Ofício das trevas na Igreja: o que é isso? Artigo de Luiz Carlos Susin

Mais Lidos

  • Israel aprova a pena de morte para palestinos, enquanto seu genocídio continua impunemente. Artigo de Sarah Babiker

    LER MAIS
  • Os mestres do mundo. Entrevista com Alessandro Volpi

    LER MAIS
  • Trump cogita encerrar guerra contra o Irã mesmo sem liberar Estreito de Ormuz, segundo o Wall Street Journal

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

01 Abril 2026

"Não há nada, portanto, de misterioso ou exótico no Ofício das Trevas, nada que incremente o turismo religioso como se pretendia encenar há algum tempo numa igreja para chamar público com encenação de monges com capuz na cabeça e grossas velas nas mãos, com bruxas voando de uma coluna para outra à meia luz noturna e sussurros ameaçadores, e com música gótica de suspense", esclarece Frei Luiz Carlos Susin no artigo a seguir.

Luiz Carlos Susin, OFMCap, doutor em teologia e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Eis o texto.

Há quem especule e há quem fantasie a respeito do “Ofício das Trevas” conservado por séculos na tradição da Igreja. Estamos na Semana Santa, é nela que se ritualiza ou se ritualizava o Ofício das Trevas. Do que se trata?

Primeiro, permita-me ser autobiográfico. Como noviço capuchinho no ano de 1967 participei do Ofício das Trevas tal qual se costumava celebrar até então também entre nós. Nos anos seguintes, com a renovação conciliar, ele até foi ainda celebrado, mas com modificações, inclusive de horário.

Não havia nada de exotismo, nenhum estranhamento, mas era até bem simples. É necessário considerar que a Liturgia das Horas comportava, no ano inteiro, em todos os tempos litúrgicos, uma hora noturna de oração. À meia-noite, para ser preciso. O recolhimento noturno se dava normalmente às 21h, e à meia-noite se voltava do sono para a capela do convento – que seguia de perto o modelo dos mosteiros – para a salmodia ou recitação das Matinas, divididas em três vigílias, correspondendo às nove horas desde as Completas do dia que findava e as Laudes no alvorecer do dia. Como em todos os tempos de oração a cada três horas do dia, recitava-se três salmos para cada “matina”, todas juntas para todo aquele espaço de tempo noturno, o que somava nove salmos, praticamente uma hora inteira de oração com salmodia, recitação da Palavra de Deus e meditação.

Na Semana Santa, as Matinas da meia-noite obedeciam um costume próprio: colocava-se entre os dois coros de frades, que ficavam voltados um para o outro, portanto no centro da capela, uma espécie de menorá, um castiçal que suportava não sete velas, como as menorás judaicas, mas nove velas. Ficava-se à luz daquelas velas, apagando-se as luzes da capela. Os salmos eram substituídos em parte por capítulos das lamentações de Jeremias, que são o lamento em palavras poéticas do profeta sobre a cidade de Jerusalém destruída. A cada lamentação ou salmo recitado ou cantado em tom gregoriano se apagava uma vela. Após o nono salmo ou lamentação se apagava a última vela e se permanecia na escuridão – nas trevas totais – em silêncio e meditação. Este era o ritual do qual participei com muita reverencia. Como se pode ver, a recitação do rosário na madrugada teve precedente litúrgico bem interessante, muito rico em espiritualidade, que muitos mosteiros ainda conservam: o Ofício da salmodia das Matinas à meia-noite, e que se intensificava neste simbolismo encenado de forma singela na Semana Santa.

Qual o sentido do Ofício das Trevas? Era uma forma de preparar o Tríduo Pascal, o mistério da despedida, da agonia, do sofrimento e da morte de Cristo. Uma antífona que ainda acompanha toda a Semana Santa na Liturgia das Horas é o hino da Carta aos Filipenses, capítulo 2, o hino da kénosis, do esvaziamento até a morte de cruz, e depois a segunda parte do hino, reservada para o sábado e o domingo de Páscoa, a doxa ou Exaltação de Cristo na glória do Pai para a salvação de todo o que crê. A recitação avança progressivamente, não é recitada toda de uma vez. Ou seja, o Ofício das Trevas e esta antífona são uma maneira litúrgica de oração oficial da Igreja, com uma plasticidade existencial, para participar do mistério da Paixão de Cristo, de Deus mesmo.

Não há nada, portanto, de misterioso ou exótico no Ofício das Trevas, nada que incremente o turismo religioso como se pretendia encenar há algum tempo numa igreja para chamar público com encenação de monges com capuz na cabeça e grossas velas nas mãos, com bruxas voando de uma coluna para outra à meia luz noturna e sussurros ameaçadores, e com música gótica de suspense. E que a comunidade católica, com seu “sentido de fé” (sensus fidei do povo de Deus) recusou. Promoveu, sim, uma vigília de oração – sem curiosidades nem turismo. É isso.

Leia mais