"O sistema missioneiro não se reduz ao conjunto de reduções consagradas pela historiografia; ele abrange também ocupações reconhecidas cartograficamente como pertencentes ao universo institucional jesuítico, para as quais a representação cartográfica não estabelece qualquer distinção de estatuto, ainda que nem todas tenham sido incorporadas de maneira equivalente às narrativas historiográficas posteriores".
O artigo é de José Manuel Marques Teixeira de Oliveira, graduado em Geologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre em Geociências pelo Convênio UFRGS/PETROBRAS, especialista em Geologia do Petróleo pela Universidade Corporativa da Petrobras e pós-graduado em Regulação de Mercados de Petróleo e Gás Natural pela UFRJ.
Oliveira foi professor por 7 anos na Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, lecionando as disciplinas de Geologia Estrutural, Geotectônica e Geologia de Engenharia. Atualmente é coordenador e pesquisador na Unisinos, integrando o Núcleo de Excelência em Modelagem Geológica e Numérica - MGEN, onde está envolvido em projetos de reavaliação de reservatórios, modelagem estratigráfica e desenvolvimento de softwares para a indústria petrolífera.
Nos mapas coloniais do século XVIII, entre linhas de costa, cursos d’água e topônimos hoje pouco familiares, surgem registros que nem sempre encontram correspondência imediata nas narrativas históricas consolidadas. Essas discrepâncias não se explicam apenas pela ausência de documentos, mas também pelo fato de que o registro cartográfico e a documentação administrativa operam segundo lógicas distintas de validação da presença histórica. Em regiões de fronteira, marcadas por instabilidade e disputa territorial, esse descompasso tende a se acentuar.
É a partir desse estranhamento que este texto se constrói. A análise da cartografia francesa do século XVIII, produzida sob rigorosa disciplina técnica, revela dois topônimos, “Taim” e “Reducto da Mangaveira/Réduction de Mangaveira” *, situados na planície costeira do extremo sul do Brasil. As localidades aparecem nos mapas de Jean-Baptiste Bourguignon d’Anville (1748) e em sua reelaboração por Jacques-Nicolas Bellin (1753), integradas ao mesmo conjunto cartográfico que reúne aldeamentos e reduções vinculados à ação missioneira jesuítica.
Esses registros não ocupam lugar central nas narrativas usuais sobre as missões jesuíticas no sul do Brasil. Ainda assim, sua presença no mapa é inequívoca e convida a uma leitura atenta, uma vez que ambas as localidades são representadas com o mesmo sinal gráfico empregado para as reduções jesuíticas interioranas tradicionalmente reconhecidas pela historiografia, sem qualquer distinção visual ou classificatória (Figura 1).
Convém assinalar que apenas Mangaveira é explicitamente designada como Reducto/Réduction na carta. A singularidade da designação não indica hierarquia superior nem exceção institucional, mas reflete uma lógica própria da representação cartográfica. As reduções interioranas, inseridas em um núcleo missioneiro amplamente reconhecido, dispensam nomeação textual explícita, uma vez que seu pertencimento ao sistema jesuítico já é pressuposto pelo contexto regional e pela simbologia empregada. Mangaveira, ao contrário, situada fora desse núcleo clássico, em uma zona costeira e fronteiriça, requer a explicitação do termo para afirmar cartograficamente um estatuto que, em outras regiões, era pressuposto. Nesse contexto, a nomeação explícita em Mangaveira é suficiente para afirmar o caráter missioneiro das ocupações litorâneas representadas no mapa, já que Taim compartilha a mesma simbologia e o mesmo enquadramento tipológico. Onde o caráter missioneiro era evidente, o mapa não precisou nomear; onde poderia haver dúvida, a designação aparece. O mapa, assim, não hierarquiza, mas estabiliza classificações, fixando o estatuto missioneiro de Mangaveira (e, por extensão, das ocupações litorâneas associadas) em um espaço que, mais tarde, seria reinterpretado como neutro, vazio ou marginal pelas narrativas territoriais posteriores.
Figura 1 — Suite du Brésil (1753), de Jacques-Nicolas Bellin, a partir do mapa de Jean-Baptiste Bourguignon d’Anville (1748). O mapa destaca a distribuição de aldeamentos indígenas e missões jesuíticas conforme a cartografia francesa do século XVIII. Observam-se, na planície costeira do extremo sul do Brasil, as localidades de Taim e Réduction de Mangaveira, representadas com a mesma simbologia atribuída às reduções jesuíticas interioranas, integradas ao mesmo sistema classificatório e espacial do conjunto missioneiro.
Figura 2 — Detalhe do Suite du Brésil de Jacques-Nicolas Bellin (1753), em versão original em preto e branco, mostrando Taim e a Réduction de Mangaveira representadas com a mesma simbologia utilizada para as reduções jesuíticas interioranas.
Não se trata de localidades isoladas ou marginais: apesar de seu relativo afastamento geográfico em relação ao núcleo das reduções jesuíticas interioranas, sua representação conjunta é compatível com redes de circulação reconhecidas na construção cartográfica do espaço. Tal enquadramento espacial é particularmente significativo em uma região que, algumas décadas mais tarde, seria formalmente definida como zona de neutralidade entre impérios (Campos Neutrais). Essa neutralização diplomática não surge de um vazio territorial, mas constitui uma formalização tardia de um espaço já reconhecido como sensível, articulado e disputado. Ao incidir sobre uma região previamente integrada a circuitos de circulação e ocupação, a neutralidade posterior acaba por confirmar a relevância histórica anterior do território, exatamente aquela que a cartografia francesa do século XVIII já havia registrado ao incluir Taim e a Réduction de Mangaveira no mesmo universo espacial das reduções jesuíticas.
Esse reconhecimento cartográfico não pressupõe plena contemporaneidade; ele afirma, antes, uma equivalência institucional no plano da representação espacial, mesmo quando a representação cartográfica admite a coexistência de experiências missioneiras de cronologias possivelmente distintas.
No entanto, essa lógica classificatória, própria da cartografia, não se transfere automaticamente para a escrita da história. A historiografia missioneira tradicional tende a privilegiar núcleos com maior densidade documental e continuidade administrativa e, nesse contexto, a presença jesuítica no litoral do Rio Grande do Sul parece ocupar lugar secundário e pouco sistematizado, sendo geralmente tratada de forma pontual ou indireta, sem plena integração às interpretações sobre o sistema missioneiro como um todo. Nesse sentido, os mapas franceses do século XVIII sugerem que o sistema missioneiro reconhecido pela cartografia é mais amplo do que aquele que acabou por se estabilizar nas sínteses historiográficas.
É nesse descompasso entre critérios cartográficos e historiográficos que se insere a questão terminológica. O termo “Reducto”, tal como empregado na documentação ibérica e preservado no mapa de d’Anville, não assegura estatuto administrativo pleno, mantendo certa ambiguidade quanto à natureza institucional da ocupação. Na reelaboração cartográfica de Bellin, essa ambiguidade é resolvida: Mangaveira passa a ser incorporada ao conjunto das Réductions, segundo critérios espaciais e tipológicos próprios da cartografia, e não segundo exigências administrativas. Ainda assim, mesmo no mapa de d’Anville, o Reducto da Mangaveira já é tratado sem distinção simbólica em relação às reduções jesuíticas do interior, o que indica que seu pertencimento ao universo missioneiro estava implicitamente reconhecido.
Em alguns exemplares do Suite du Brésil, posteriormente coloridos à mão, essa leitura torna-se mais fácil de perceber (Figura 2). Taim e a Réduction de Mangaveira aparecem destacados com a mesma cor atribuída às demais reduções, o que apenas reforça uma classificação já indicada pela simbologia e pela legenda originais, tornando mais visível um enquadramento que já estava presente na concepção inicial da carta.
A ausência de incorporação sistemática dessas localidades nas narrativas historiográficas posteriores convida a considerar que tal situação esteja menos ligada a uma diferença de estatuto missioneiro e mais ao fato de a cartografia preservar um tipo de memória espacial que não coincide plenamente com os critérios pelos quais a historiografia consolidou seu corpus principal. Enquanto a historiografia tende a privilegiar experiências institucionalmente consolidadas e intensamente documentadas, a cartografia registra também pertencimentos espaciais e classificatórios que nem sempre se traduziram em continuidade administrativa ou abundância de fontes escritas.
É plausível supor que a posterior formalização dos Campos Neutrais, ao redefinir diplomaticamente a região como espaço cuja ocupação legítima passava a ser suspensa no novo ordenamento imperial, tenha contribuído para enfraquecer a permanência historiográfica de presenças anteriores pouco compatíveis com esse enquadramento. Nesse contexto, aquelas ocupações missioneiras litorâneas tornaram-se particularmente vulneráveis ao esquecimento não por ausência de reconhecimento em seu tempo, mas pelo desalinhamento entre sua memória espacial e as narrativas territoriais que se consolidaram posteriormente.
Figura 3 — O mesmo detalhe cartográfico em exemplar do Suite du Brésil posteriormente colorido à mão. A aplicação da cor vermelha sobre os símbolos reforça o agrupamento tipológico das localidades no conjunto das reduções, sem introduzir nova interpretação em relação à versão original.
À luz dessas considerações, a leitura de Taim e da Réduction de Mangaveira aponta para a necessidade de reconhecer que, no plano da representação espacial, essas localidades foram compreendidas como parte integrante do universo missioneiro jesuítico no sul do Brasil. Tal constatação convida a um diálogo mais atento entre cartografia e historiografia, capaz de incorporar registros que escapam aos critérios tradicionais de validação documental. Mais do que preencher lacunas, trata-se de interrogar os próprios mecanismos pelos quais determinadas experiências do passado foram preservadas, enquanto outras não alcançaram o mesmo grau de consolidação historiográfica. O sistema missioneiro não se reduz ao conjunto de reduções consagradas pela historiografia; ele abrange também ocupações reconhecidas cartograficamente como pertencentes ao universo institucional jesuítico, para as quais a representação cartográfica não estabelece qualquer distinção de estatuto, ainda que nem todas tenham sido incorporadas de maneira equivalente às narrativas historiográficas posteriores.
*Mangaveira apresenta afinidade toponímica com a atual Lagoa Mangueira, sendo a variação gráfica compatível com práticas cartográficas do século XVIII e com a localização da ocupação junto a este sistema lagunar.