12 Março 2026
Perda de floresta reduziu chuvas, diminuiu a geração hidrelétrica e elevou os custos da eletricidade no país, diz estudo.
O artigo é de Alexandre Mansur e Desirêe F. Galvão, publicado por ((o))eco, 11-03-2026.
Alexandre Mansur é diretor de projetos do Mundo Que Queremos.
Desirêe F. Galvão é mato-grossense, pós-graduada em Práticas Contemporâneas do Jornalismo, mestre em Economia e Gestão do Ambiente e analista técnica do Radar Verde.
Eis o artigo.
O debate sobre a Amazônia costuma girar em torno de biodiversidade, emissões de carbono e compromissos climáticos internacionais. Tudo isso é fundamental. Existe, contudo, uma dimensão menos evidente, apesar de afetar diretamente o bolso do brasileiro: a floresta interfere diretamente no preço da energia elétrica. Um estudo da Rede de Pesquisa e Produtividade (Rede PP&S) revelou que todo o desmatamento das últimas quatro décadas custou aos consumidores brasileiros mais de US$ 1 bilhão por ano na conta de luz.
A matriz elétrica brasileira é uma das mais renováveis do mundo, com mais de 80% da geração proveniente de fontes limpas. Boa parte dessa vantagem competitiva vem da hidreletricidade. O que nem sempre se destaca é que metade da energia produzida no país depende de chuvas influenciadas pela Amazônia. A floresta funciona como um vasto sistema de reciclagem de umidade. Pela evapotranspiração, libera vapor d’água que os “rios voadores” conduzem ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Ali estão as principais bacias hidrográficas e usinas do país.
Quando a floresta perde cobertura, esse mecanismo enfraquece. A redução da evapotranspiração altera os fluxos atmosféricos e diminui a precipitação em áreas-chave para a geração hidrelétrica. Não se trata de uma hipótese abstrata. O estudo “Energia das florestas: Os custos sociais do desmatamento para o setor energético brasileiro” estimou que, se o desmatamento acumulado desde 1985 tivesse sido evitado, a geração hidrelétrica brasileira poderia ser, hoje, cerca de 12,8 TWh maior por ano. Em termos percentuais, parece pouco, algo em torno de 2% da geração média. Mas, no sistema elétrico brasileiro, isso faz diferença. Quando a geração hidrelétrica cai, as usinas térmicas, que são mais caras, precisam ser acionadas para atender à demanda. Como elas costumam definir o preço da energia, esta entrada eleva o custo para todo o mercado. O resultado aparece no bolso do consumidor.
As estimativas indicam que, se o desmatamento tivesse sido evitado nas últimas quatro décadas, os ganhos líquidos de bem-estar seriam expressivos. O impacto poderia alcançar US$ 1,1 bilhão por ano para a sociedade brasileira. Desse total, a folga no bolso dos consumidores chegaria a cerca de US$ 920 milhões, via preços mais baixos. Além disso, a maior dependência de térmicas implica emissões adicionais, com um custo social estimado em até US$ 175 milhões por ano. Ou seja, o desmatamento gera uma conta dupla: energia mais cara e mais carbono na atmosfera.
Há ainda um aspecto institucionalmente delicado. A escassez hídrica não afeta todos da mesma maneira. Geradores térmicos podem se beneficiar do aumento do despacho e de preços mais altos. Parte dos produtores hidrelétricos também pode capturar ganhos via efeito-preço, mesmo com menor geração. Enquanto isso, consumidores arcam com tarifas maiores. O sistema, portanto, pode produzir ganhos privados coexistindo com perdas sociais líquidas. Este é um desalinhamento que raramente entra no debate público.
Outro ponto central é que a Amazônia não tem o mesmo peso energético em todo o território. Do ponto de vista da geração hidrelétrica, a relevância está concentrada em áreas específicas, sobretudo ao longo do arco do desmatamento, justamente onde a pressão sobre a floresta é maior. O estudo mostra que, embora seja possível dividir a Amazônia em cinco regiões de igual valor econômico para o setor, essas áreas variam significativamente em tamanho. Isso revela que pequenas porções do bioma têm um papel decisivo para a segurança energética do país. Proteger apenas 3,3% da floresta em pontos estratégicos poderia preservar cerca de US$ 23 bilhões em valor associado à geração elétrica. O Parque Indígena do Xingu, por exemplo, responde sozinho por aproximadamente US$ 5 bilhões nesse cálculo.
Esses números deveriam reposicionar o debate. A conservação florestal não é apenas uma agenda ambiental ou climática. É política energética, de competitividade e de redução de custo sistêmico. Planejar o futuro do setor elétrico, sem integrar a dinâmica do uso da terra, significa ignorar um determinante estrutural da oferta.
O Brasil costuma se orgulhar da matriz limpa, e com razão. Mas essa vantagem depende de estabilidade hidrológica. Ao enfraquecer a floresta, o país compromete não apenas a meta climática, mas a previsibilidade de preços, segurança energética e atratividade para investimentos intensivos em eletricidade.
A Amazônia não é apenas um bioma distante. Ela funciona como uma infraestrutura natural que sustenta a produção de energia no país. Reconhecer esse papel exige mudar a forma como a floresta é tratada nas políticas públicas e nas decisões econômicas. Se a Amazônia integra a infraestrutura do sistema elétrico, a conservação florestal precisa fazer parte do cálculo estratégico do setor energético. Empresas e planejadores devem tratá-la como um componente de segurança operacional, assim como tratam reservatórios, linhas de transmissão ou usinas.
Da mesma forma, o país precisa tratar a floresta como um ativo estratégico nacional. Assim como o Brasil investe na manutenção de rodovias, portos, aeroportos e redes elétricas, também deveria investir na proteção da infraestrutura natural que sustenta o regime de chuvas e, por consequência, a produção de energia. Cuidar da floresta não é apenas uma política ambiental, é uma política de infraestrutura, essencial para garantir energia mais estável, barata e limpa para o futuro do país.
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