São Francisco não elogia a natureza, ele descreve seus mecanismos biológicos. Artigo de Enzo Bianchi

Foto: Reprodução/O mensageiro

Mais Lidos

  • Quantum e qualia. Entre teoria quântica e a filosofia da mente. Entrevista com Osvaldo Pessoa Junior

    LER MAIS
  • Soberania e desenvolvimento digital e econômico do Brasil dependem de alternativas que enfrentem a dependência das multinacionais, afirma o pesquisador

    Data centers: a nova face da dependência brasileira. Entrevista especial com Vinícius Sousa de Oliveira

    LER MAIS
  • Israel está causando a pior tragédia humanitária no Líbano em mais de duas décadas, seguindo a mesma estratégia adotada em Gaza

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

31 Março 2026

"Somente reconhecendo-nos como seres nus e frágeis na Terra, como Francisco de Assis, e aceitando os limites dos recursos e o ciclo da morte como motores da vida, podemos reivindicar um futuro. O amor pelo sol, pela água e pela Terra é, em última análise, o único instinto verdadeiro de autopreservação que pode nos salvar", escreve Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Stampa, 27-03-2026.

Eis o artigo.

"Pensei que começar pelo Cântico seria uma boa ideia para explicar como o Irmão Sol, o Irmão Vento, a Irmã Água e a Mãe Terra guiam e protegem os destinos da vida, e como somente o amor por eles, como por todos os nossos outros irmãos e irmãs, todos os seres vivos com quem compartilhamos nossa casa comum, nos permitirá enfrentar, com esperanças razoáveis ​​de sucesso, nossa jornada para o futuro." Assim escreve Stefano Mancuso no prólogo de O Cântico da Terra (Editora Laterza), que é muito mais do que um comentário sobre o famoso Cântico das Criaturas de Francisco de Assis; é uma inteligente interligação de ciência e espiritualidade. Mancuso não lê o texto de São Francisco como um simples artefato religioso, mas como um mapa biológico expresso em linguagem espiritual. O Cântico das Criaturas é um hino à história da vida na Terra, que é a única exceção ao vazio infinito do universo.

Livro A Canção da Terra, de Stefano Mancuso (Laterza).

A leitura do ensaio de Stefano Mancuso, renomado neurobiólogo vegetal e autor de ensaios de grande sucesso, convenceu-me de que não é de todo um clichê pensar que o Cântico das Criaturas é o primeiro verdadeiro manifesto ecológico da história. Isso porque, nesse texto, Francisco não se limita a louvar a natureza de forma abstrata, mas descreve seus mecanismos biológicos fundamentais com uma precisão que a ciência só confirmaria séculos depois.

A ordem dos elementos nas estrofes — sol, lua, vento, água, fogo, terra — não é aleatória nem literária, mas, como confirma Mancuso, é uma ordem científica. Sol, vento, água, terra não são apenas símbolos poéticos, mas representam os parâmetros físicos e químicos necessários à vida. Mancuso explica, por exemplo, que definir o sol como uma fonte de luz e calor ("abençoado irmão sol") reconhece cientificamente a principal fonte de energia do sistema terrestre: "Não é coincidência que Francisco comece seu cântico com o sol. É, sem dúvida, o primeiro motor da vida na Terra, e o fato de não nos alegrarmos com sua mera presença, como Francisco faz, diz muito sobre nossa incapacidade de compreender a realidade."

O sol, sem o qual não haveria vida, sem o qual reinaria a escuridão da morte! Foi a primeira criatura adorada pelos homens, e a luz será a repreensão para aqueles que a idolatraram, mas porque foram seduzidos pela beleza, pela luz e pelas possibilidades de vida que ela traz. Para Francisco, o sol é significação, porque no sol ele contempla a ação luminosa e vivificante de Deus. O sol nos dá o dia todas as manhãs, ilumina nossas vidas e é belo, glorioso em seu esplendor radiante. Quem de nós nunca sentiu, por vezes, a necessidade de se ajoelhar diante do Irmão Sol?

Quem de nós nunca disse a si mesmo, ao acordar de manhã e ver o sol, que aquele dia era melhor do que um dia nublado e sombrio?

Depois do sol, da lua, do vento, da água e do fogo, Francisco louva a Deus por "nossa irmã, a mãe terra".

Essa expressão antecipa a Hipótese Gaia de James Lovelock, e Mancuso enfatiza que a terra não é uma rocha inerte sobre a qual caminhamos, mas um sistema autorregulado que nos "sustenta e governa", fornecendo ativamente as condições químicas e físicas necessárias à nossa sobrevivência. Se o sol era chamado, senhor, de "meu Senhor", a terra é chamada de irmã e mãe, porque nós, humanos, segundo a Bíblia, somos "terrenos", originários da terra ('adam tirado de 'adamah, como lemos em Gênesis), que é uma criatura como nós, portanto, uma irmã. Mas, sendo atraídos da terra, retornamos à terra, aosbraços da Mãe Terra, ao seu ventre. A terra, esta terra que amamos, esta terra que nos acolheu e nos sustenta, dando-nos alimento, esta terra que habitamos e sobre a qual nos movemos, esta terra à qual nos apegamos tanto que sofremos ao ter que deixá-la... Esta terra que nunca pode ser "minha" ou "sua", mas sempre e somente nossa, de todos nós, humanos! Esta terra que devemos amar como a nós mesmos, segundo o que gosto de chamar de décimo primeiro mandamento, uma síntese dos outros dez.

Mãe Terra! E Francisco canta sobre ela como a mãe que nos dá alimento como sustento, frutos, mas também as flores tão livremente oferecidas, cuja beleza vive ao lado ou entre as espigas de grãos necessárias para o pão. Nesta terra, Francisco, em sua agonia, quis estender-se nu, morrer em contato e comunhão com ela.

O que Francisco chama de irmão e irmã, o cientista chama de irmãos e irmãs entre as criaturas é interdependência ecossistêmica. Mancuso demonstra que a intuição espiritual do santo de Assis coincide com a realidade física: compartilhamos o mesmo DNA, os mesmos átomos e dependemos dos mesmos processos bioquímicos. Francisco compreende que cada parte do planeta é fundamental para o funcionamento do todo, e Mancuso destaca como essa visão de fraternidade e sororidade coincide com o conceito moderno de biossistemas, onde cada elemento — até mesmo a “irmã morte”, entendida como o ciclo da matéria — é indispensável para o equilíbrio global. Assim, o Cântico da Terra eleva a água, o fogo, o ar e a terra de meros recursos a serem explorados a entidades dotadas de valor intrínseco.

Essa visão restaura uma dimensão ética e contemplativa à ciência, ao mesmo tempo que oferece à espiritualidade um fundamento de rigor científico.

Sim, existe um vínculo universal entre todas as criaturas, uma fraternidade que Francisco revela e canta. Se Adão tivesse dado nomes às criaturas, Francisco as convoca a um convento (de cumvenire), porque para ele, o convento e o claustro eram o mundo, não a fortaleza-mosteiro e o claustro da Idade Média! Em imitação a Cristo nu na cruz na hora de sua morte, Francisco se deitou nu sobre a terra, porque em sua nudez experimentou a comunhão com todas as criaturas, amadas por ele em sua nudez, aquela simplicidade delas que ele soube interpretar como beleza. E assim, fazendo uma anamnese de sua própria vida e redescobrindo nela a fraternidade que sempre experimentara, com tudo e todos, até mesmo a morte que chega pode ser chamada de irmã: "Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã morte corporal".

A morte também, para Francisco, é uma irmã: este é o ponto mais ousado. Mancuso explica que a morte é o motor da reciclagem da matéria. Em um ecossistema fechado como a Terra, os átomos são limitados; para que uma nova vida floresça, a antiga deve ser desmantelada e devolvida ao ciclo. Sem a "morte corporal", o fluxo de energia cessaria e a vida se extinguiria por falta de materiais.

Somente reconhecendo-nos como seres nus e frágeis na Terra, como Francisco de Assis, e aceitando os limites dos recursos e o ciclo da morte como motores da vida, podemos reivindicar um futuro. O amor pelo sol, pela água e pela Terra é, em última análise, o único instinto verdadeiro de autopreservação que pode nos salvar.

A ecologia, portanto, não trata de proibições, mas de reconhecimento: compreender que servir à Terra não é um sacrifício, mas a única maneira de servir a nós mesmos. Para Mancuso, a ecologia não é um dever moral externo, mas uma necessidade biológica interna.

Leia mais