Jair Bolsonaro maior votação relativa." Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/ex-reduto-do-pt-acre-da-a-jair-bolsonaro-maior-votacao-relativa.shtml

[2] Justamente o partido, por longos anos, do deputado Jair Messias Bolsonaro.

[3] Sugiro a leitura do artigo de Alexandre Brasil: "Pra não dizer que não falei dos números: os evangélicos e o Censo de 2022." Disponível em: https://fpabramo.org.br/pra-nao-dizer-que-nao-falei-dos-numeros-os-evangelicos-e-o-censo-de-2022-por-alexandre-brasil/ 

[4] O que pode ser depreendido da interessante e profunda pesquisa do Dr. Rodrigo de Sá Netto: SÁ NETTO, Rodrigo de. O Partido da Fé Capitalista: imperialismo religioso e dominação de classe no Brasil. Rio de Janeiro: Da Vinci Livros, 2024.

[5] Recomendo fortemente a leitura dos testemunhos e registros em: DIAS, Zwinglio Mota (Org.). Memórias ecumênicas protestantes — Os protestantes e a Ditadura: colaboração e resistência. Rio de Janeiro: KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 2014.

[6] Conforme: GONÇALVES DUSILEK, S. R.; DA SILVA, C. F.; DE CARVALHO CASTRO, A. A Igreja de Farda: batistas e a Ditadura Civil-Militar. Estudos Teológicos, v. 57, n. 1, p. 192-212, 2021. Disponível em: https://revistas.est.edu.br/ET/article/view/302

[7] Conforme: DUSILEK, Sérgio Ricardo Gonçalves. Evangelistão: provocações democráticas ao Movimento Evangélico. Curitiba: Kotter Editorial, 2025.

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